José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Maquiavelismo

 

 

 

O Homem não faz o bem a não ser quando é pressionado pela necessidade

Maquiavel

O fim próximo da sociedade, não é senão um meio para se obter o fim remoto. Não convém nunca, portanto, sacrificar o fim remoto da sociedade ao seu fim próximo de forma subordinada e coerente com o fim remoto

Rosmini-Serbati, Antonio

 

Fazer política não depende da minha escolha, é um dever a que me resigno, forçado pela desordem desta época...a política interessa antes de qualquer coisa, justamente para se lhe tornar possível deixar de ocupar‑se dela

Rougemont Denis de

 

Utilizando as categorias weberianas, diremos que Maquiavel adopta a moral de responsabilidade em vez da moral de convicção. Adopta aquela moral onde os fins justificam os meios, onde se admite que o homem pode perder a alma para salvar a cidade: se se trata de deliberar sobre a sua salvação (da pátria), ele (o cidadão) não deve ser paralisado por qualquer consideração de justiça ou injustiça, de humanidade ou de crueldade, de ignomínia ou de glória. Porque para se alcançar o fim do salute della patria, non vi debbe cadere alcuna considerazione nè di giusto nè di ingiusto, nè di pietoso, nè di crudele, nè di laudabile, nè de ignominioso, é preciso defender a pátria gloriosamente ou não, todos os meios são bons desde que ela seja defendida.

 

Assim, não pode, portanto, um senhor prudente, nem deve, observar a fé jurada, quando tal observância redunde em seu prejuízo, e quando tenham desaparecido as razões que fizeram que a jurasse. É que se os homens fossem todos bons, este preceito não seria bom, mas porque são maus e não respeitarão para com o príncipe a palavra dada, não tem o príncipe que a respeitar para com eles.

 

Segundo Hannah Arendt, a questão, tal como Maquiavel a viu, não era se amava mais Deus do que o mundo, mas se seria capaz de amar mais o mundo do que a si próprio. E, de facto, esta decisão foi sempre crucial para todos os que dedicaram a sua vida à política. A maior parte dos argumentos de Maquiavel contra a religião são dirigidos contra os que se amam a si mesmos, ou seja, a própria salvação mais do que o mundo; não são dirigidos contra os que realmente amam a Deus mais do que amam, quer o mundo, quer a si próprios.

 

Utilizando agora palavras de Cabral de Moncada, diremos que ele apenas veio dizer alto aquilo que todos, ou antes, muitos, particularmente os príncipes, diziam já em voz baixa, e, mais do que tudo, praticavam.

 

Basta recordar estas palavras do florentino: há dois géneros de combate: um que se serve das leis, outro que se serve da força: o primeiro é próprio do homem, o segundo dos irracionais: mas porque o primeiro muitas vezesa não basta, convém recorrer ao segundo. A um príncipe é necessário, portanto, saber usar ou o animal ou o homem que estão dentro dele (... ) Estando, então, um príncipe necessitado de saber usar bem o animal, deve eleger como tal a raposa e o leão; porque o leão não se defende das armadilhas e a raposa não se defende dos lobos. Necessita, pois, de ser raposa para conhecer as armadilhas, e leão para amedrontar os lobos.

 

Segundo Jacques Maritain, o resultado prático do ensino de Maquiavel foi, para a consciência moderna, uma cisão profunda, uma irremediável separação entre a política e a moral, e, por conseguinte, uma ilusória, mas mortal, antinomia, entre aquilo a que chamamos idealismo (confundido erradamente com a moral) e aquilo a que chamam realismo (confundido erradamente com a política).

 

Os actuais partidos-sistema, tanto à direita como à esquerda, perderam o sentido dos sagrados combates por princípios e as palavras que emitem são como as dos sacristães que perderam o sentido dos gestos, para citarmos Robert Brasillach.

A opinião pública, depois de meio século de preconceito da ordem, de alguma balbúrdia revolucionarista e de muito devorismo pós-revolucionário, talvez já não siga os ditames tanto dos velhos marechais da democracia como das senatoriais figuras tutelares do Estado a que chegámos. Mas as facções dos controleiros jornalísticos não podem ter a ilusão que a manipulação passou para as novas governantas do sistema.

