Amanhando a terra das ideias

Tenho andado fora de certo mundo, mas bem por dentro do meu mundo, sentindo a crescente diferença que vai do espaço sideral do pensamento àquelas modas comunicacionais, incluindo as intelectuais, que, por serem modas, estão condenadas a passar de moda. E sinto que devo continuar a cumprir o meu dever, sem nunca desistir desse belo programa de vida colectiva que é procurar casar a honra com a inteligência.

Valem-me os belos dias de sol, diante do mar, os longos azuis fluidos que me dão viagem, enquanto vou sorvendo o privilégio de viver à beira da corrente do Golfo... Aqui até há gaivotas e pombas que me dão alegria, fazendo olvidar os carros de campanha que vão poluindo os dias.

Porque quem apresenta, para a liderança da pátria, figuras como as dos nossos mediáticos políticos profissionais, acaba por declarar que estamos definitivamente reduzidos às tristes e apagadas figuras da segunda divisão da história. Desses que até nem têm a vergonha de instrumentalizar mortes de figuras que vão além da morte... Alguns deles terão lugar marcado no banco dos réus dos devoristas e trapaceiros, dos poderosos que, pela demagogia, usurparam a palavra, gastando-a pelo uso e prostituindo-a pelo abuso.

E assim sentados no dogmatismo confessional ou ideológico, continuam a agravar a doença da falta de autenticidade do presente momento político. Um deles reivindica o símbolo de um pretenso partido das classes médias, eufemismo com que pretende disfarçar a sua opção pelos ricos, procurando truques prestidigitadores para o povo, em viagens quase clandestinas pela província, onde se mostra no aquário das tendas plastificadas pelos publicitários, pagas a peso de financiamentos, visíveis e invisíveis, mas que vieram todos dos nossos bolsos. Entusiasma-se até com as manifestações de massas dessas classes pretensamente altas, só porque pensa coincidir com a estética de tal ilusório jet set que sempre desprezou o povão de extracção rural.

Eles não sabem o que é uma rega em noite de luar, nunca deram nome de gente aos animais de criação e nem sequer conhecem a alma das árvores ou o cheiro dos torrões da terra-mãe. À esquerda e à direita, há uma canalha pretensamente fina, pretensamente elitista, que sempre pensou estar do lado certo da história dos vencedores, entre a Senhora de Fátima, com touradas e cavalos de alta escola, e São Trotski, com requintadas roupas importadas, apenas esperando os aplausos de um povoléu que os vai saudar na estrada, pedindo brindes de campanha. Entre o reaccionário possidente e o revolucionário frustrado, venha o Diabo e escolha. Prefiro continuar a amanhar a terra das ideias. Hoje, não, amanhã será!

Última revisão:19-03-2009

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