Números, trapalhadas e embustes...

 

Tomo nota do alerta de um antigo ministro das finanças do nosso primeiro governo constitucional: se se mantiverem ao ritmo actual o crescimento económico e o crescimento da despesa, o Estado vai chegar a 2015 sem dinheiro para cobrir despesas como os subsídios de desemprego ou os salários de funcionários públicos. Reparo que ainda falta cerca de uma década e recordo como as previsões de médio e longo prazos apenas servem para que os decisores possam criar condições para que as péssimas profecias se não concretizem.

 

Tenho esperança que o lado mau destes avisos seja tão pouco realista quanto o tem sido a perspectiva utópica dos planeamentismos, ao estilo das conversas de um sub-secretário de Estado do planeamento de Marcello Caetano, anunciando que, no século XXI, atingiríamos a média de qualidade de vida da Europa Ocidental. Já cá estamos e até já nem somos aquilo que éramos.

 

Prefiro ser bem mais pessimista e questionar-me se, dentro de uma década, ainda seremos uma comunidade política assente na confiança pública e através de um aparelho de Estado auto-determinado. Porque a questão tem pouco a ver com o crescimento da função pública e com o aumento das despesas da Caixa Geral de Aposentações.

 

Aliás, o aparelho de Estado que liquidou, em poucos meses, um Império Colonial e, depois, nacionalizou, num só dia, quase todo o comando económico, já respondeu a desafios bem maiores e conseguiu resistir.

 

Apenas noto que, nesses momentos de metamorfose comunitária e de reidentificação nacional, os especialistas em numerologia não eram profetas. Transformavam, por decreto, milhares e milhares de empregados de organismos corporativos e de matadouros em funcionários públicos e incluíam, neste grande asilo dos erros políticos, os milhares de retornados.

 

A crise do aparelho engordado foi o preço que tivemos de pagar a transição para a democracia e outras loisas, nomeadamente o não termos guerras civis.

 

Quem se ri, no fim do processo, e ainda é capaz de discursar sobre a nostalgia prequiana talvez seja gente que adquiriu mais do que proporcionalmente, face ao empobrecimento colectivo das futuras gerações. Isto é, os sindicatos dos gestores públicos e para-públicos do Bloco Central de interesses, dos donos das consultadorias autárquicas, dos políticos que acumulam a professorice, dos bancários e empregados dos seguros que aproveitaram os meandros da pós-revolução, ou os capitães feitos coronéis pançudos, que Fernando Nogueira tirou dos quartéis. Esses recenseados pelos jobs for the boys , toda a casta banco-burocrática do novo devorismo que assumiu o pretenso monopólio do reformismo e da racionalidade importada.

 

Numerologia por numerologia, prefiro, mais uma vez, reconhecer que Cristo também não percebia nada de finanças, ao contrário de António de Oliveira Salazar que, depois de endireitar as pernas partidas das contas públicas com o gesso da austeridade, nos obrigou andar de perna entalada já depois da mesma estar curada, numa quarentena forçada que também durou quarenta anos, como assinalava mestre Agostinho da Silva.

Última revisão:19-03-2009

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