 

Podem não funcionar os necessários serviços de informação estratégica. Podem mostrar-se ufanos os membros do grande lobby que vai babando coisas que as instituições militares e eclesiásticas detestam. Mas quando a velha nobreza, da função militar, e o velho clero, da função moral, se voltarem a aliar ao povo, todos, em cortes gerais, talvez se possa recompor e  regenerar o presente tecido político, onde já não há apenas fumos de corrupção, mas desavergonhadas manifestações do periscópio dos submarinos da pressão oculta.

 

O maquiavelismo, além de uma péssima moral, é também uma péssima política (wilhelm Ropke). Parecendo vencer no curto-prazo, acaba por também ser uma péssima política, porque perde a aparente razão logo que desapareça a breve interrupção do vazio de política, quando os povos, aparentemente anestesiados, recobram a normalidade e descobrem todos meandros das pressões ocultas dos vários neo-corporativismos que estão a transformar a democracia numa democratura, para utilizar-se uma expressão consagrada por Guy Mermet em Démocrature. Comment les Médias Transforment la Démocratie, 1987, quando refere a emergência de um novo sistema social onde os media exercem sobre os actores da vida social e sobre o público uma espécie de ditadura doce, marcada pelos funcionários do pronto a pensar que fornecem aos ouvintes e aos telespectadores verdades pré-digeridas e directamente assimiláveis.

 

Continua e continuará, entretanto, a eterna dúvida de sabermos se, em política, os estados de violência não poderão ser tão ou mais violentos que os próprios actos de violência. O mesmo Maritain tentou responder, salientando que uma política não maquiavélica é obrigada a não cometer o mal. Não é obrigada a fazer reinar a virtude por toda a parte(... ) Não é falta moral aceitar serviços duma mão suja quando esse é o único meio de assegurar o êxito duma empresa tão arriscada como uma campanha militar, porque a política é arte de escolher entre grandes inconvenientes.

 

Os actuais partidos-sistema, tanto à direita como à esquerda, perderam o sentido dos sagrados combates por princípios e as palavras que emitem são como as dos sacristães que perderam o sentido dos gestos, para citarmos Robert Brasillach.

 

A opinião pública, depois de meio século de preconceito da ordem, de alguma balbúrdia revolucionarista e de muito devorismo pós-revolucionário, talvez já não siga os ditames tanto dos velhos marechais da democracia como das senatoriais figuras tutelares do Estado a que chegámos. Mas as facções dos controleiros jornalísticos não podem ter a ilusão que a manipulação passou para as novas governantas do sistema.

 

Podem não funcionar os necessários serviços de informação estratégica. Podem mostrar-se ufanos os membros do grande lobby que vai babando coisas que as instituições militares e eclesiásticas detestam. Mas quando a velha nobreza, da função militar, e o velho clero, da função moral, se voltarem a aliar ao povo, todos, em cortes gerais, talvez se possa recompor e  regenerar o presente tecido político, onde já não há apenas fumos de corrupção, mas desavergonhadas manifestações do periscópio dos submarinos da pressão oculta

 

O maquiavelismo, além de uma péssima moral, é também uma péssima política (wilhelm Ropke). Parecendo vencer no curto-prazo, acaba por também ser uma péssima política, porque perde a aparente razão logo que desapareça a breve interrupção do vazio de política, quando os povos, aparentemente anestesiados, recobram a normalidade e descobrem todos meandros das pressões ocultas dos vários neo-corporativismos que estão a transformar a democracia numa democratura, para utilizar-se uma expressão consagrada por Guy Mermet em Démocrature. Comment les Médias Transforment la Démocratie, 1987, quando refere a emergência de um novo sistema social onde os media exercem sobre os actores da vida social e sobre o público uma espécie de ditadura doce, marcada pelos funcionários do pronto a pensar que fornecem aos ouvintes e aos telespectadores verdades pré-digeridas e directamente assimiláveis.

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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