Esta dor, esta revolta

 

Muitas vezes não me apetece escrever sobre coisas políticas e sociais, mas antes peregrinar pela raiz das palavras que me desnudam e que tenho medo de confessar, especialmente quando a escrita é intimista demais, para que outros a possam espreitar.

 

Continuo a seguir esta viagem de viver por dentro do temporal. Mas comigo, segue uma longa tristeza, pessoal, familiar, patriótica, num tempo de crise em que me confundo com os próprios destinos do meu povo. Sobretudo, quando apetece questionar a aventura de escrever-me e, principalmente, de escrever para os outros, ou sobre se vale a pena insistir sobre o que sonho, nesta permanente viagem à volta de mim mesmo, nesta dor feita revolta.

 

Quão longe me sinto destes meus vizinhos conformistas, sempre à procura da exacta consequência que deriva do paralelograma de forças onde se inserem e de que são consequência. Mas não pode ser esta a postura dos que ousam a insolência e continuam à procura da autenticidade. Por isso, aqui e agora, eis-me na hora de continuar a procurar, por entre a bruma, sinais que nos possam libertar.

 

Os anos pesam. Os sonhos por realizar vão pesando cada vez mais. E quando a solidão se volve em silêncio, pensando e repensando quem na verdade sou, deixo que os dias me dissolvam em esperança, que o tempo volte a ser tempo de perder meu tempo, vivendo a vida que apetece. Mesmo que surja o estampido da revolta, do grito que vou dando para violar as trevas.

 

Mas o tempo dói. Escorre lento o tempo que passa e dura. Aqui, a noite volta a ter as estrelas da infância, o silêncio livre de vento, quando a lua ilumina a rua e até volto a saber o sítio da ursa maior e o gosto de procurar a estrela do Norte. Aqui, a noite não é insónia, mas tempo que se aproveita e silêncio que dissolve a solidão.

 

Aqui me apetece este prazer de escrever e rescrever-me, quando até vou perdendo o controlo do calendário e fico sem saber o número que o marca e o próprio nome que o coloca na semana, antes ou depois de mais um fim-de-semana.

 

O tempo passa assim em procura de quem sou, essa procura de um sinal do mais além para onde vou. E nesta procura me vou perdendo sem que o vento me traga o que procuro. Como se, dentro de mim, não estivesse todo o mundo. Como se aqui e agora eu não pudesse sofrer o mistério da procura. Como se aqui e agora as asas do silêncio me não trouxessem tempos de uma infinita viagem.

Aqui e agora, serei quem sempre fui: menino que procura a sua estrela. Que lá em cima, na pequena janela do meu sótão, de onde posso olhar as árvores dos penedos, há, desde sempre, o mistério que procuro, aqui, dentro de mim, à tua espera.

Aqui, por ti, olhando em mim quem somos, olhando em nós, olhos nos olhos, o amor que nos deu ser. Aqui, em mim, teu corpo em mim, meu corpo dentro de mim, as mãos fundas em procura e a noite que se abre em flor, à beira do sonho de quem somos, à beira do mar que dentro de nós se vai sulcando.

Última revisão:19-03-2009

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