O nosso feudal-capitalismo

Portugal tornou-se presa dos que conseguiram sobressair na encruzilhada dos ilusórios vícios privados, virtudes públicas, deste jogo suicida em que se envolveu o nossso feudal-capitalismo à portuguesa que continua a denegrir a ideia de mercado. Onde há licenciosidade, mas falta liberdade, onde há libertinagem sem regulação, sanção e fiscalização. Onde, depois da casa roubada ou do pinhal incendiado, pomos trancas nas portas ou bombeiros no discurso.

Assim, Portugal lestifica-se num pós-autoritarismo que, por vezes, se confunde com mera via de transição para a bandocracia e a cleptocracia que uma classe política incompetente continua a permitir. Até instituições como as universidades vivem amarguradamente, com gentes de segunda apanha que vão ocupando os interstícios da continuidade, esses gestores coca-bichinhos, especialistas na casca de árvore que jamais conseguem vislumbrar o todo da floresta, dado que, sentadinhos nas nádegas do cavalito do poder, vão lançando serpentinas ao passivo povo que parece obrigado a assistir ao carnaval.

Os portugueses continuam a considerar que a política é um clube fechado de oligarcas, olhando, cada um deles, para o próprio umbigo. Porque todos quantos querem notoriedade carreirista têm de alinhar na carneirada da seita, do lóbi, da lojeca ou da facção, sob pena de não existirem. Até porque os estreitos canais de acesso ao poder estão armadilhados por um labirinto de dependências, mantendo-se incólumes as condições que promoveram o concentracionarismo, o autoritarismo e o corporativismo. Quem não perder-se em reverências nesses círculos falsamente iniciáticos é considerado um perigoso marginal, um mal-amado que, se tenta interferir no circuito da dominação, ao denunciá-lo. Até pode ser vítima dos habituais assassinatos de carácter que os pretensos patriarcas da padrinhagem desenvolvem.

 

Ontem como agora, o país continua a ler a lenga-lenga dos mesmos cadaverosos prensadores de epitáfios, candidatos a supremos comendadores das ordens honoríficas da ética republicana, a sobrejuízes de nomeação decretina dos supremos órgãos que fingem controlar os decretos, a mandatários desta desordem bem organizada, chamada regime.

Por outras palavras, a ilusão retórica de reformar o sistema político, depois de ilustres comissões de reforma do dito terem pré-opinado em circuito mais ou menos fechado, descobre uma centenária novidade: a introdução de círculos uninominais, como aconteceu no século XIX, quando a Regeneração voltou a ser devorismo corrupto e perdeu autenticidade liberdadeira.

Acresce que os donos e senhores do sistema que manipula a presente canalização representativa já têm consciência que podem controlar todas as porosidades e marginalidades do mostrengo da democratura. Como se demonstra pelo desejo dos pequenos partidos que não têm pé na coisa quererem aceitar um qualquer lugarzito numa coligação autárquica, nem que seja um assento de deputado municipal, para poderem ter uma qualquer vozita na montra comunicacional da demagogia. O que ainda há uma década poderia ter sido mobilizador para o recrutamento político será, hoje, simples vestimenta enganadora, tornando-se presa fácil do caciquismo e do aparelhismo, bem como das formas indirectas de corrupção, geradoras do indiferentismo.

E fico sempre com raiva quando o Estado e a televisão usurpam a nação, com muitas fardas, clarins, desfiles militares e oficiais discursos, para ministro ou presidente, antes de se condecorarem os Iutu lá da Irlanda, que entraram no palácio de chapéu de palha, pondo-nos todos a clamar pelos direitos do homem, com mais royalties ao fim do dia. Dano-me quando os enfastios da burocracia metem a pata por cima da povo, ou quando o patriotismo espectacular me obriga a pôr bandeiras à janela, para as mesmas debotarem. Por isso, dizer qualquer coisa de patrioticamente profundo chateia à brava.

