Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Desenvolvimentismo
Desenvolvimento, em termos etimológicos,
significa descobrir o que até então estava envolvido, fazer crescer e dar mais
força. As teorias sistémicas politológicas originaram, nos anos sessenta, uma
tentativa de definição universal do político que se pretendia válida para
todos os lugares e para todos os tempos. A tarefa coube, fundamentalmente, a
autores que se dedicaram à política comparada e à análise do desenvolvimento
político e da cultura política, a chamada escola desenvolvimentista, com
Gabriel Almond, James Coleman, Bingham Powell, David Apter e Lucian Pye, segundo
a qual seria possível comparar-se todos os sistemas políticos, através da
relação entre as funções e as estruturas.
Assim, partindo da determinação de quatro funções específicas do sistema
político -
a socialização, o recrutamento político, a conversão dos interesses e a
comunicação política -
estes autores tentaram construir um modelo apriorístico, válido tanto sincrónica
como diacronicamente. A escola teve como ponto de partida a obra de Roy
Macridis, The Study of Comparative
Government, New York, 1955, no seguimento da criação de um Committee
on Comparative Politics no seio da Social
Science Research Council. Em 1960, Edward Shils publica Political
Development in the New States, enquanto Gabriel Almond e James Coleman
coordenam The Politics of Developing Areas. Outras edições fundamentais da
escola são: Lucian Pye, Communication and
Political Development, 1963; Robert Ward e Dankwart Rustow, eds., Political
Modernization in Japan and Turkey, 1964; Joseph LaPalombara, Bureaucracy
and Political Development, 1963; James S. Coleman, Education and Political Development, 1965; Myron Weiner e Joseph
LaPalombara, eds., Political Parties and
political Development, 1966, e Gabriel Almond e G. Bingham Powell, Comparative
Politics. A Development Aproach, 1966. A escola teve também reflexos na América Latina, com destaque para
Fernando Henrique Cardoso, principalmente em Política
e Desenvolvimento em Sociedades Dependentes, Rio de Janeiro, Zahar, 1971; O
Modelo Político Brasileiro, São Paulo, Difusão Europeia do Livro, 1973, e
Autoritarismo e Democratização, Rio
de Janeiro, Paz e Terra, 1975.
Multifuncionalidade
das estruturas
A
escola assenta, aliás, nos contributos de Robert King Merton, especialmente nos
conceitos de equivalente funcional ou
de substituto funcional, isto é, na
ideia de que, tal como um só elemento, ou uma só estrutura, pode
ter várias funções -
a chamada multifuncionalidade das estruturas -,
também uma só função pode ser exercida por elementos ou por estruturas
diversas que, entre si, podem substituir-se, existindo, além disso, a
possibilidade de uma disfunção se as funções já não contribuirem para a
adaptação ou para um ajustamento de um sistema. Neste sentido, a escola
desenvolvimentista desenvolverá esta ideia de multifuncionalidade das
estruturas políticas, de que toda a estrutura pode cumprir mais do que uma função
e de que todas as estruturas têm tendência para a multifuncionalidade. Assim,
consideram tais autores que nenhuma estrutura é unifuncional, isto é, que
nenhuma estrutura desempenha uma só função; que toda a estrutura pode ser
multifuncional, isto é, a mesma estrutura pode desempenhar funções diversas;
que a mesma função pode ser exercida por diferentes estruturas, tendo
alternativas estruturais.
Universalidade
da política
É
a partir daqui que se estabelece o princípio da universalidade política,
considerando-se que podemos encontrar todas as funções políticas em todos os
sistemas políticos, porque mesmo os sistemas políticos mais simples têm uma
estrutura política, dado que não existe nenhuma sociedade que, para manter a
ordem interna e externa, não tenha uma estrutura política. Se nos sistemas
mais simples, uma só, ou poucas estruturas, cumprem todas as funções políticas,
já em sistemas desenvolvidos há uma forte diferenciação. Isto é, há um
grande número de estruturas, cada uma delas especializada numa determinada função
política. Com efeito, esta perspectiva desenvolvimentista salienta que, em
todos os sistemas, as mesmas funções se encontram necessariamente preenchidas
e que, apesar de uma determinada estrutura tender para a especialização numa
determinada função, isso não significa que a mesma não possa exercer
secundariamente uma outra (v.g. os tribunais, a quem cabe a função judicial de
aplicação do direito, são também criadores do direito).
Diferenciação
e especialização
Os
desenvolvimentistas consideram, aliás, que a diferença entre o Estado moderno
e os sistemas primitivos é menos de natureza do que de grau. Do grau de
diferenciação das funções e do grau de especialização das estruturas. Isto
é, tanto os sistemas políticos simples como os sistemas políticos complexos têm
funções comuns, apenas diferindo nas características estruturais, já que,
nos Estados modernos, as estruturas são mais diferenciadas e mais
interdependentes que nos anteriores modelos de Estado. Num sistema político não
desenvolvido, estruturas pouco numerosas exercem funções pouco diferenciadas,
sendo fraco o processo de divisão de trabalho, pelo que o desenvolvimento político
consistiria, assim, no facto das estruturas políticas crescerem em número e
diferenciação. Cada estrutura que surge seria, pois, colocada perante esse
desafio, face quer ao jogo da autonomia dos subsistemas, quer à integração
num conjunto coordenado.
