●O filme visível da Revolução – Chega a Lisboa o presidente do Brasil, Hermes da Fonseca (1 de Outubro).
●Governo manda retirar os navios de guerra para Cascais, até 4 de Outubro. Cândido dos Reis promove uma reunião com representantes do directório do PRP, a Carbonária, a Marinha e elementos do Exército, decidindo marcar-se a revolta para a noite seguinte, com a oposição dos membros do directório e de vários oficiais moderados. Segue-se reunião de confirmação dos pormenores do movimento na sede do PRP, com a Carbonária, Sá Cardoso e Hélder Ribeiro, ficando combinado que a eventual vitória do movimento seria, depois de verificada, entregue ao partido (2 de Outubro).
●No dia 3, é assassinado Miguel Bombarda, cerca das 11 horas, em Rilhafoles. O acto é executado por um antigo doente, Aparício Rebelo, oficial do Exército. Espalha-se na cidade que foram os padres que instigaram um tenente a assassiná-lo. É falso, mas há correrias no Rossio e o “Portugal” foi apedrejado (Raúl Brandão). Mal a notícia circula, surgem manifestações espontâneas de solidariedade com os republicanos.
●Às 15 horas o coronel Morais Sarmento comunica a Teixeira de Sousa suspeita de levantamento revolucionário. O presidente do ministério leva o facto ao conhecimento do juiz de instrução criminal. Na tarde deste dia centenas de carbonários vão buscar armas e bombas à sede do próprio PRP, situada no Largo de São Carlos, quase vizinha do Governo Civil.
●Às 17 horas Augusto Vasconcelos, que operara Miguel Bombarda, comunica a morte deste a Teixeira de Sousa, que vai ao hospital de S. José homenagear o falecido.
●Às 19 horas e 30 minutos o chefe do governo regressa a casa e tenta comunicar com as forças policiais para uma mais rigorosa prevenção das unidades. Mas não consegue contactar os chefes das mesmas, dado que eles tinham ido para o Palácio de Belém, a fim de assistir a um jantar de homenagem ao presidente do Brasil, Hermes da Fonseca. Comunica as suspeitas pelo telefone à rainha D. Amélia que se encontra no Palácio da Pena em Sintra e vai para Belém, a fim de prevenir o rei e os ministros.
●O jantar termina às 21 horas e 30 minutos. O rei retira-se para as Necessidades. D. Afonso, para Cascais. D. Amélia e D. Maria Pia estão em Sintra.
●Às 19 horas e 30 minutos João Chagas e José Barbosa, depois de uma reunião na administração das Cartas Políticas, na rua do Arco da Bandeira, vão jantar à Charcutaria Suíça e, depois, dirigem-se para a última reunião dos revolucionários, no estabelecimento dos Banhos de São Paulo, para onde se mobilizam Eusébio Leão, Afonso Costa, António José de Almeida, José Relvas, Inocêncio Camacho, José Barbosa, João Chagas, Marinha de Campos, Celestino Steffanina e António Maria da Silva.
●Às 22 horas e 10 minutos, os chefes conspiradores ficam a saber que o Governo decretara o estado de alerta. Vinte minutos depois optam pela saída imediata do movimento revolucionário, dado já não poderem abandonar os civis que estão na rua nem mandá-los regressar.
●Às 0 horas do dia 4, os carbonários vão para a rua, enquanto os elementos do directório recolhem-se nos Banhos de São Paulo.
●Ao romper da manhã, António Maria de Azevedo Machado Santos (1875-1921) atira-se ao portão de Infantaria 16, onde já antes se haviam revoltado cerca de uma centena de rebeldes, conseguindo o controlo do quartel.
●Já antes se tinha rebelado o quartel de Artilharia 1, sob a liderança do capitão Afonso Palla. Falham, contudo, as previstas revoltas em Infantaria 5 e Cavalaria 5.
●Carbonários conseguem controlar o Adamastor, onde assume o comando o segundo-tenente José Mendes Cabeçadas Júnior (1883-1965). Também o São Rafael é assaltado pelo segundo tenente Tito de Morais.
