1846

Maria da Fonte. A sublevação anti-situacionista terá começado em Santo André de Frades, concelho da Póvoa do Lanhoso, em 19 de Março, com a populaça a revoltar-se contra o governo dos Cabrais por causa da Junta de Saúde e das bilhetas. Prendem-se algumas mulheres e logo ajuntamentos vão soltá-las, arrombando as cadeias, protestando contra o despotismo dos administradores e empregados e enfrentando os soldados, que se apresentam como a mão longa da capital. A populaça assalta as repartições queimando os papéis das finanças, com muita gente armada de roçadora. Depressa se propaga ao Minho, sob a liderança de padres como Casimiro José Vieira, João do Cano, Manuel das Agras e José da Laje. A própria cidade de Braga chega a estar ameaçada pelos populares dos arredores e até há um ataque a Guimarães (14 de Abril).

Todo um povo em massa  –  – A contribuição de repartição, e o imposto sobre os mortos foi o rastilho...o cálice das amarguras estava cheio, e a bolsa dos povos inteiramente vazia... era todo um povo em massa, todas as Cidades, Vilas e Aldeias de um reino a exprimirem o mesmo pensamento com a mesma energia e pela mesma forma. Foi um facto grandioso e virgem (palavras do miguelista João de Lemos, em 18 de Março de 1847, em carta a D. Miguel).

As fogueiras da revolta – Pedi um palito de fogo, que apareceu de pronto e aceso, disse alto que eram aqueles os papéis da nossa desgraça, cheguei-lhes o fogo e mandei-o chegar também a todos os papéis que estão no chão, porque entendi que já se lhes não podia valer. Com isto ficou o povo mui contente, a olhar para mim com agrado, por ver que eu estava do seu partido, por ser padre, o único dessa classe que ali aparece, e por andar mais limpo do que os que estão presentes. Começou logo o povo a respeitar-me e a sacudir-me a gola de veludo da capa as cinzas dos papéis que vinham pelo ar, e nela me caíam (Padre Casimiro). E eis o guerrilheiro a achar-se metido na revolução sem o procurar nem querer, sem nada saber de guerra e até sem nada saber de política, nem dela me importar em tempo algum, apesar de considerar-se realista, ou legitimista, que pugnava pela Religião Católica, acreditando num plano da Providência, porque vejo marchar todo o povo unânime e com o mesmo entusiasmo para um ponto, sem ser chamado por alguém, fez-se chefe, sem autorização alguma, mas recebendo-a do mesmo povo, porque, para vencer seria necessário que a força de todos os indivíduos se tornasse numa só pela união, e que isto só se conseguiria pela obediência a um chefe, e que eu, comprometido como me achava, me ofereci para o comando geral; mas que a minha autorização só do povo me podia provir, para eu poder castigar com penas severas os delinquentes e os desobedientes.

Uma revolução diferente – Em discurso na Câmara dos Deputados, António Bernardo da Costa Cabral, depois de reconhecer que há uma conspiração permanente contra as instituições actuais, contra a ordem estabelecida, e mãos ocultas que manejam estas conspirações, reconhece que a revolução do Minho é uma revolução diferente de todas as outras, que até hoje têm aparecido, porque todas as outras revoluções têm tido por bandeira um princípio político, mais ou menos, mas esta revolução é feita por homens de saco ao ombro, e de foice roçadora na mão, para destruir fazendas, assassinar, incendiar a propriedade, roubar os habitantes das terras que percorrem, e lançar fogo aos cartórios, reduzindo a cinzas os arquivos!. Que é levada a cabo sem chefe pela mais ínfima classe da sociedade, havendo um bando de duas mil e quatrocentas, a três mil pessoas armadas, com fouces roçadoras, alavancas, chuços, espingardas, com tudo quanto eles podem apanhar, impondo-se tomar medidas enérgicas e fortes, para a espada da lei cair sobre as suas cabeças (20 de Abril).

A primeira queda dos Cabrais – José Bernardo é enviado para o Porto, com plenos poderes para dominar as revoltas (21 de Abril). Entretanto, em 7 de Maio, uma série de deputados pede a demissão do governo. Costa Cabral ainda começa por desdenhar da movimentação, mas em 17 de Maio já o governo é obrigado a apresentar a respectiva demissão.

Pés fresco e pata ao léu. O ódio ao novo Estado é tal ordem que os revoltosos começavam quase sempre incendiando as delegações locais da fazenda, eliminando os registos e supondo que assim deixariam de pagar contribuições. Em breve este grupo de pata ao léu passa a ter a colaboração e o enquadramento dos pés frescos do setembrismo, formando-se, por todo o reino, juntas revolucionárias a partir dos gabinetes locais da coalizão oposicionista. A primeira surge em Vila Real, presidida pelo morgado de Mateus. Estudantes de Coimbra deslocam-se à Figueira da Foz e assaltam o forte de Santa Catarina. Passos Manuel preside à junta de Santarém. Em Braga é o visconde do Valongo.