Estadualidade
A
partir destes princípios, os politólogos desenvolvimentistas consideraram a
estadualidade como uma forma específica de desenvolvimento político, em que
surge um centro político e estruturas diferenciadas. Uma estadualidade que
teria a ver com processo da diferenciação
de funções (divisão de poderes), da especialização
de estruturas (separação de poderes) e da dissociação de particulares estruturas de autoridade relativamente
às estruturas sociais (Estado/Sociedade), e que se inseriria na transformação
social resultante da lógica do princípio da divisão do trabalho, sendo um
processo de racionalização e de modernização que passaria pela diferenciação
progressiva das estruturas sociais, pela autonomização, pela universalização
e pela institucionalização.
Desafios
do sistema político
Todo
o sistema político teria, assim, de responder a quatro desafios: o de construir
um Estado (a estrutura legal); o de formar
uma nação (o que permitiria uma adesão afectiva); o de permitir a participação (atender às pressões da população para uma
participação na elaboração das decisões); e o de utilizar o monopólio
legal da força para a distribuição dos valores escassos. Todos estes autores
consideram a existência de um determinado ponto de chegada desenvolvido na evolução do político, em que a modernização é
igual a desenvolvimento político e a desenvolvimento económico, e em que a
competição é considerada como um aspecto essencial da mesma modernidade.
Para
Gabriel Almond e Bingham Powell haveria a seguinte hierarquia: sistemas
primitivos (estruturas políticas intermitentes); sistemas
tradicionais (estruturas governamentais diferenciadas, incluindo sistemas
patrimoniais, sistemas burocráticos centralizados e sistemas políticos
feudais); e sistemas modernos
(estruturas políticas diferenciadas). Para Edward Shils, o ponto de chegada
seriam as political democracies e o
crescendo evolutivo passaria pela seguinte sucessão: traditional
oligarchies, totalitarian oligarchies, modernizing oligarchies e tutelary
democracies. A
classificação de Edward Shils consta de Political
Development in the New States. Comparative Studies in Society and History, 1960.
Para ele, as democracias políticas (political
democracies) seriam caracterizadas pela diferenciação de funções e pela
especialização das estruturas, tendo, de um lado, órgãos legislativos,
executivos e judiciais, e do outro, partidos políticos, grupos de interesses e
órgãos de informação. As democracias tutelares (tutelary democracies) seriam marcadas pela concentração do poder
no executivo, pelo apagamento do poder legislativo, pela dependência do poder
judiciário e pela falta de alternância, apesar de se ter como objectivo
conduzir o regime para a democracia política. Quanto às oligarquias, estas
poderiam ser de três espécies. As modernizantes (modernizing oligarchies), abrangendo os regimes ditatoriais que têm
como objectivo proclamado o desenvolvimento económico; as totalitárias (totalitarian
oligarchies), com regimes de partido único ou chefia personalizada, sem
alternância e com imposição de uniformidade ideológica, como o fascismo, o
nazismo e o sovietismo; as tradicionais (traditional
oligarchies), em que a elite dirigente se recruta na base do parentesco e do
status, assumindo geralmente forma dinástica
e apoiando-se mais no costume do que em qualquer constituição
racional-normativa. A classificação de Gabriel Almond e Bingham Powell, de
1966, mantém-se nesta linha, distinguindo entre sistemas primitivos, sistemas
tradicionais e sistemas modernos. Se os sistemas primitivos poderão ser
segmentares ou em pirâmide, já os sistemas tradicionais assumem três formas:
patrimoniais, burocrático-centralistas e feudais. Mais complexa é a divisão
dos chamados sistemas modernos. No ponto de chegada estão os sistemas modernos
com infra-estruturas políticas diferenciadas, incluindo-se neles as
cidades-Estados secularizadas com diferenciação limitada (caso de Atenas) e os
sistemas modernos mobilizados, isto é, os que possuem um nível elevado de
diferenciação e de secularização, subdivididos entre sistemas democráticos
e sistemas autoritários. Entre os dois, surgem os sistemas modernos pré-mobilizados,
com duas espécies, os autoritários e os democráticos. Para estes autores,
dentro dos sistemas democráticos,
poderíamos ter forte autonomia dos subsistemas sociais (v. g. o modelo
norte-americano e o britânico), autonomia limitada dos subsistemas (v. g. República
Federal da Alemanha e França na III e IV Repúblicas) e fraca autonomia dos
subsistemas (v. g. México). Já nos sistemas
autoritários haveria que fazer as seguintes distinções: os totalitarismos
radicais (v. g. URSS), os totalitarismos conservadores (v. g. Alemanha nazi), os
autoritarismos conservadores (v. g. Espanha de Franco) e os autoritarismos em
vias de modernização (v. g. Brasil da revolução de 1964).
Marxismo
Refira-se
que há também uma leitura neomarxista do desenvolvimentismo, sob a forma de
sociologia histórica do político, com destaque para Perry Anderson, Linhagens
do Estado Absolutista [1974], trad. port., Porto, Afrontamento, 1984,
Immanuel Wallerstein, The Capitalist World
Economy, Cambridge University Press, 1975, e Theda Skocpol, States
and Social Revolutions de 1979.
De
qualquer maneira, a escola, marcada pela procura de uma definição universal do
político, nas suas análises concretas, acabou por procurar em cada espaço
cultural apenas os elementos susceptíveis de encaixe no modelo apriorístico, não
reparando nas manifestações mais significativas do político dessa cultura e
esquecendo, assim, que o singular pode ser mais verdadeiro do que o geral. Além
disso, considerando as práticas políticas como trans-históricas, negligenciou
ou subestimou as transformações sofridas em cada uma delas e, ao assentar em
persistências, banalizou os processos de ruptura e as crises.
No
Brasil, desenvolvimentismo significou
também a ideologia assumida pelo governo de Juscelino Kubitschek, entre 1956 e
1961. Desenvolvimento é o contrário de envolver, de manter incluso.
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