Patuleia O Duque da Terceira, nomeado delegado da Rainha no Norte, depois de passar revista às tropas no Terreiro do Paço, embarca com destino ao Porto (8 de Outubro).

●As juntas nascidas durante a Maria da Fonte começam a reorganizar-se e a revolta alastra por todo o país, amotinando-se várias localidades nas próprias vizinhanças de Lisboa, como Sintra, Torres Vedras, Caldas da Rainha e Alcobaça. Surgem guerrilhas por todo lado. O governo e a banca juntos tentam armar gente, mas só conseguem 3 000 homens sob o comando de D. Fernando.

Setembristas legitimam o canalhismo – Como observa Camilo Castelo Branco, se o fermento azedo que fez levedar a revolução de 1846, foram as assuadas das mulheres à volta dos cadáveres exumados, o que seria irrisório se não fosse bestialmente repugnante, eis que o setembrismo resvalou dos seus briosos princípios avançados, porque estes  ao preconizarem ... um tumulto fanaticamente alarvejado como estimulante de evolução progressista foi descaro que transcende todos os maus costumes da devassa Política. Arguiam a rainha e os seus ministros predilectos de retrógrados, escarneciam a religião nos prelos e nos templos, e ao mesmo tempo insinuavam no clero miguelista do Minho que acirrasse a plebe boçal contra a lei ímpia que proibia as inumações na terra das igrejas. Os de Setembro, espíritos fortes e demolidores dos preconceitos inveterados, desonraram-se legitimando o canalhismo do motim popular nos adros e o incêndio dos arquivos nas regedorias e nas câmaras

De novo a Guerra Civil – Começa a sublevação no Porto (10 de Outubro). Terceira, que tinha sido enviado à cidade, é, de imediato, preso. Os revoltosos, designados por Patuleias, pegam em armas. Conde das Antas, vindo de Braga assume o comando militar da sublevação (10 de Novembro). Preside à Junta e tem José Passos (1800-1863) como vice-presidente. Circulam manifestos: a revolução do Minho, a revolução mais gloriosa da nação Portuguesa foi traída pela Soberana. Outros líderes da revolta são António Dias de Oliveira e António Luís de Seabra, todos maçons, sendo também marcante a Junta de Coimbra, liderada por José Alexandre de Campos.

Eia avante! Eia avante!

Eia avante! Não temer!

Pela santa liberdade,

Pelejar até morrer!

Saldanha pede a intervenção das potências da Quádrupla Aliança, alegando o surgimento de uma revolta miguelista (13 de Outubro). Espanhóis mandam logo um corpo de intervenção para as fronteiras. Cabral é embaixador em Madrid. Em Londres, Palmerston diz não haver miguelistas e impede a intervenção espanhola. Como salienta Oliveira Martins, nós, em casa, evidentemente não tínhamos força para nos governarmos; e depois de doze anos de liberdade, o Portugal novo achava-se, como o antigo, dividido em duas fracções sem que nenhuma tivesse poder bastante para submeter a contrária.

Ganhar o coração dos homens… A máxima vulgar da política, e adoptada na Arte de Reinar, pelos mais graves homens de Estado, que é preciso ganhar o coração dos homens, para se submeterem de vontade; e que, quanto for possível, se devem conduzir sem coacção pela boa ordem, e pela esperança das recompensas (Cândido Figueiredo e Lima).

Conde das Antas parte do Porto, em direcção ao Sul, com um exército patuleia, onde participam cartistas, setembristas e miguelistas (14 de Outubro).

D. Maria II escreve à Rainha Vitória, pedindo-lhe ajuda e criticando o marquês de Loulé (30 de Outubro).

Patuleias em Santarém – António César Vasconcelos Correia, ao serviço da Patuleia, já domina Santarém (11 de Março). Coluna de Mouzinho de Albuquerque sai desta cidade (11 de Outubro).

Intervenção da hierarquia miguelista – Só em Novembro de 1846 é que o Padre Casimiro José Vieira passa a alinhar com a hierarquia miguelista, que apenas aproveita a chamada onda para tentar desencadear a catarata. A guerrilha, já integrada na rede que visava a restauração, tem extensões no Poto (Padre Luís Sousa Couto), Viana do Castelo (António Tavares), Trás-os-Montes (Cândido Figueiredo e Lima) e Lisboa (morgado de Vale de Perdizes). Macdonell começa a movimentação em 11 de Novembro em Castelo de Paiva.

