Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Cidade, Hernâni António (1887-1975)

O
romantismo nacionalista
Analisando o processo de passagem do
individualismo romântico ao nacionalismo, salienta que a exaltação
do indivíduo dentro da sociedade amplia-se à exaltação da nação no
conjunto dos Estados. Luta-se por sua autonomia quando um Estado estranho
a domina, oprimindo-a; empenha-se diligências no sentido de reconstituir
a sua personalidade autêntica,
quando uma cultura alheia espiritualmente a deforma. Eis o significado das
colheitas folclóricas, do relevo do herói nacional, do quadro histórico
e etnográfico, moral e social que pela ficção nos restitua à vida
nacional. Assim, também às chamadas personalidades colectivas
chamadas nações a mesma chama as agitava; as oprimidas, para reivindicar
a própria autonomia, mais uma vez heroicamente lutando por ela; as
independentes esforçando-se, em luta contra os representantes das formas
consideradas inautênticas, para avivar os vincos da própria fisionomia
espiritual colectiva. A Idade Média, durante a qual, em geral, as nações
se haviam formado, fornecia a historiadores e novelistas, dramaturgos e
poetas, filólogos e etnografos, os costumes e tradições, a literatura e
a arte, de anónima espontaneidade - ou como tal julgada - e, de tudo
isto, o que se preferia era o que tivesse carácter popular. E esta tendência
não é pura determinação do espírito, senão caloroso impulso da alma.
Daí os excessos da ideia absorvente e do dinamismo irradiante. O
homem preferia a realidade ou a fantasia que dessem comoções à
sensibilidade, àquela que apenas suscitasse análise à inteligência
Definição
de nação
Define
a nação como algo que tanto é um corpo geográfico como uma alma
espiritual. Porque os agrupamentos sociais, já unidos ou em processo
de se unir pela comunidade do sangue
e da língua, vivem durante transcursos, que podem ser de séculos
ou de milénios, sob idênticas forças de modelação física e
espiritual - o mesmo ambiente geográfico, o mesmo clima, a mesma alimentação,
as mesmas condições de actividade, os mesmos estímulos de pensamento e
de imaginação. A esta situação chama o autor vago e instintivo
impulso de convergência a que se pode seguir um intencional esforço
de concórdia de vontades lúcidas, o que acontece sob o
incitamento de um chefe e na oposição a outro grupo.
Corpo
geográfico e alma espiritual
E a Nação forma-se com o seu corpo
geográfico e a sua alma espiritual, quando às colectivas
determinações do presente começam a dar apoio as memórias colectivas
do passado, começam a determinar objectivo as aspirações colectivas do
futuro.
Noção
de pátria
Por seu lado, a Pátria é algo de
dferente: da Nação emerge a Pátria, quando, à luz da cultura clássica,
que ensina a palavra e aviva o orgulho que ela suscita, se exalta o
sentimento de suas singularidades reais e supostas, de seus triunfos no
esforço por que as vai afirmando. E estamos em face duma nova realidade
espiritual, duma nova personalidade colectiva
[1929]
Ensaio sobre a Crise Mental do Século
XVIII, Coimbra,
Imprensa da Universidade.
[1929]
A Marquesa de Alorna. Sua Vida e
Obra com Algumas Cartas Inéditas, Porto, Companhia Portuguesa Editora.
[1933]
Lições de Cultura e Literatura
Portuguesas, Coimbra,
Coimbra Editora.
[1948]
A Literatura Autonomista sob os
Filipes, Lisboa,
Livraria Sá da Costa.
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