Dos tumores de micro-autoritarismo
Ainda há instituições que continuam a ser espaços infradomésticos de falso paternalismo, porque ingloriamente dependentes de certos capatazes e dos respectivos fiéis. E nesse universo pós-totalitário, quem se assume da oposição quase parece cometer grave pecado, porque os donos e senhores da coisa logo dizem que monopolizam o conceito de bem institucional, considerando os divergentes como dissidentes a abater. E assim podem sobreviver, para além do prazo de validade, sistemas imperiais de gestão, marcados pela arendtiana categoria do governo dos espertos, onde se manipula a legalidade, conforme o uso que dela podem fazer os espiões da Razão de Estado. Os quais nem sequer alguma vez compreenderam o mínimo denominador comum da civilização do Estado de Direito.
Seguindo o manual de organização política e administrativa da nação, com que se formatavam os chefes de repartição do ancien régime, tais ilustres autocratas conseguiram continuar a medrar neste sistema de formal democracia pluralista e competitiva, só porque souberam instrumentalizar o processo do anticomunismo e de luta contra os excessos do PREC, gerando tumores de micro-autoritarismo. Estes, florescentes em épocas de transição, vão continuando a germinar pela podridão das sucessivas inércias e até pelas descaradas coberturas de alguma partidarite, que os ditos cujos usam e deitam fora, conforme as conveniências. Não falta sequer o recurso às próprias pompadour, bem como uma espécie de actualização da pretensa conspiração de avós e netos, com esbirros desempregados a tentarem a junção da brigada do reumático dos gerontes com a rapaziada dos novos eme-erres.
Há também alguns inimputáveis, sempre temendo a chegada dos justos cobradores de fraque, bem como uma certa legião de cordeiros amansados pelo temor e falta de espinha, aquela moluscular base de recrutamento para a inevitável vindicta dos day after, quando as peles da doçura hipócrita, com que fingem obediência, não conseguirem recobrir as inevitáveis unhas aguçadas da revolta dos PREC. O vale-tudo da opressão sempre gerou o incontrolável das libertações das molas oprimidas, quando estas se partem e emerge um poder à solta, inversamente proporcional, em revolta contra a frieza cinzenta da opressão concentracionária.
A cultura da dependência, gerada pela estreiteza de vistas do paroquialismo balofo e pelo charlatanismo dos piratas com chapéu de coco, que confundem a palavra com a demagogia, apenas afina o delírio de um carreirismo cobarde.
Acresce que tudo se pode agravar quando as ondas do reviralho se reduzem a péssimas alternativas oposicionistas, permitindo que a comparação com o mau do situacionismo leve a que se opte pelo regime dito do mal, o menos. Com efeito, o facciosismo e aventureirismo podem acabar por enclausurar o sistema, agravando a loucura despótica e concentracionária, hábil na manipulação da teoria conspiratória do Anticristo e do Gegenreich.
Mas não há mal que sempre dure nem falso bem que não acabe por ser desmascarado, principalmente quando o niilismo crepuscular faz com que os sistemismos situacionistas acabem por cair de podres. Especialmente quando o hossana desafina e os conspurcadores, já sem altura, nem sequer conseguem vestir-se com a mentira dos anjinhos papudos...
23.4.05

Última revisão:19-03-2009
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