Continuando meus exercícios de guerrilheiro da palavra, contra os sacristães do pensamento único
A volta a Portugal está
prestes a entrar na segunda
fase das férias, onde o
mercado consumidor de
parangonas e o espectáculo
da hiper-informação
sensacionalista continuam a
fazer directos sobre o caso
Maddie, onde todos somos
detectives e vingadores,
enquanto o caracol da Casa
Pia continua refugiado na
casca do segredo processual
e a baba viscosa do imoral e
do amoral já criou crosta,
semeando asco e não
protegendo quem de direito.
Reparo, contudo, que há um
bloco de doutíssimos e
agilíssimos adesivos ao
pluralismo democrático, onde
só ex-comunistas e
ex-maoístas têm pretensão ao
controlo da nossa artificial
e comunicacional
inteligência, novamente
produtora de um estúpido
pensamento único que as
ondas da moda transformam
nos novos livros únicos de
língua e história pátrias,
para uso dos telejornais e
dos "opinion makers"
dominantes. Os tais
sacristães que perderam o
sentido dos gestos e que nos
continuam a servir de forma
enlatada as disputas
verbalistas da geração do
"Maio 68".
E se mantivermos estas
tenazes mentais, talvez não
consigamos abrir o estadão à
urgente pluralidade dos
paradigmas que realmente
existem na maioria
sociológica dos portugueses
que restam e que vai bem
além do gramsciano conceito
de sociedade civil, com os
seus decretinos parceiros
sociais ou as suas
catolaicas perspectivas
concordatárias, feitas de
sucessivas interpretações
verticais, ditas autênticas.
Estranho, pois, que mesmo em
férias acabe por continuar
os meus exercícios de
guerrilheiro da palavra, a
solicitação de alguns
jornalistas, como hoje vem
na revista "Focus", quando
me questionaram sobre o
perfil do governante ideal.
Lá declarei que, em
democracia, o governo não
deveria ser o "lui" do
senhor Estado absolutista,
vivendo acima dos súbditos,
lá nas alturas do
soberanismo. Porque, em
democracia, o governo somos
nós todos, governando
através dos nossos
representantes, onde até
ministro quer dizer,
etimologicamente, "servus
ministerialis", isto é,
escravo da função.
Porque não há governos
ideais, até porque, na
prática, a teoria é outra,
cabendo aos repúblicos medir
essa falta de autenticidade,
essa distância que vai do
que se proclama ao que se
pratica. Assim, o melhor
governo de Portugal é aquele
que for capaz de gerir as
actuais dependências e
interdependências, tanto da
globalização como da
integração europeia, para
que os parcos factores
nacionais de poder consigam
ser mobilizados por um
patriotismo científico. Onde
se retome aquele bem comum
das nossas aldeias
republicanas, que tinham
como lema "o que é comum não
é de nenhum".
Infelizmente, as
degenerescências
democráticas transformam
esse comum no domínio do
ninguém burocrático, não
ousando transformar estes
restos de Estadão na
efectiva coisa pública, na
comunhão das coisas que se
amam.
Leio, quinze dias depois, o
resultado da conversa
telefónica, a que o
jornalista foi fiel,
seleccionando o que melhor
se adequava ao ritmo da
agenda e do tema dominantes:
desde que se começou a
pensar a política se começou
a desenhar o político ideal,
pelo que nunca
existiu nem nunca poderá
existir uma democracia
perfeita. Logo, o
primeiro-ministro ideal não
existe.
Logo acrescentei: temos
de nos libertar do conceito
de absolutismo, onde o
Estado se resume a uma só
pessoa. Aqui e agora,
os democratas não se
comportam como
democratas...não têm
programa nem ideologia. São
hoje a favor do que
contestaram ontem e amanhã
contra o que defenderam
hoje. Até identifico
"três momentos e três
primeiros-ministros
responsáveis pelo definhar
da política": a lei do
tabu com Cavaco Silva, a lei
do pântano com António
Guterres e a lei do
surrealismo com Durão
Barroso e Santana Lopes.
Para sair da crise, vaticino
mais patriotismo
científico na valorização do
sistema educativo...menos
absolutismo e mais
participação cívica e mais
soberania do poder
político sobre o poder
económico, porque um dia
destes, um desses
capitalistas lusitanos, tipo
Joe Berardo vai fazer um
estudo que o leva a perceber
que se deixar de haver
governo continuaremos a ser
autogovernados.
Por estas e por outras é
que, ao responder o
inquérito-tipo da mesma
revista sobre qual é a minha
família política, fiquei bem
próximo do centro radical,
ou do extremo-centro: no
eixo da esquerda/direita,
fiquei com 13 para a
esquerda e 10 para a
direita; no eixo do
autoritário/libertário,
obtive 11 para o libertário
e 6 para o autoritário. O
pior foi arrumar-me nas
categorias que elencaram:
nem do grupo "neofascistas e
nacionalistas", nem no dos
"conservadores e
democratas-cristãos" e bem
longe dos "comunistas reais
e pós-comunistas". Fiquei
com um pé nos "liberais e
social-democratas" e outro
nos "socialistas
democráticos e novas
esquerdas". E eu a pensar
que era da direita!...
Valeu-me a entrevista do
psicólogo Howard Gardner
para me fazer voltar à
realidade que é sempre
complexa, o que é esquecido
pelos cientistas pardais que
nos reformam a universidade
e a cultura, uns vindos dos
m-l e outros do
cunhalismo, sob a
batuta de um action man,
proveniente da JSD. E que,
mesmo em opções políticas,
devem admitir que um velho
liberal como eu, patriota e
panteísta, não tenha que ser
neoliberal, neoconservador
ou socialista, bastando-lhe
furar o esquema pelo
tradicionalismo
anti-revolucionário e pelo
libertacionismo liberdadeiro.
