Semanário 9 de Novembro de 2007

As limitações ao Estado Providência, a  perda  de regalias dos trabalhadores, a erosão dos salários, o aumento do desemprego, realidades que hoje se fazem  sentir em muitos países da Europa, podem ser, a longo prazo, o gérmen de uma nova luta  de classes, à luz dos conceitos marxistas?

 O chamado “Estado Providência”, ou, em termos gerais, a intervenção dos aparelhos de Estado na sociedade e na economia, tanto pode ser a resposta bismarckiana à questão social da segunda metade do século XIX que, em Portugal, foi traduzida pelo Estado Novo salazarento, com meio século de atraso, como o “Welfare State” do pós-guerra, do relatório Beveridge, que começou a ser traduzida entre nós com o marcelismo, pintando-se de vermelho pintasilguista com o PREC e a pós-revolução do Bloco Central, dita keynesiana. O que agora temos é uma nova questão social, misturando problemas não resolvidos da velha questão social, que Jerónimo de Sousa ainda traduz no calão da velha luta de classes, com a emergência de uma nova realidade da governança sem governo, que tanto dizemos ser integração europeia como globalização. Marx é um velho subsolo filosófico que a todos nos ilumina, mesmo a liberais como eu e nada tem a ver com as vulgatas neomarxianas do leninismo, do maoísmo. Até o velho Karl se insurgia contra as ideologias de conserva, dizendo que não era marxista. Na prática, a teoria é outra, porque, sobretudo em Estados da nossa dimensão, a maioria dos factores de poder já não são nacionais, e os governos são meras pilotagens automáticas que só podem garantir as independências nacionais se conseguirem gerir dependências e interdependências. Pena é que não reparem na velha lição segundo a qual os problemas económicos só podem resolver-se com medidas económicas, mas não apenas com medidas económicas. Isto é, só se conseguirem repolitizar os velhos Estados, libertando-se das adiposas gorduras de aparelhos que foram feitos para dar resposta à velha questão social, mas que não admitem que a nova questão social implica a meritocracia e a consequente avaliação das competências, segundo o critério da justiça e não da inveja igualitária.

 

Porque é que a direita portuguesa deixou de ser eurocéptica?

 A direita a que chegámos chama-se Menezes e Portas e ambos estão sujeitos ao programa dessa multinacional partidária chamada PPE, a que livremente se submeteram. Logo, se a voz de comando dessa multinacional mandou encerrar o ciclo eurocéptico, eles têm que submeter-se para poderem sobreviver e andar ao lado dos irmãos-inimigos do PSE...

Porque é que Portugal tem dos poucos Partidos Comunistas Ortodoxos da Europa? Tem a ver com o próprio partido? Com as características do país? Com outras razões?  

 Ainda bem que Jerónimo quer manter intacto o museu do neo-realismo. De outra forma, a UNESCO, em nome da defesa da ecologia, tinha que declarar o PCP como património da humanidade. O cunhalismo ortodoxo e as festas do Avante são como o fado, as peregrinações a Fátima ou as marchas populares de Lisboa. Destruí-los seria atentar contra a nossa identidade profunda. E os comunistas portugueses até agradecem a queda do muro e a implosão da URSS. Agora podem ser mesmo comunistas de sonho.

 

 

Já agora fazia-lhe outra pergunta, que também fiz ao Joaquim Aguiar e ao Medeiros Ferreira, formulada antes do José Pacheco Pereira ir nesta linha na Quadratura do Círculo?  

 

As primeiras semanas da liderança de Luís  Filipe Menezes permitem já observar que o PSD se distingue das políticas do PS, constituindo-se em alternativa para as eleições legislativas de 2009, ou, pelo contrário, não se distingue muito dos socialistas, não contribuindo para clarificar o processo de alternância política e dar mais hipóteses de escolha ao eleitorado?  

O PS e o PSD são duas faces da mesma moeda do Bloco Central que nos governa. São partidos “catch all” que têm flexibilidade para continuarem a oferecer programas “omnibus”, isto é, dizendo que podem dar tudo a todos, sendo liberais às segundas, quartas e sextas e sociais-democratas às terças, quintas e sábados, enquanto reservam o domingo para conversar com o cardeal-patriarca. Duram e duram porque conseguiram ser o espelho da nação. São os partidos que o povo merece, mesmo que admitam a manutenção deste estado a que chegámos, com dois terços de pessoas apenas  socialmente remediados e um terço de socialmente excluídos. Durarão se durar o conformismo do centrão, mas um quarto de hora antes de morrerem ainda estão vivos, só morrendo se não conseguirem responder à nova questão social e à desertificação do país interior. Pode até acontecer  um desses normais anormais de uma crise social importada e o belo castelo de cartas da subsidiocracia já não conseguir conter uma qualquer época de vacas magras, como aconteceu com os tempos que precederam o 25 de Abril de 1974, com a crise petrolífera. Em Portugal as decadências duram décadas e os cadáveres adiados sempre conseguiram ir de vitória eleitoral em vitória governamental até a uma inesperada derrota final, quando não conseguem ler os sinais do tempo.

Última revisão:19-03-2009

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