
Regresso à República
Velha – Depois da derrota da revolta monárquica de Monsanto, regressa-se à república
velha, num pequeno intervalo de forte instabilidade política que
se encerra com a noite sangrenta de 19 de Outubro de 1921.
Um ciclo situado entre dois magnicídios, o de Sidónio, perpetrado por
um qualquer Júlio Costa, e os de António
Granjo, Machado Santos e Carlos da Maia, talvez instigados por um
tal José Olímpio, mas sem que se conheçam os subsolos inspiradores, face
a contraditórias teses que invocam sotainas jesuíticas, capitalistas
esfaimados e tenebrosas lojas maçónicas, segundo as habituais teorias
da conspiração. No plano da forma do poder, há um regresso ao parlamentarismo,
embora o presidente da república passe a ter direito à dissolução parlamentar,
nos termos da Lei nº 891 de 22 de Setembro de 1919. Aliás, a figura do
presidente da república, depois da eleição de António
José de Almeida em 5 de Outubro de 1919, vai provocar alterações
na dinâmica política, não tanto pelo intervencionismo do mesmo, quanto
pelo facto de a personalidade escolhida deixar de liderar os evolucionistas,
permitindo que estes se fundissem com os unionistas. Há também uma grande
instabilidade governativa, com cerca de uma dezena de ministérios no
curto espaço de dois anos, onde não faltam duas experiências de militarismo,
assumidas pelos democráticos, com António Maria Baptista e Liberato Pinto.
Com
o fim do sidonismo desaparecem como protagonistas do processo político Afonso
Costa e Brito Camacho e, de certa maneira, António
José de Almeida, bem como João Chagas. Alfredo Ernesto Sá Cardoso,
chefe de governo durante cerca de seis meses na segunda metade de 1919 é o
símbolo dos jovens turcos, representando as esperanças e as frustrações
dos que desencadearam o 5 de 1910. Apesar de hierarca do regime e de figura
cimeira da revolução de 14 de Maio de 1915, não deixa de se oferecer como
voluntário para Grande Guerra, mobilizando para o governo uma série de
colegas de geração, como Álvaro de Castro, os quais hão-de autonomizar-se
dos democráticos como reconstituintes. Começa também a emergir Francisco
Pinto da Cunha Leal, mestre
do radicalismo e da incoerência, ele que é sucessivamente centrista, sidonista,
popular e conservador, nesses curtos dois anos, para, depois, se assumir
como um dos inspiradores do 28 de Maio e acabar como um incorrigível reviralhista
face ao Estado Novo.

No
plano da dinâmica dos governos, eis que, em dois anos apenas, se
sucedem treze ministérios, mas com um deles a nem sequer poder tomar posse,
por pressões da rua. Há também três eleições gerais. Assim, depois do governo
de transição de José Relvas,
mais um governo de desforra do que um gabinete de acalmação, surge
o de Domingos Pereira,
durante cerca de três meses, com cinco democráticos, três evolucionistas
dois unionistas, um socialista e um independente, período durante o qual
se realizam as eleições de 11 de Maio de 1919, com vitória dos democráticos.
Segue-se, durante seis meses, o governo de Sá Cardoso,
dominado pela ala moderada dos democráticos, mas onde seis ministros serão
futuros aderentes à dissidência reconstituinte, liderada por Álvaro
de Castro. Já a experiência monopartidária liberal de Fernandes Costa
nem sequer chega a tomar posse, devido a uma acção de rua dos restos da formiga
branca, pelo que se recorre mais uma vez a Domingos
Pereira, durante 47 dias, com quatro democráticos, quatro liberais
e um socialista. Contudo, este governo continua a ser dominado por futuros
dissidentes dos democráticos, agora da ala que há-de ser encabeçada pelo
então presidente do ministério, que apenas tem a oposição formal dos populares.
A sexta tentativa é a de António Maria Baptista e de Ramos Preto, num ministério
todo ele democrático, mas com o apoio de socialistas e populares e oposição
de liberais, com a expectativa dos reconstituintes. Neste, o presidente
morre, aliás, em pleno exercício de funções, numa altura em que os alvaristas
saem do partido democrático e institucionalizam o partido reconstituinte.
Pouco depois, uma sétima tentativa, com António
Maria da Silva, durante 23 dias, com três democráticos, dois populares
e um socialista, mas com a recusa de colaboração de reconstituintes e liberais.
A oitava tentativa tem a liderança do liberal e ex-evolucionista António
Granjo, durando cerca de quatro meses, com três liberais, três reconstituintes
e um democrático. Em nono lugar, vem a liderança do reconstituinte Álvaro
de Castro, com cinco dos seus correligionários, três dissidentes democráticos,
do grupo de Domingos Pereira,
enquanto liberais e democráticos se assumem como da oposição. Em
décimo lugar, Liberato Pinto, com seis democráticos, quatro ortodoxos e
dois dissidentes do grupo de Domingos Pereira, três reconstituintes, dois
populares e um independente. Bernardino Machado lidera a décima primeira
experiência, por quase três meses, com quatro democráticos (três ortodoxos
e um dissidente do grupo de Domingos
Pereira), três reconstituintes e dois populares. Falhando este predomínio
dos democráticos, é então chamado o liberal Barros Queirós, para uma décima
segunda tentativa, durante cerca de três meses, num governo monopartidário,
mas liderado pelos liberais ex-unionistas. Depois das eleições, onde venceram
os liberais, segue-se a décima terceira e última das tentativas, com António
Granjo em novo governo monopartidário liberal, mas agora dominado pelos
ex-evolucionistas. Dura cinquenta dias e será derrubado pelo golpe outubrista
e pela noite sangrenta.

