Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Estilo político
Também à maneira de Oliveira Martins, consideramos que, para além da forma do poder, importa investigar o estilo político, o modo como se exerce o poder.
Ficou célebre a observação de Jacques Maritain sobre a possibilidade de haver governos de esquerda com mentalidades de direita e governos de direita com mentalidades de esquerda. Porque "não há revoluções mais terríveis que as revoluções da esquerda feitas por temperamentos da direita", tal como "não há governos mais fracos que os governos da direita dirigidos por homens da esquerda".
Com efeito, importa ir além do continente, da forma, e penetrar no conteúdo, na matéria. E, desde sempre, o pensamento político ocidental distinguiu isso. Mas foi no último quartel do século XX que aconteceu essa ruptura dos que, vivendo à direita, continuaram a pensar à esquerda, proclamando que mantinham o coração à esquerda, embora com a razão à direita, nessa contradição dos que tendo sido da extrema-esquerda aos dezoito vinte anos, quando se instalaram, navegando nas delícias do capitalismo e do sistema de empregos do estatismo, entraram no mundo do conformismo e passaram a chamar ingénuos aos que mantinham a mania de viverem como pensavam, sem pensarem em como tinham que viver. Esses homens lúcidos que haviam perdido a lucidez de quererem continuar ingénuos.
Seguindo o esquema psicologista utilizado por Fernando Pessoa (JS DR 184), continuamos a dizer que há em Portugal três "categorias políticas": os indiferentes, os equilibrados e os desequilibrados.
Os indiferentes podem sê-lo por natureza ou por decadência. Os equilibrados, dividem-se entre os conservadores e os liberais e opõem-se aos radicais, entre os quais se incluem os reaccionários e os revolucionários.
Glosando este esquema pessoano, poderíamos dizer que há uma família de direita equilibrada, a família conservadora, e outra desequilibrada, os reaccionários, ao mesmo tempo que as mesmas categorias dentro da família de esquerda, se dividiriam entre os liberais e os radicais, havendo entre conservadores e liberais e entre reaccionários e radicais, "absoluta identidade de psiquismos" (p.186).
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