Intervenção dos miguelistas – O movimento das guerrilhas, a partir de Maio, é politizado, quando vários miguelistas passam a apoiar as juntas, com Francisco de Lemos Ramalho Azevedo Coutinho em Coimbra, Povoas na Guarda e Visconde da Azenha em Guimarães. Entretanto, D. Miguel é aclamado rei em Valpaços e Montalegre, nos dias 14 e 16 de Junho. Em Trás-os-Montes, os miguelistas passam a ser comandados militarmente por Bento Gonçalves de Moura e Paulo Mauriti. Em Julho e Agosto, há levantamentos do mesmo teor no Minho, sob o comando de Francisco de Abreu Coutinho e do irmão, José Maria Coutinho de Abreu, principalmente na zona Norte. Na zona de Braga destaca-se Aboim da Nóbrega. Há também levantamentos na Beira Litoral, na Beira Baixa e nos arredores de Lisboa.

Setembristas contra miguelistas – O governo de Palmela nomeia o conde das Antas para enfrentar as revoltas miguelistas em 24 de Agosto, mobilizando-se os setembristas contra os miguelistas. Usam-se também alguns padres liberais e criam-se batalhões de forças populares, nomeadamente os comandados pelo cónego Francisco de Montalverne.

Pelas leis fundamentais! O comum dos homens, se conduz melhor pelos seus hábitos, que pelo juízo, pelo que a regra vulgar da política, e recebida em todas as Nações, e em todos os séculos, que as Leis fundamentais , e Políticas (dos) Estados, se não devem alterar, sem uma absoluta necessidade, que he só quando elas são contrárias à recta razão, e opostas ao bem público; e que neste caso único, ainda a alteração, e mudança se deve operar muito lenta, e imperceptivelmente aos homens, porque a antiguidade de qualquer estabelecimento, e Leis, sempre foi tido por coisa Santa e venerável. E isto porque os costumes dos Povos necessitam do socorro das Leis para serem mantidos; e as Leis tem precisão dos costumes dos Povos, para serem observadas. Palavras de Cândido Figueiredo e Lima (1782‑1851), lente saneado e conspirador miguelista, defendendo o modelo constitucional britânico.

O programa do miguelismo populista – O novo governo é uma farsa e combinação das seitas para tudo ficar como até ali, com a mudança apenas de pessoas . Fala de opressões injustas que têm feito ao povo, tratando-o até agora como se fossem negros e escravos. Pede à Rainha que nomeie para toda a parte homens da maior integridade e desinteresse (... ) homens escolhidos à vontade do povo; que se baixem os impostos; nomeadamente a abolição das portagens; que as magistraturas locais possam ser exercidas gratuitamente; que aos deputados se lhes façam os gastos da comida e transportes à custa do povo, mas que não embolsem dinheiro nenhum, para que depois não haja nas eleições tanto suborno, e o povo atine com a boa escolha. Propõe mesmo a constituição de um exército popular: quer também o povo...que nas guardas nacionais entre todo o homem voluntariamente...e que os oficiais sejam escolhidos por votação de todos os militares da guarda nacional. E não deixa de defender a instituição do sufrágio universal: as eleições para toda a espécie de justiça e autoridade sejam de todo populares sem excepção de pessoa, a não ser as que não lêem, nem escrevem, para evitar enganos e despertar a instrução, porque só assim se pode exprimir a vontade geral dos povos, que é a verdadeira lei (Padre Casimiro José Vieira, numa carta escrita a D. Maria II em 6 de Julho de 1846, depois de lida ao povo para saber se o que nela se dizia é a vontade de todos).

Ganhar o coração dos homens… A máxima vulgar da política, e adoptada na Arte de Reinar, pelos mais graves homens de Estado, que é preciso ganhar o coração dos homens, para se submeterem de vontade; e que, quanto for possível, se devem conduzir sem coacção pela boa ordem, e pela esperança das recompensas (Cândido Figueiredo e Lima).

Intervenção da hierarquia miguelista – Só em Novembro de 1846 é que o Padre Casimiro José Vieira passa a alinhar com a hierarquia miguelista, que apenas aproveita a chamada onda para tentar desencadear a catarata. A guerrilha, já integrada na rede que visava a restauração, tem extensões no Poto (Padre Luís Sousa Couto), Viana do Castelo (António Tavares), Trás-os-Montes (Cândido Figueiredo e Lima) e Lisboa (morgado de Vale de Perdizes). Macdonell começa a movimentação em 11 de Novembro em Castelo de Paiva.

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 03-05-2007