●Amotina-se também o Quartel de Marinheiros, em Alcântara, graças à acção do primeiro-tenente Ladislau Pereira. Apenas fica por controlar o navio-almirante Vasco da Gama.
●Sai uma coluna de Artilharia 1, já comandada pelo capitão Sá Cardoso, para ocupar as Necessidades. É atacada pela Guarda Municipal na Rua Ferreira Borges e recua. Junta-se, no Largo do Rato, à coluna de comandada pelo capitão Palla. Ambas tentam atacar o quartel do Carmo, mas recuam na Rua Alexandre Herculano, face à pressão da Guarda Municipal. Conseguem, contudo, resistir, graças à ajuda dos bombistas anarquistas.
●Depois de saberem que Caçadores 5 e Infantaria 5 não tinham aderido, decidem recuar para a Rotunda, barricando-se. Chega, então, Machado Santos que, depois de tentar cair sobre o Rossio, recua. Entretanto, a coluna revoltosa comandada pelo tenente Ladislau Parreira sai do Quartel de Marinheiros para atacar o Palácio das Necessidades, mas é obrigada a recuar face ao confronto com tropas de Infantaria 1 e Cavalaria 4. No entanto, estas últimas sofrem um desaire quando são atacadas à bomba por civis. A partir de então o Exército decide deixar de patrulhar as ruas de Lisboa. O mesmo faz a Polícia que deixara tal tarefa ao Exército.
●Às 5 horas, os revoltosos, liderados por Palla, Sá Cardoso e Machado Santos estão confinados à Rotunda. Às 6 horas, os chefes republicanos, reunidos nos Banhos de S. Paulo, optam por não avançar com o movimento revolucionário, decisão que vai levar o indigitado chefe militar do movimento, o almirante Cândido dos Reis, que sofria de grave depressão nervosa, a pôr termo à vida.
●Às 8 horas aí chega a notícia da morte de Cândido dos Reis em Arroios. Apenas permanecem firmes na intenção golpista cerca de quinhentos revolucionários e, entre eles, populares esfarrapados, galegos e mulheres da feira de Agosto (Raúl Brandão). Cem praças, 50 civis armados e 5 canhões.
●Às 9 horas sai de Queluz o Grupo de Artilharia a Cavalo, talvez a única força militar disposta a defender a monarquia. O respectivo comandante, Paiva Couceiro, que estava a veranear em Cascais, vem imediatamente assumir a respectiva missão. Não consegue, contudo, adequado apoio de forças de infantaria, mas, mesmo assim, mostra-se disposta a jugular o grupo da Rotunda.
●Às 9 horas e 30 minutos, os oficiais do exército liderados por Sá Cardoso, depois da reunião de um conselho na própria Rotunda, decidem sair do local, desmobilizando a revolta.
●Machado Santos, que não é convocado para tal reunião, opta por permanecer, ficando com o comando, sendo apenas assistido por oito sargentos, declarando preferir a morte à derrota.
●Ligeira trégua leva a que vários populares acorram à Rotunda, onde se faz uma espécie de feira. Outros descem até ao Rossio para fraternizar com as tropas defensoras da monarquia. Forças de Paiva Couceiro chegam à colina da Penitenciária e começam a bombardear a Rotunda. E, nesse momento, ficam frente a frente duas generosidades românticas, dois portugueses antigos, de antes quebrar que torcer, que os permanentes situacionismos vão qualificar como excêntricos, marginais, radicais e mal-amados, acabando por condená-los à cadeia, ao exílio ou à morte.
●Às 15 horas depois de um intenso duelo de artilharia, as forças de Queluz retiram para o Torel e, depois, descem para o Rossio, onde está a principal força defensora da monarquia, constituída pela Infantaria 5.
●Às 18 horas um cruzador abre fogo contra o Arsenal e o Terreiro do Paço. Outro vaso de guerra coloca-se frente às Necessidades e bombardeia o Paço. Às 21 horas e 30 minutos, há um duelo de artilharia entre as forças defensoras da monarquia, sitas no Rossio, e o S. Rafael.
