A minha genealogia
Durante todo o meu tempo juvenil nunca pertenci à barricada da esquerda antifascista, dado que fui activista das zonas de fronteira da direita coimbrã e, dentro destas, numa sensibilidade que não era a dos jovens apoiantes do marcelismo, ou as dos que diziam ser da direita nacional-revolucionária.
Sentia-me descendente de certa esperança tradicionalista e, nas eleições de 1969, até me assumi como um dos apoiantes da chamada Comissão Eleitoral Monárquica que tinha na personalidade de Henrique Barrilaro Ruas, um dos principais ideólogos.
No crepúsculo do regime justamente derrubado em 1974, tinha assim um pé nos monárquicos oposicionistas e outro na militância lusotropical. Até assumi a ilusão romântica de apoiar o spinolismo, vibrando intensamente com o programa contido em Portugal e o Futuro. Logo, também vivi, com entusiasmo, os primeiros minutos do 25 de Abril, apesar de logo me ter desencantado, nem sequer saindo para a rua no 1º de Maio.
Confesso que, depois do cavaquismo, fiquei sem saber onde estou. Herdeiro da tradição monárquica, deixei de poder invocar essa fidelidade pelo nominalismo anti-republicano de alguns figurões do jet-set, que esquecem a circunstância da monarquia anti-absolutista da profunda tradição portuguesa sempre se ter assumido como a melhor das formas republicanas de governo.
Marcado intelectualmente pela perspectiva democrata-cristã dos séculos XIX e XX, e continuando a seguir as linhas de pensamento de um Jacques Maritain ou de um Emmanuel Mounier, não deixei sequer de subscrever a grande perspectiva do federalismo europeísta.
Não me assumo, contudo, como membro da Igreja Católica, dado continuar a defender a perspectiva laica de fundo estóico, do profundo humanismo ocidental…
Profundamente antimoderno, não deixo, porém, de me seduzir por algumas linhas do conservadorismo neoliberal. Por todas estas razões eis que me aproximo do libertacionismo existencial de alguns autores do misticismo político de Agostinho da Silva a Soljenitsine.
Sinto-me bem perto daquele sentido de dever, desse qualquer coisa de imperativo e contratual que me leva a ser fiel na bondade e no sentido de dar-me aos outros que marcam aquilo que muitos consideram ser a boa-educação.
Mas, acima de tudo, os princípios da lógica de sempre, com que fui iluminado pelo aristotelismo pintado de cristão. Prefiro a tolerância da democracia liberal, plena dos contrapoderes de Montesquieu e do pragmatismo institucional dos britânicos.
Prefiro o sentido de bom-senso dos homens dos campos de Coimbra que me ensinaram os sinais do tempo. E graças a Deus que mantenho o hibridismo desta educação, meio rural e meio urbana, entre a afectividade que me veio da minha avó e a racionalidade institucionalista que me deram os frades e os professores primários, tudo assim recebido à la charte, sem a pensão completa de um qualquer internato, mas sempre com a sábia dosagem pluralista que os meus pais me iam prodigalizando.
Fiquei, portanto, esta mistura de franciscanos e jesuítas com que me vou tentando governar, graças à teimosia das calejadas mãos dos meus avoengos homens de enxadas e moinhos, sobretudo pelas respectivas revoltas pela sede de justiça.
Quem defenda o prazer da diferença contra o pronto-a-vestir corre o risco de só ter exóticos que o entendam. Porque já não há portugueses do Portugal Velho. Porque a vontade de independência pouco tem a ver com a bicha no hipermercado, com a procura de um qualquer preço mais favorável para coisas que não servem para mais nada, a não ser para que as mesmas se desempacotem e guardem, subsidiadas que são pela mão estendida ao fundo estrutural.
Sei que estou definitivamente condenado a ser um dos últimos que resiste em certo conceito de pátria. Mas, comigo, guardo alguns dos velhos testemunhos de uma vida que passou. Porque sou um dos últimos de certa geração que ainda resiste, daqueles que ainda se emocionam com a força telúrica. Também sei que todos quantos têm seguido nesta senda nunca serão profetas no seu próprio tempo. Que só exilados nos profundos sítios de sua pátria podem semear a liberdade que há-de ser.
Aqueles que têm crenças quase já não as podem exercitar na esfera pública. Ficam-se assim pela solidão dos lares, pelas pequenas catacumbas das redes de amigos, de que fazem parte os próprios blogues. Porque de quase de nada valem os signos institucionais de outras procuras, dado que a república caiu na ambiguidade discursiva dos supremos políticos que, através de textos sem palavras, transformaram em vulgata a racionalidade importada, perdendo-se em entrelinhas tortas e insinuações curvas, onde nem Deus escreveria direito nem o Diabo marraria.
E, quanto menos a ideia e a emoção de nação nos mobilizarem, mais seremos estadualizados de forma alienígena. E com a política transformada em heteronomia, a cidadania pode, assim, reduzir-se à fragmentação contestatária e ao protesto faccioso. Sem uma comunidade afectiva que nos dê justiça e bem comum, apenas reclamaremos direitos e nunca daremos ao todo a necessária justiça e o indispensável amor. Contestar, protestar, exigir podem ser fracturantes se não assumirem a dimensão militante da resistência. E caso não haja alma que nos identifique, não passaremos de mera sociedade anónima gestionária. Só com uma necessária tensão espiritual, poderemos vencer as teias da demagogia, da incompetência e do negocismo.

Última revisão:19-03-2009
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