Dos chefezinhos que vamos tendo
Respublica ou coisa pública, essa abstracção feita de pedras vivas, deixa de o ser, isto é, deixa de ter sentido, quando os laços que nos comunitarizam como povo passam a não ser significações partilhadas. Logo, o chamado aparelho de Estado só merece ser respeitado quando brota da comunidade, isto é, quando a governação emana da república, quando quem manda, apesar de eleito por uma ou várias partes do todo, consegue representar o mesmo todo, sem cair na tentação da ditadura da maioria até protege as minorias, todas, e não apenas aquelas que, de um momento para o outro, podem tornar-se maiorias, por força do sufrágio.
O subscritor destas palavras abertas que, até há pouco, sofria da doença cívica do indiferentismo, nota, infelizmente, como começa a resvalar para a zona da revolta, dado que se sente condenado ao estatuto de pária. Apenas regista como, dia após dia, vamos perdendo o sentido dos gestos, como no centro dos aparelhos simbólicos se vão desrespeitando intimamente os sinais que davam emoção ao todo e como o atavismo do doméstico vai comprimindo aquilo que devia ser o lugar do público.
Para alguns fundamentalistas que se pensam católicos, tudo acontece por manobras maçónicas, com ocultas pranchas emitidas pelo Bairro Alto. Para fervorosos laicos, tudo são jogadas do Opus Dei. Para justicialistas vermelhos, há os interesses do capital e dos grandes grupos económicos, embriagados pelo neo-corporativismo. Para radicais nacionalistas, nota-se a reconstrução do aparelho do KGB. Para eméritos neo-marxistas, apontam-se os passos da CIA. Mas talvez tudo seja mais simples. Há um imenso vazio de poder, desapareceu a autenticidade e a política foi ocupada pelas intrigas do doméstico.
Aqui e agora, as conspirações são brutalmente feitas de anti-conspiração. Isto é, os fios da necessidade têm sido manobrados por uma sucessão de acasos. Até porque não há centros ocultos de poder, sejam centrais congreganistas, comités esotéricos, manipulações da cripto, ou jogadas de espiões.
O que efectivamente transparece é uma real dicta blanda da incompetência, provocada, não pelos ditos que são ministros, capitalistas ou partidocratas, mas por uma maioria de cobardes calculistas que continuam a lavar as mãos como Pilatos. E a culpa desta servitude volontaire está nos formais cidadãos que não assumem a cidadania, nos voluntários escravos que não desencadeiam a urgente revolta dos escravos.
Quem ganha e manda são os seres dos esgotos, esses vermes do oportunismo que sabem manobrar pela intriga naqueles meandros salazarentos que ainda constituem a nossa infra-estrutura social e política, apesar de um verniz democrático e de uma verborreia pluralista e representativa tentarem recobrir com a cal de moderação esses sepulcros decadentistas.
O pior defeito desta politiquice está em confundirmos os nomes com as coisas nomeadas. Porque os mesmos nomes podem cobrir realidades completamente diferentes, tanto em termos quantitativos como em termos qualitativos.
Há assim uma cortina de dogmática que oculta a realidade, esses diáfanos mantos de palavras científicas que disfarçam a nudez forte da verdade. Bem como uma linha recta absolutista, principesca, soberanista e unitarista, essa que vai de Maquiavel, Hobbes e Napoleão ao actual estatismo, que nunca admitiu a verdadeira essência da política, isto é, a tensão entre o poder e a liberdade, entre a decisão e a participação, entre a unidade e a diversidade. Porque só a partir da diferença se pode atingir o universal.
Contudo, nada disto consegue vislumbrar-se neste país bipolar e bipolarizado que vive, ora com o útero na cabeça, ora com uma agressividade machista de fundo salazarento. Quando, entre o tudo e o seu nada, pode haver meio termo, onde não se caia nos extremos das bestas ou no irmão-inimigo dos bestiais.
Há um modelo estatista, onde um centro político domina e organiza a sociedade civil através de uma forte burocracia, uma imensa máquina administrativa que tende a dominar as periferias. É esse o defeito dos soberanismos e dos absolutismos, é com isso que muitos pretensos europeístas confundem o federalismo. Julgo que não podemos continuar colonizados por esse modelo de empire manqué, porque o todo não significa a fusão das partes que o compõem num ser único e unidimensional. Unidade não é unicidade.
Entre nós, pouco dados ao pluralismo, continua assim a predominar uma rede de mandarins intelectuais que glosam, comentam, vulgaritarizam e propagandeiam esta visão estreita de construção do político, mesmo quando vestem o neo-dogmatismo, pretensamente antidogmático.

Última revisão:19-03-2009
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