Da terceiromundização universitária
Quando se vai assistindo impassivelmente à destruição das nossas escolas superiores públicas de filosofia, história e literatura, só porque alguns as reduziram a meras fábricas de professores, há que temer as consequências deste processo de terceiro-mundização. Porque poderemos transformar-nos em mais uma das repartições de reparadores de hardware ou em meros repetidores e pirateadores de software alheio, perdendo a capacidade de criação de um pensamento enraizado no nosso tempo, no nosso espaço, no chão moral da nossa história e no sentido dos que querem continuar a ter saudades de futuro. Porque se a universidade portuguesa se transformar numa grande federação de centros de mera formação profissional, teremos notáveis papagaios, transformados em meros monitores de manuais de programação de outras ecologias.
In illo tempore, quando os animais ainda não falavam e já se clamava, muito reaccionariamente, pelos costumes perdidos, Portugal dispunha de um Curso Superior de Letras, em Lisboa, e de uma Faculdade de Teologia, em Coimbra. Veio o paradigma positivista da Primeira República e a Teologia de Coimbra transformou-se na segunda Faculdade de Letras, a que Teófilo Braga queria dar o comteano nome de Faculdade de Sociologia, até que Leonardo Coimbra, conseguiu, de forma antipositivista, criar a terceira, na capital do Norte.
A certa altura, cereja puxando a cereja e cogumelo crescendo em explosão, surgiu o paradigma das fábricas dos professores, onde letrados, formando letrados, para estes formarem ainda mais letrados, de tal maneira que, apesar de avaliadores, educacionólogos, ornitólogos e outras espécies zooculturais, o número de escolas superiores de tal género atingiu a bonita soma das quatro dezenas. Foi o tempo do crescer para fora, a quantidade, sem que crescesse, por e para dentro, a qualidade, num semear sem semente de que agora estamos a colher o lixo tóxico. Porque nos esquecemos que primeiro a aula, só depois o capítulo, como assinalava Hernâni Cidade.
Parafraseando Paul Ricoeur, diremos que o mal político e as consequências educacionais do dito são, no seu sentido próprio, a mania das grandezas. Isto é, quanto mais são os pequenitos que nos conformam, maior é o verbalismo fácil da inveja igualitária, enquanto as altas expectativas geradas, quando confrontadas com as realizações, acabam por provocar a frustração, pelo que, muito esquizofrenicamente, passamos dos bestiais, melhores do mundo, a bestíferos acompanhantes da cauda do pelotão exógeno. E de pouco vale, quando o desencanto se apodera de nós que logo surjam brilhantes raciocínios que levam a culpa a morrer solteira, com muitos discursos de justificação e outras tantas desculpas
Última revisão:19-03-2009
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