Respublica
Repertório Português de Ciência Política
Edição electrónica 2004
Comemoração
Do lat. cum mais memorari, lembrar-se com. Solenidade
colectiva onde se recorda uma pessoa, uma data ou um acontecimento. O acto de
recordação de um evento ligado à vida de uma pessoa, de um lugar ou de uma
entidade política, nomeadamente de uma nação. Cada Estado tende, por exemplo,
a ter o seu dia nacional. Vivemos aliás num sociedade comemorativa, onde, do
passado, seleccionamos uma data simbólica, interpretada retroactivamente, tendo
em vista a justificação do poder actual. Comemorar significa reforçar a
autoridade de um determinado regime político, dado que a mesma repousa
fundamentalmente num acto fundador. As pátrias são, aliás, uma sucessão de
actos de fundação, refundação ou regeneração que obedecem sempre a uma espécie
de Idade do Ouro, na procura da
pureza das origens, entendida como a fonte da revivificação. Mesmo os regimes
que têm o progressismo e o revolucionarismo como principal imagem do poder, não
deixam de assumir esta forma de cultura funerária, instrumentalizando a história,
na procura de um mito conveniente para os tempos presentes. No sistema português,
há até um órgão de soberania especialmente vocacionado para a rememoração,
o Presidente da República, pleno de autoridade, mas quase vazio de poderes,
assumindo-se como uma espécie de supremo celebrante das cerimónias da república,
recordando o velho dito de Aristóteles quando assinala dois dos principais
elementos unificadores da polis: o palácio do chefe político e o altar
da pátria.