Neste regime de pequenos feudalismos

 

Neste regime de pequenos feudalismos em que se enreda o oportunismo lusitano, o longo prazo do combate por ideias nunca conseguirá ter qualquer espaço de comunicação que tenha o frenesim do mediático e que esteja dependente daquela sociedade de corte, tecendo uma rede de fidelidades e simpatias, nomeadamente quando emergiram aqueles ilustres gestores do presente aparelho de Estado que subiram ao poder movimentando adequadamente o saco azul, vermelho, preto ou amarelo dos pareceres e avenças.

 

Por outras palavras, o quintal português da feira das vaidades é estreito demais tanto para a autonomia da sociedade civil como até para efectiva expressão da liberdade de pensamento. Os grandes controleiros deste pequeno big brother devem ser, aliás, os primeiros que se riem com os habituais invocadores da chamada teoria da conspiração. E isto porque a estreiteza do nosso espírito capitaleiro produziu uma lógica de campanário na nossa principal aldeia, a que damos o nome de Lisboa.

 

Mais do que a maçonaria, o Opus Dei, a hidra fascista ou as correias de transmissão do PCP, somos dominados pelo espírito de seita, pelas federações da amiguice, de colégio, de vizinhança ou de bar.

 

Juntem dois ou três jornalistas desempregados num serão com políticos desiludidos e intelectuais frustrados e verificarão como se enumeram estórias e estórias de aventuras do pequenino quotidiano das grandes figuras da república, à imagem e semelhança dos dramalhões à moda do Minho ou da Beira que afectam as candidaturas autárquicas.

 

Estar bem informado é saber com quem dorme o ministro A, o líder da oposição B, ou quando o secretário de Estado X aderiu ao grupo dos homossexuais, apesar de casadinho e pai de filhos, tal como quem é, entre os candidatos a vereadores, o líder do mesmo grupo de hábitos sexuais diferentes.

 

De qualquer maneira, ninguém será intelectual de sucesso se não tiver uma rede federadora que lhe permita a adequada rampa de lançamento, a recensão assegurada pelo primo do amigo a quem pagou um copo num bar do Bairro Baixo ou a necessária citação mútua do irmão em frustração.

 

O sistema político não parece conseguir sair da rotina decadentista de umas regras do jogo que nos conduziram e conduzirão sempre à meia derrota do conformismo rotativo. O modelo dos partidos políticos que o marca não parece capaz de produzir um new deal onde, baralhando e dando de novo, pudessem chegar as necessárias reformas estruturais que nos permitissem viver com aquilo que produzimos, bem como as mais profundas regenerações morais e culturais que, dando autonomia às pessoas, adensassem o comunitarismo e permitissem que largássemos as amarras da inércia.

 

Precisávamos de partir para uma nova aventura colectiva onde o movimento não fosse a ilusão de virarmos a barca para a esquerda e para a direita, mas sem sairmos do mesmo círculo vicioso, onde só andamos quando os outros nos dão bolina.

Última revisão:19-03-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info