Homo partidarius, homo sectarius e homo institutionalis

Às vezes o homo institutionalis, isto é, o que deve cumprir uma ideia de obra, o que tem o prazer da relações de comunhão e o que obedece a regras processuais, entra em conflito com o homo sectarius. Especialmente quando os agitadores dos fantasmas do homo partidarius consideram que os excêntricos devem passar à categoria de inimicus, só porque não alinham no unidimensionalismo louvaminheiro que se reproduz em silogismos propagandísticos e exorcismos inquisitoriais. Malhas que a nossa educação continua a tecer.

Por mim, sempre preferi estar de acordo comigo mesmo, ainda que, momentaneamente, pudesse vir a discordar de todos os outros, remetendo-me para a incómoda minoria dos que não costumam saudar o vencedor que, quase sempre, é constituída pela minha própria pessoa.

Sempre rejeitei ceder à técnica do velho maquiavelismo que tenta instrumentalizar os desobedientes e os dissidentes, pondo-os uns contra os outros, para que resulte o divide et impera. Coisa que aprendi pela experimentação sofrida com a politiqueirice lusitana, plena de tacticismos sem estratégia, e gerida por alguns que, num dia, mandam morrer soldadinhos, fiéis ou jagunços, e, no day after à derrota, se passam para o inimigo, ultrapassando assim a própria desvergonha do pilatismo.

Sempre assumi o risco de, não sendo vice-rei, ficar de mal com el-rei por amor dos homens e de mal com os homens por amor de el-rei, até porque, muitas vezes, me engano, errando, e, outras tantas, tenho daquelas dúvidas, típicas de bicho intelectual, que até como funcionário público, é pago para pensar como homem livre, que tem de viver, sempre, em contrapoder.

Contudo, tento não me enfileirar no conceito de prima dona, entre aquela que anda sempre em bicos de pé e a sua irmã-inimiga, a que anda sempre de pé atrás, pensando que, ao não sujar as mãos nos compromissos, se podem escoucear os outros, eternamente. Não sou homo partidarius, mas sou militante, especialmente de causas, e quase sempre das perdidas.

Assumo o risco de, quotidiamente, combater por ideias políticas e julgo que, apesar de tudo, não ando ao sabor de ventos alheios à minha autonomia. Mas sem acusar os outros de não terem uma concepção própria de autonomia, arquitectura moral ou dignidade política.

Com isto não quero exercitar aquela literatura de justificação dos que, quando a relação institucional se extingue, dizem, aos que ficaram, ou aos que, depois, vêm a aderir, que aquele que saiu é que era o padrão do bem e da verdade. Nomeadamente quando qualificam os ex-companheiros como mais à direita ou mais à esquerda, mais ao extremo ou mais ao centro, conforme a diabolização em voga, nos dicionários comunicativos do politicamente correcto, incluindo o que se titula como politicamente incorrecto. Sobre tais sacristanices, nada direi.

Quem contactou o modelo de Razão de Estado seguido pela geração dos Costa Gomes, no que era acompanhado por outros generais especialistas em informações e por vários professores catedráticos treinados em tais formas de trituração mental, pode confirmar que, desses ínvios processos do realismo político, raramente ficaram registos em papel ou noutros suportes domésticos. O essencial foi sempre consumível pelos neurónios e morre com eles, e só os que receberam testemunhos orais o conseguem retratar.

Apenas esperamos que tenham ficado rastos da coisa nos grandes sistemas de Washington, Paris e Moscovo, onde estão reservadas grandes surpresas para certas fabricações de imagem levadas a cabo por pretensos patriotas lusitanos, nomeadamente os que mandaram soldadinhos morrer nas areias dos sucessivos feitiços de império nesse maquiavelismo pintado por grandes tiradas conceituais.

O civismo impõe que aqueles que criticam, debatem e combatem, a nível do comentarismo político e doutrinário, assumam o dever de sujar as mãos e de descer ao terreno, largando as celestiais alturas de quem apenas faz homílias, mas que teme o risco de ir ao sufrágio e de fazer campanhas no meio do povo.

Tenho imenso prazer na cidadania activa, no eleger, no candidatar-me, em suma, no viver a política até ao fundo, do porta-a-porta ao comício. Já o faço há muitos anos, desde a adolescência, porque, da democracia, posso dizer, parafraseando Luís Vaz, que vale mais experimentá-la do que julgá-la, embora também não faça mal que a julguem os que, infelizmente, a não podem experimentar.

 

Última revisão:19-03-2009

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