No
tocante à imagem do poder, tenta dizer-se uma república para
os republicanos e chega a seduzir-se a chamada classe operária com
alguns ministros socialistas, utilizados, sobretudo, como figuras decorativas.
Estava-se no tempo das revoluções bolchevistas do imediato pós-guerra e
a República tenta utilizar o mesmo processo que falhara com D. Manuel II
através de Wenceslau de
Lima, vivendo-se um breve momento de ilusão laborista, não por causa da
força dos ministros socialistas, mas antes pela ilusão de que os mesmos
poderiam causar nas massas operárias, desviando-as do anarco-sindicalismo,
numa técnica divisionista que o próprio salazarismo vai utilizar quando
mobiliza os mesmos socialistas e até os líderes do nascente comunismo para
colaborarem com a fundação do corporativismo.
No
plano da sede real do poder, continua o predomínio do partido democrático,
agora sem a liderança de Afonso
Costa, começando a emergir António
Maria da Silva. Contudo, o partido tem de compartilhar o processo com
o Exército e a GNR e chega a ser desafiado pela alternativa liberal que
ganha as eleições de 1921.
Destaca-se também a actuação dos governadores civis. A alavanca fundamental
do poder está na instrumentalização dos cerca dezassete mil lugares criados
em 10 de Maio de 1919, com a consequente política de saneamento dos hierarcas
sidonistas. E neste processo de controlo da burocracia continua a ser mobilizado
o grupo da formiga branca e o seu líder Daniel Rodrigues ainda bastante
activo em 1920. Não falta sequer a utilização do Grande Oriente Lusitano,
não sendo por acaso que o grão-mestre e o seu vice, Magalhães Lima e José de
Castro assumem funções governamentais depois do 14 de Maio. Mas outras
forças vão surgir com a nova relação estabelecida entre os capitalistas
e os jornais, destacando-se, por um lado, o partido do jornal O Século,
que começa com campanhas contra as moagens para acabar porta-voz das mesmas,
e, por outro, o partido do Diário de Notícias, ligado à Associação
Comercial de Lisboa e dominado por Moses Bensabat Amzalak. No plano militar,
eis que depois do protagonismo assumido pelos cadetes de Sidónio se
dá um regresso à liderança dos jovens turcos, já quarentões. Mas
dá-se uma fundamental alteração do processo com o número exagerado de oficiais
provocado pela guerra. Oficiais que se sentem desempregados e mal tratados
pela sociedade. Surge também o partido da GNR.

No
plano da política de segurança, refira-se tanto a criação de uma
polícia política como institucionalização de um Tribunal de Defesa Social,
face à sucessão de violências grevistas e até de terrorismo bombista, numa
espiral que leva a tentativas de autoritarismo governamental militarista,
com os democráticos. Nos governos de António Maria Baptista e Liberato
Pinto surge a ilusão bonapartista, com quase todas os grupos políticos
a darem força às metralhadoras da GNR, ao mesmo tempo que se que tenta
um ousado reformismo financeiro, contando até com o apoio das forças
vivas patronais e com as simpatias daqueles que clamam por um governo
de força, independentemente da respectiva cor. Isto é, a república
dos republicanos embrenha-se na procura dos endireitas. E a
imagem de marca está no grau de repressão assumido para com os grevistas.
Na política
financeira, fala-se da bancarrota, numa altura em que, por
causa da pressão clientelista, neste eterno país da empregomania, os
gastos com pessoal absorvem 84% das despesas públicas. Há, neste domínio
uma série de afirmações alarmistas: em 20 de Agosto de 1919, António
Maria da Silva fala em desregramento. Em 8 de Janeiro de 1920,
Malheiro Reimão utiliza o qualificativo de bancarrota. Em 28 de
Maio de 1920, é mais uma vez António
Maria da Silva a referir que o país tem estado a saque. A
solução virá dentro de poucos anos.