●Às 22 horas, o navio-almirante D. Carlos cai na posse dos republicanos, comandados pelo segundo-tenente José Carlos da Maia. Toda a noite ouço o estampido brutal do canhão... De manhã as tropas do Rossio rendem-se e os marinheiros desembarcam na Alfândega. As ruas acham-se repletas de gente que se abraça. O júbilo é indescritível (Raúl Brandão).
●No dia 5, às 6 horas da madrugada, oficiais de Infantaria 5 que estão no Rossio declaram ao Quartel-General que não se oporão a um desembarque de marinheiros no Terreiro do Paço.
●Às 6 horas e 30 minutos, os oficiais de Caçadores 5 seguem tal atitude capitulacionista. Couceiro é o único que resiste e, já sem munições, está encravado entre o fogo dos navios no Tejo e a artilharia da Rotunda.
●Às 8 horas, o caricato precipita a verdade, quando o encarregado de negócios da Alemanha, depois de autorização dos dois contendores, vai de bandeira branca, evacuar os compatriotas das áreas em confronto, sinal que os defensores da monarquia no Rossio entendem como a rendição, todos largando vivas à República. Do lado da Rotunda, é intermediário António Maria da Silva.
●Às 8 horas e 30 minutos iça-se uma bandeira republicana no castelo de S. Jorge. Dez minutos antes as forças fiéis ao regime monárquico rendem-se no Rossio. Segundo Teixeira de Sousa, o vencido: Justiça a quem se deve: Machado Santos ficou, salvando a Revolução e depondo o antigo regime. Bastou-lhe ficar, para a guarnição de Lisboa aderir... Estava por assim dizer sitiado, sustentando a defesa contra os sitiantes. Não pôde deslocar-se, na sua situação de sitiado. Renderam-se... os sitiantes!
●A população está em delírio. Os membros do directório foram às 8, 40 para a Câmara Municipal, onde proclamaram a República com as aclamações entusiásticas do povo (Raúl Brandão).
●A maior parte dos oficiais do Exército não quer lutar, ou faz mera resistência simbólica, embora também não tenha aderido. Fica em situação técnica de empate.
●Há 72 mortos, dos quais apenas 18 são militares e, destes, quase todos entre os defensores da monarquia.
Às 9 horas, Eusébio Leãoö, que vai assumir as funções de governador civil da capital, proclama solenemente a república na varanda dos paços do concelho de Lisboa. Acompanham-no José Relvas, Malva do Vale, Inocêncio Camacho, Marinha de Campos, José Barbosa e Ribeiro de Carvalho.
●A notícia será transmitida por telégrafo para o resto do país, a não ser em Loures onde, de forma selvagem, tinha sido proclamada na véspera. Como depois vai dizer Ramalho Ortigão, o povo gosta, o povo exulta, o povo rejubila. Há trezentos anos que estão à espera de um D. Sebastião.
●O rei D. Manuel e os seus familiares mais directos vão para Mafra e daí se dirigem à praia da Ericeira, donde embarcam no iate Amélia. Apesar de alguns pensarem que o navio se dirigiria para o Porto, a decisão final acaba por remetê-los para Gibraltar. Donde, depois vão para Plymouth, onde chegam a 14 de Outubro. O jovem rei deixa carta onde proclama: reconheço as instituições que o Povo reconhecer. Só a avó, D. Maria Pia, volta a Itália, onde falecerá em 5 de Julho de 1911.
●Um verdadeiro cataclismo – Deu-se aqui um verdadeiro cataclismo. Cai numa manhã uma tradição de sete séculos, sacudida por um estremecimento social que só tem equivalente num tremor de terra. Rolou por terra um trono, sob uma chuva de granadas, e um rei espavorido tomou o caminho do exílio, num batel de pescadores. Tudo o que fazia a sua omnipotência cai com ele e foi subvertido – a corte, a nobreza, o governo, o parlamento, o seu palácio e a sua guarda (João Chagas).