José Adelino Maltez, Tópicos Jurídicos e Políticos, estruturados em Dili, na ilha do nascer do sol, finais de 2008, revistos no exílio procurado da Ribeira do Tejo, começos de 2009

 

Mercantilismo

 

 

Pour augmenter les cents cinquante millions que roulent dans le public, de vingt, trente, soixante millioins, il faut bien qu'on le prenne aux États voisins.

Colbert, Jean-Baptiste

 

...foi preciso que as tais manufacturas caíssem, porque os chamados cristãos-novos os sustentavam e os seus obreiros que nelas trabalhavam eram em grande número, foi necessário que se espalhassem e fossem viver em outras partes e tomassem outros ofícios para ganharem o seu pão, porque ninguém se quis deixar morrer de fome.

Cunha, D. Luís da

 

 

O mercantilismo que teve em Colbert (1619-1683) o seu epígono e no reinado francês de Luís XIV, o laboratório modelo, tem origem em Jean Bodin, o teórico do soberanismo, sendo particularmente sugerido por Antoine Montchrétien (1575-1621), o inventor da expressão economia política. Esta visão de enriquecimento do Estado foi também defendida por Juan Mariana.  Na Inglaterra, a política do Navigation Act de Cromwell foi marcada por idêntica perspectiva, bem como as teses do banqueiro escocês John Law, no século XVIII. O mercantilismo que comeou por ser meramente metalista, pela criação de um grande stock de moeda na posse do Estado, depressa evoluiu para uma faceta industrialista, à maneira de Colbert, ou comercialista, à maneira britânica.

O mercantilismo, tendo como divisa o pró rege, saepe, pró patria semper,  é desencadeado pelos primeiros teóricos da soberania, ao assumir a primeira postura, acabou por ser definido como uma guerra perpétua e pacífica de espírito e de indústria entre todas as nações. Porque uma nação só se enriqueceria arruinando as outras nações, ao assegurar uma mais valia das exportações sobre as importações: pour augmenter les cents cinquante millions que roulent dans le public, de vingt, trente, soixante millioins, il faut bien qu'on le prenne aux États voisins.

Ao reduzir a ideia de riqueza estadual à quantidade de numerário possuído por cada Estado, através da técnica do aumento das exportações e da diminuição das importações, o movimento favorece a criação tanto de grandes manufacturas, algumas delas directamente geridas pelo Estado, como de companhias de comércio, quase sempre em regime de monopólio.

Gera-se assim um modelo monetarista de intervencionismo do Estado na economia que alguns qualificam como socialismo monárquico.

Esta perspectiva conflitual mantém-se, aliás, no próprio Hegel , quando desenvolve o conceito de sociedade dos particulares, ou sociedade dos burgueses, esse espaço intermédio entre o familiar e o estadual, que apenas teria como objectivo a prossecução dos interesses dos mesmos particulares, apenas entendidos como os que se dedicam preferentemente a actividades económicas.

Esse Estado privado de eticidade, o Aussererstaat, é onde se desenrola o combate de interesses privados, da luta de todos contra todos. A tal imperfeita sociedade civil, marcada por laços de profissão e comércio, que apenas tem como objectivo a defesa comum dos interesses e não o interesse público.

 

 

Mercantilismo (Colbert) Colbert tem, aliás, um projecto simples, transformar a França em uma fábrica e um Estado.  Alguns chegam a qualificar o modelo como uma espécie de socialismo monárquico. Nele se aliam estatismo, capitalismo e individualismo, contra o anterior modelo de monarquia limitada pelas ordens e de economia comunitária. Teve particulares consequências na política internacional, quando se aplicou o modelo do individualismo possessivo às relações entre os Estados. Conforme a definição de Colbert, o comércio passa a ser entendido como uma guerra entre moedas, uma guerra perpétua e pacífica de espírito e de indústria entre todas as nações. Porque uma nação só se enriqueceria arruinando as outras nações, assegurando uma mais valia das exportações sobre as importações.

 

Mercantilismo em Portugal O modelo foi logo seguido em Portugal por Duarte Ribeiro Macedo, pelo conde da Ericeira, D. Luís de Meneses (1632-1690), por D. Alexandre de Gusmão (1695-1753), e por D. Luís da Cunha.

 

 

© José Adelino Maltez

 

Última revisão:12-04-2009

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