Wylde, o mediador inglês, encontra-se com o conde das Antas e Luís Mouzinho de Albuquerque, como representantes do exército patuleia, nos arredores de Santarém (13 de Novembro).

●Sá da Bandeira é derrotado em Valpaços pelas tropas do barão do Casal (16 de Novembro) e quando regressa ao Porto, é atacado pelas guerrilhas miguelistas de Mac Donnel, na zona de Paiva (19 e 20 de Novembro). José do Telhado, ou José Teixeira da Silva (1816-1875), bandido da região do Douro, apoia os setembristas, tendo salvo a vida a Sá da Bandeira.

●No Alentejo, os patuleias são comandados pelo general Celestino, futuro visconde de Liceira, por Bonfim e pelo conde de Melo, sendo agitados pelo guerrilheiro Galamba, um farmacêutico. Já os governamentais são comandados por Schwalbach.

●Saldanha vence os patuleias em Torres Vedras, destroçando as forças do conde de Bonfim (22 de Dezembro). Cerca de três centenas de baixas entre os anti-governamentais.

Morte de Luís Mouzinho de Albuquerque, ferido gravemente no combate de Torres Vedras (27 de Dezembro).

●Tropas miguelistas, comandadas por Macdonell, são dizimadas em Braga pelo barão do Casal (20 de Dezembro), sendo obrigadas a retirar para Vila Real, onde chegam em 21 de Janeiro de 1847. Macdonell encerrará a sua louca intervenção, onde não faltaram intensos dias de libações, com a morte, em 30 de Janeiro.

O Espectro – Surge o jornal-panfleto Espectro, dirigido por António Rodrigues Sampaio em Dezembro. Distribui-se clandestinamente e imprime-se em vários lugares, nomeadamente numa fragata surta no Tejo. Aí se fazem ferozes ataques à família reinante: a realeza vilipendiada não é somente inútil, é um mal. Porque uma rainha que se declara seis meses coacta em cada ano não é rainha. E o paço é a espelunca de Caco, onde sempre se têm reunido os conspiradores. A púrpura dos reis tem servido para varrer a imundície dos palácios e dos cortesãos mais abjectos.

Camilo Castelo Branco na guerrilha – Camilo, de família miguelista, depois de ter participado nas guerrilhas deste teor, quando era estudante de Coimbra, sendo mobilizado pela coluna de Milhundres, que conquistou Penafiel. Em Setembro de 1847 foi, entretanto, agredido por um caceteiro do governador cabralista de Vila Real, José Cabral Teixeira de Morais, por não ter tirado o chapéu a este. Interroga-se, entretanto: Porventura, devo culto ao déspota, porque vejo um cacete que pode espancar-me?. É que o despotismo não tem direitos: - tem a força bruta; e mal daquele que não pode contrapor-lhe o ferro com o ferro, o cacete com o cacete, e o sentimento brutal com a degradação do raciocínio. Depois que o vislumbre de humanidade se apagou no coração, quebrados estão os vínculos sociais, e rotos os aços de parentesco com os outros homens: a sensibilidade torna-se ferro - o semblante de horror; e de afronta as vozes, o ar, as ideias, e o nome. Ninguém há que não sinta a aspereza do despotismo, ao roçar--se por esse cadáver despojado de moralidade, de impressões dolorosa e de consciência do bem; aí não há mais que vitupérios, calúnias, e um fragmento do mundo irracional, que nos ensina a conhecer as galas da razão (Delitos da Mocidade, 1889).

1847

Derrota dos patuleias em Setúbal – Sá da Bandeira, depois do combate do Alto do Viso, aceita armistício (5 de Janeiro). Perde 500 homens na refrega, diante das tropas governamentais são comandadas pelo conde Vinhais.

Novo comandante dos realistas. Derrota miguelista em Vila Pouca de Aguiar. Mac Donnel, chacinado (30 de Janeiro). Em 31 de Janeiro Cândido Figueiredo e Lima nomeia o general Bernardino Coelho Soares como novo comandante em chefe das tropas realistas.