Aqui e agora é politicamente correcto parecer politicamente incorrecto, como os correctos inquisidores dominantes dizem que se deve ser correctamente incorrecto, a fim de podermos ser correctamente citados pelos tais colegas dos jornais que nos pagam para neles nos escrevermos. E assim nos esquizofrenamos todos, juntamente com outros vómitos do mesmo jaez, sem os quais o país poderia não ser tão divertido, mas era, de certeza, bem menos poluído.

 

Talvez estes escritos não passem de confissões de um vencido da vida, de alguém que persiste em cumprir seus sonhos de menino-homem e que, sem ir à procura do tempo perdido, sonhando voltar atrás, ainda tem daquelas saudades de futuro que não se confundem com a procura de uma felicidade absoluta que já não há. Do mesmo modo, nunca me moveram as utopias dos amanhãs que cantam, preferindo o sentido de um destino por cumprir. Continuo à procura de um acordo comigo mesmo e por causa dessa lealdade básica, não temo poder vir estar em desacordo com todos os outros.

E aqui vos deixo este livro de um cúmplice manuscrever-me, neste prazer de uma escrita que sempre começou por ser a manuscrita, assim ao correr da pena, por sobre o tempo que passa. E neste anything book, o meu qualquer coisa será espraiar um pensamento à solta, livre das teias da metodologia científica e dos rigores do tratamento do texto doutoral, onde vou parando para me pensar, deixando de ser um simples joguete de um quotidiano saltitante ou dos ditames profissionalizantes que me marcam o ritmo. Neste parar para escrever-me, acariciando os pequenos nadas da existência.

Que neste tempo de ser e de sofrer, há um intenso prazer nas frases que resguardamos em surdina, quando elas saem imprevistas e as mãos já escrevem mais rápidas do que o pensamento. Ou quando a pulsão de escrever nos obriga a ter de estar aqui, diante do papel, vencendo a tentação de levar a cabo outras tarefas que profissionalmente tínhamos de fazer, para justificar o vencimento. Sobretudo, quando cansa usar o teclado mecânico dessas máquinas de memórias, chamadas computadores, e apetece que as palavras se assumam na beleza dos sinais que vão sulcando estes cadernos cheios de folhas onde nos devassamos.

Sobretudo, este prazer de me escrever e descrever em folhas virgens, onde temos que imprimir nosso viver, e vencer estas névoas do quotidiano que nos impedem e proíbem a procura. Porque podemos ser quem sonhamos ser, se o carácter resistir e soubermos vencer as penumbras que nos comprimem

Continuo sertanejo à procura desse qualquer coisa que não tenho e que me pode trazer momentos de felicidade. Um qualquer sítio que me dê Deus, pátria, amor e casa, que me possam reconciliar com o cosmos, os bichos, as belgas de terra, as águas das regueiras e o arvoredo da infância.

 

E apetece o escrever em português à solta, pelos grandes espaços das terras de fronteira, que não este linguajar acotovelado nas restritas assoalhadas de prédios sem alma, peri-urbanos e pós-revolucionários. Desses que até não entendem o Tejo como o estuário onde vão dar todas as aldeias e rios de Portugal.

Porque lá na pequena pátria, onde nasci, chamam Olho Marinho à nascente da plácida ribeira que banha a minha aldeia, dando, à matriz das águas, o signo da procurada foz. Também eu continuo a acreditar que, por debaixo das areias onde gorgulham as bolhas da nascente, há misteriosas funduras que vão dar ao mar. Onde o princípio tem de ser o fim, onde o destino tem que voltar a ser o nascer de novo, todos os dias, nessa procura da eternidade que desde sempre vivi.

Importa insurgir-nos contra este mais do mesmo, desobedecendo aos compadres e comadres desta partidocracia e não admitindo que, no espaço público, em nome das razões de Estado, se pratique aquilo que não é admissível na nossa casa, na nossa família, na nossa rua, na nossa terra. Volta a ser um homem livre, não tenhas medo!

Última revisão:19-03-2009

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