O governo dos filhos de algo
Depois de gémitos imensos, a montanha parlamentar deu luz o ratinho do novo programa governamental. Esse conjunto de frases metidas a martelo num texto copy and paste, susceptível de aquisição num desses supermercados das pós-graduações para gente fina. Um solene nada que tanto poderia ser assumido pela direita como pela esquerda, ou vir a ser incluído na próxima colectânea de discursos presidenciais.
Afinal o dito foi subscrito pelos rapazinhos e rapariguinhas que, nesta conspiração de avós e netos, por aí circulam com o nome de ministros e ministras, secretárias e secretários de Estado. Esse máximo denominador comum da presente união dos interesses sociais, políticos e económicos que não talvez não passe de simples emanação das chamadas forças vivas, bem representativas do estado de cobardia generalizada a que chegámos.
A culpa não está evidentemente no chefe nem no subchefe do grupo. Porque, se eles não existissem, outros teriam que ser inventados, nesta genealogia de fidalgotes que, querendo cumprir a etimologia, são, precisamente, os descendentes de alguns dos principais gestores de influências da presente encruzilhada decadentista da pátria.
Aliás, tais governantes apenas cantarolam ideias e ideologias. Num dia são liberais, adeptos de agressivo individualismo. Nutro, sociais-democratas ou democratas-cristãos, cheios de preocupações sociais, fazendo discursos sobre os velhinhos, os pobrezinhos, os reformadinhos, os aposentadões, os jubilidassímos e outros que tais.
Num dia estão à direita, de faca na liga, noutro viram à esquerda, no choradinho jet set, como os ex-líderes de RGA feitos figurões de Estado. Produzidos pela nossa tradução em calão dos Berlusconi, sabem que o povão está embriagado de fado, futebol e fátima e que, em caso de crise, basta mobilizar um novo fadista, um novo futebolista ou um novo Rasputine para que, no baralhar e dar de novo, tudo continue como dantes.
O subscritor destas linhas, defensor assumido do capitalismo liberal, que, aliás, nunca recebeu um só tostão do complexo banco-burocrático que nos domina, a título de consultadoria, subsídio ou patrocínio, pensa ter alguma legitimidade para declarar que são os efectivos liberais que mais odeiam o liberalismo sem ética, a concorrência sem regras ou a corrupção já sem vergonha.
Aliás, a corrupção é bem mais grave quando os aliados dos corruptos são os que fazem o discurso contra a corrupção. Tal como os grupos de pressão se tornam bem mais agressivos quando os analistas das pressões e dos interesses são os avençados dos ditos grupos. E os abusos de posição dominante se agravam quando os dominadores em causa se assumem como os próprios árbitros do processo.
Começo a ter saudades das heróicas virtudes burguesas do capitalismo mercantil e dos clássicos criadores de riqueza, como eram os activos cavalheiros da indústria! O estado a que chegámos não passa de uma declaração de guerra à luta pela justiça, pela liberdade e pela solidariedade!

Última revisão:19-03-2009
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