Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Orientalismo
O
chamado conflito Oeste/Leste é uma perspectiva, proveniente da Guerra Fria, que
opôs o mundo livre ao comunismo, retomando uma mais antiga dicotomia Ocidente/Oriente. Uma
questão nunca teve a ver com formas de oposição entre entidades geográficas,
mas sim entre formas espirituais, onde sempre predominou uma espécie de
russofobia. Neste sentido, Hermann Keyserling chegava mesmo a falar na Rússia
como a Eurásia, onde o gosto da destruição
e a santidade, a crueldade aguda e o heroísmo não se sustentam senão quando
se opõem, desafia todas as definições e escapa mesmo às classificações
habituais. Sim, a Ásia começa aí, ao mesmo tempo que a Europa acaba, o
Oriente e o Ocidente aí se misturam estreitamente, formando um continente, ao
mesmo tempo explosivo e amorfo. Quem alinha inadvertidamente nesta
perpectiva não pode esquecer que muito do orientalismo assumido pelos russos é
apenas um hábil discurso de justificação do respectivo expansionismo para
Leste. Era, por exemplo, o caso de Lenine quando proclamava : voltemo-nos para a Ásia; venceremos o Ocidente com o Oriente.
Diga-se que esta moda orientalista vinha também dos próprios alemães que,
desde Fichte, proclamavam o orientalismo dos germânicos. Orientalismo que, aliás,
depressa é esquecido quando o inimigo passa a estar ainda mais a oriente: que o
diga Hitler quando enfrentou Estaline, ou os russos, quando se enredaram no
chamado conflito sino-soviético. De qualquer maneira, importa dizer que, no
final dos anos vinte deste século, a cultura europeia ocidental foi
interiormente agitada por uma dialéctica decadentista, onde alguns
intelectuais, ao descobrirem as civilizações orientais, pensaram
revitalizar-se, expatriando-se através do culto do exótico, ao mesmo tempo que
outros, peregrinando as raízes e o imanentismo do seu próprio chão cultural,
reagiram pela defesa do Ocidente. Se no partido
orientalista do Ocidente alinharam nomes como René Guénon e Romain
Rolland, já no partido ocidentalista
foram marcantes Charles Maurras, Henri Massis, Eugenio D'Ors e G. K. Chesterton.
Este último, por exemplo, considerava, então, que o orientalismo seria centrípeto,
constituindo um círculo fechado que nunca poderia expandir-se, enquanto o
ocidentalismo seria centrífugo, como os braços da cruz abertos aos quatro
ventos. Maeterlinck chegou mesmo ao cúmulo antropomórfico de dizer que o
conflito entre o Oriente e o Ocidente equivaleria à própria divisão do cérebro
humano, onde o lóbulo ocidental seria o produtor da razão, da ciência e da
consciência, enquanto o lóbulo oriental produziria a intuição, a religião e
a subconsciência. Não tarda que os próprios geopolíticos cometam os mais
variados atentados contra a geografia, principalmente quando, a partir de uma
fronteira espiritual, como o foi a cortina
de ferro, construiram uma Euroamérica,
o Ocidente, e uma Eurásia, o Leste. O
que se agravará substancialmente quando, por razões económicas, se passou a
incluir o Extremo Oriente japonês no próprio conceito de Ocidente, obrigando a
imaginosas, embora justas, qualificações, mais estratégicas do que geopolíticas,
nomeadamente com a distinção entre o mundo livre e o mundo
comunista. Apenas diremos que o Oeste e o Leste fazem parte da circular rosa
dos ventos da história, constituindo metáforas ou posições relativas face ao
espírito e apenas tendo servido de símbolos políticos. O Oriente na Europa
Ocidental surge quase sempre quando as teorias dominantes de explicação do
universo começam a definhar. Foi assim no século XVIII, com o neopaganismo
superficial de alguns iluministas; voltou a sê-lo, em força, no século XIX,
com o romantismo e com certo budismo germânico, de Schopenhauer a Wagner.
Trata-se, evidentemente, de um Oriente espiritual que significa, sobretudo, outro
lado que não o Ocidente, o esotérico de uma qualquer procura espiritual.
Nesse sentido, haverá sempre no Ocidente procuras do Oriente. Procuras que, no
fundo, significam uma peregrinação às raízes do próprio Ocidente. Com
efeito, quando se buscam Orientes como o Budismo, a Negritude, o Confucionismo,
o Taoísmo, o Bolchevismo, o Maoísmo ou os próprios Dissidentes Russos,
procuram-se alternativas à frustração da modernidade pós-cartesiana. Assim,
se os ocidentalistas russos, diziam que o
russo era um homem da outra margem, expressão de Aleksandr Herzen, que
devia caminhar para Oeste, isto é, para as ideias que, então, dominavam no
centro da Europa, já os estrangeirados portugueses sempre disseram que devíamos
caminhar para Leste, na via da integração europeia. No tempo do iluminismo,
era adequarmo-nos às nações polidas e civilizadas. Durante o orgulhosamente sós do salazarismo era sermos europeístas, isto é, contra a visão euro-africana de Portugal. Já
mais recentemente, depois de 1974, era sermos um modelo político à maneira das
democracias ocidentais.
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