Ataque a Estremoz – O exército da Patuleia, comandado pelo conde de Melo, ataca Estremoz (27 de Fevereiro).

Concha no Porto – Divisão espanhola de doze mil homens ocupa o Porto (6 de Março). Vem através de Trás-os-Montes até Valongo.

●Lord John Russell reconhece: não percamos também Portugal. A nossa influência está desaparecendo rapidamente (carta de Março).

●Sá da Bandeira detém-se em Setúbal (16 de Abril).

Acordo entre miguelistas e as juntas – Entretanto, D. Miguel instala-se em Londres (2 de Fevereiro). Os miguelistas tentam negociar com as Juntas através do general António Joaquim Guedes (1789-1861) e de João de Lemos Seixas Castelo Branco (1819-1890), poeta e futuro redactor de A Nação, ambos com o apoio do general Bernardino, para quem o grande fim é salvar a Nação da tirania cabralina. Do lado das juntas, o interlocutor é António Luís de Seabra. D. Miguel apoia expressamente o processo (6 de Abril).

Barbacena – Em 12 de Abril, D. Miguel nomeia como seu lugar-tenente no reino o conde de Barbacena que logo é seduzido por várias ofertas, vindas do poder estabelecido. D. Maria II tenta sondá-lo para um lugar no Conselho de Estado e Saldanha chega a sondá-lo para a constituição de um governo.

●Novos tumultos patuleias em Lisboa, fugindo cerca de seiscentos presos do Limoeiro (29 de Abril).

Esquadra britânica bloqueia o Douro, impedindo a saída da esquadra do conde das Antas (27 de Maio). Segundo Victor de Sá, obedece a uma táctica de capitulação, porque se trata de um plano suspeito: uma expedição marítima, no preciso momento em que a barra do Porto era bloqueada por cinco navios britânicos, três espanhóis e um francês...A sorte da expedição fora prevista.

Febre tifóide – Começa uma epidemia de febre tifóide que vai durar cerca de dois anos.

Convenção do Gramido. Assinam Loulé e António César Vasconcelos Correia pelas juntas, na presença dos espanhóis general D. Manuel Gutierrez de la Concha, coronel Buenaga e o inglês coronel W. Wylde (24 de Junho). Tudo acontece na aldeia do Gramido, freguesia de Santa Maria de Campanha. Como salienta Oliveira Martins, o povo voltava para casa, chorando: chorando assistira à entrada de Concha. Para José Miguel Sardica, Saldanha nunca foi o factotum de Costa Cabral, queria ter o napoleónico papel de grande fusionista, apesar de aceitar em Setembro de 1846 a presidência do partido cartista-cabralista. Acrescenta que a Patuleia veio a ser uma gigantesca operação magistralmente encenada, mas nunca assumida por razões de oportunidade política, entre Saldanha e os chefes moderados da Junta, sua inimiga, no sentido de que o resultado final fosse não haver vencedores nem vencidos, o que explicaria a genérica falta de vontade de combater de parte a parte, acontecendo um empate técnico laboriosamente combinado entre os contendores, para que se realizasse o sonho da fusão..

●Com a Convenção, imposta por forças militares estrangeiras, em nome da Quádrupla Aliança de 1834, a Santa Liberdade acabara usurpada. Como então chega a proclamar Rodrigues Sampaio, deixávamos de ter uma coroa pela graça de Deus e pela Constituição, dado que a mesma passava a sê-lo por graça dos aliados, ingleses e espanhóis, sobretudo, e vontade do estrangeiro.

●Encerra-se o processo das revoltas militares miguelistas. Terão existido cerca de 126 ocorrências revoltosas desse teor em 1846-1847, mas só em meia centena delas se nota a existência de chefias, segundo o estudo de José Brissos. Apenas são identificadas as lideranças de treze padres, destacando-se, além do padre Casimiro José Vieira, o padre Manuel Fernandes Agras, o abade de Priscos, Luís António Pereira. O essencial das movimentações não passou de povo em armas, onde tiveram especial preponderância pequenos proprietários contra os funcionários do Estado e contra os militares dependentes do centro.

Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 03-05-2007