Respublica Repertório Português de Ciência Política Edição electrónica 2004 |
Sardinha, António (1888-1925)

Ensaísta português fundador do Integralismo Lusitano. Insigne vulgarizador do tradicionalismo. Marcado pela origem republicana e formado no positivismo de Comte. Quer colocar-se naquilo que designa como o campo da ciência objectiva, assumindo-se contra o romantismo revolucionário. Considera que "pela federação das nossas confrarias agrícolas Portugal se constituiu". Salienta que as causas da crise espiritual do Ocidente derivam do chamado renascimento do direito romano, onde o "absolutismo dos reis entra a preverter a noção cristã de autoridade". Esse vício teria sido agravado pela Renascença "com a sua ideia naturalista do Poder e o seu centralismo excessivo, mesmo despótico" e com ela, Lutero que "quebra a unidade moral da Europa". Acontece que na Península Ibérica "o humanismo pretensioso da Renascença se depura e deixando de ser, como era para os gafados italianos, um fim, ‑ um ideal de vida, volve‑se com os Colégios da Companhia (de Jesus) acentuadamente, um meio de educação valiosíssimo, ‑ um valioso agente de formação mental, de que o Colégio das Artes em Coimbra nos fornece um exemplo convincente". Depois, com a derrota da Invencível Armada, deu‑se "o cisma das nações e o advento das éticas do norte com o seu natural triunfo em Vestfália". Finalmente, o absolutismo vai triunfar sem reservas no século XVIII, "destruindo todos os organismos intermédios" e deixando "apenas o Estado na presença do indívíduo, despojado já da rede miúda das associações domésticas e económicas". Para Sardinha, "o Estado Absolutista do século XVIII antecede logicamente o Estado Metafísico e todo poderoso das modernas democracias. Esse Estado é o Estado napoleónico baseado não na noção histórica da autoridade derivada da Família, da Comuna e das Corporações, mas no simples conceito materialista da força e do domínio". A seguir veio o idealismo alemão:"nos seus vícios estruturais o germanismo, para evitar o vácuo, encaminha‑nos para o absoluto. Donde a quase divinização do Estado, com Fichte e Hegel por seus corifeus na Pátria de Kant, ‑ no solar do livre exame". Citando George Santayana, vai considerar pagã essa filosofia germânica do eu, "procurando sobrepôr a inteligência como princípio e fim de si mesma, às evidências contantes do ser". Para ele "na pulverização crescente da sociedade, o 'indivíduo' dos idílios solitários de Rousseau dera lugar ao 'cidadão' dos festins eleitorais do liberalismo" e este "volveu‑se sem demora no 'produtor' da metafísica bastarda de Karl Marx". Foi, assim, que o Estado passou de "instituição coordenadora e complementária" a "instrumento de domínio" e que se gerou "o estadualismo mais abusivo e mais arbitrário". Nestes termos, Sardinha vai propôr o regresso ao direito natural, "como compreendia S. Tomás e toda a magnífica coorte dos seus comentadores peninsulares da Contra‑Reforma, com o insigne Francisco Suarez à cabeça". Seria o regresso à liberdade orgânica e à noção de pessoa: " a liberdade, ‑ no seu superior sentido orgânico ‑ é natural da Península, sendo entre nós o absolutismo um intruso violento, um hóspede atrevido e não desejado". Com efeito, "os hispanos basearam‑se sempre, por condição peculiar da sua índole, na noção de pessoa" e não na noção de indivíduo; "a individualidade vem do corpo, da matéria, do instinto. Inversamente, a personalidade da alma. " Para ele, o cristianismo é uma "grande democracia espiritual, ‑ a única, a verdadeira" e "em cujo seio somos todos irmãos e iguais perante Deus, diferenciando‑se somente pelos méritos adquiridos, pelas virtudes professadas, ‑ essa grande democracia espiritual, repito, correspondia ao que borbulhava no mais entranhado do génio hispânico: a ideia da independência e a ideia de responsabilidade".

·Valor da Raça. Introdução a uma Campanha Nacional
Lisboa, Almeida, Miranda e Sousa Editores, 1915.
·Ao Princípio era o Verbo. Ensaios e Estudos
Lisboa, Livraria Portugália, 1924; cfr. 2ª ed., Lisboa, Restauração, 1959.
·A Teoria das Cortes Gerais
Lisboa, 1925; cfr. 2ª ed., Lisboa, Biblioteca do Pensamento Político, 1978.

}Ascensão, Leão Ramos, O Integralismo Lusitano, Lisboa, Edições Gama, 1943. 4Braga, Luís Almeida, A Posição de António Sardinha, Lisboa, Edições Gama, 1943. 4Número especial da revista A Cidade. Revista Cultural de Portalegre, Julho-Dezembro de 1988.
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