O paradoxo de me classificar ideologicamente

 

Sinto-me um heterodoxo da direita que procura ser um homem livre. Livre, sobretudo, da finança e da partidocracia, conforme uma conspiração, em forma de revista, que, durante o crepúsculo da I República, foi desencadeada por Afonso Lopes Vieira e por Raul Proença, juntando os irmãos-inimigos do integralismo monárquico e dos seareiros republicanos.

 

Como liberal, mais do que as liberalizações, defendo a libertação e, invocando esses dois mestres, mantenho intenso diálogo com o anarquismo místico e nem sequer nego as minhas ligações às perspectivas radicais.

 

Daí algumas heterodoxias que costumo invocar, como a de me dizer tradicionalista liberal, republicano monárquico ou radical do centro, só porque, perante o presente paradoxo situacionista, gosto de estar na esquerda da direita e, no plano colectivo, manter a necessidade de defesa de um nacionalismo liberal, conforme a matriz de Fernando Pessoa.

 

Logo, porque sou um nacionalista português, pouco dado a traduzir nacionalismos exógenos, entendo a nação como um ponto de passagem para a super-nação futura, o que passa pela fé na construção europeia e até não dispensa aquele entendimento cosmopolita, que clama o tudo pela nação, nada contra a Europa e nada contra a humanidade.

 

Assumo, portanto, o combate à Razão do Euro-Estado e à consequente constituição dita europeia, meros instrumentos de uma federação de Estados-Impérios e de interesses eurocráticos, que sempre se deram mal com as autodeterminações nacionais e as rejeições das colonizações culturais impostas pelo pensamento único, promovido pelas multinacionais culturais que o exportam a partir da actual República Imperial, senhora do comércio, navegação e conquista, com que conseguiu conformar o chamado fim do comunismo e a pretensa globalização.

 

Os portugueses, que querem continuar a independência política de Portugal, não devem temer chamar os bois pelos nomes e matar o borrego dos preconceitos europeístas e globalizastrados. Mas como não é possível mudar os portugueses que temos, através da habitual engenharia totalitária, que teve a péssima intenção de construir um homem novo, talvez seja melhor despedir a presente classe política através de uma profunda reforma que venha da sociedade para o Estado, com mais política e menos partidocracia.

 

O nosso problema não está em repetirmos o velho slogan do menos Estado, mais sociedade, mas antes em o transformarmos num melhor Estado, em o repolitizarmos, diminuindo a gordura muscular dos aparelhos da empregomania e da subsidiação, calcificando as respectivas estruturas ósseas e fazendo com que, nas articulações com a sociedade, seja eliminado o método da corrupção, ou compra do poder. E que, no plano da mobilização para o bem comum, se restaure a cidadania activa contra o indiferentismo, reinventando os laços tradicionais da vizinhança, do municipalismo, do regionalismo, do sindicalismo e do patriotismo, bem como pelo apoio à autonomia da sociedade civil, através da esquecida educação cívica e de uma autêntica revolução do sistema de ensino, liquidando a herança de Veiga Simão e dos compadres educacionólogos e avaliólogos. Esses profissionais do reformismo burocrático que andam a ser pagos vitaliciamente pelos contribuintes, para nos continuarem a derrotar em ministerialices pseudo-educativas que deveriam ser liminarmente extintas.

 

Para um cidadão que perfilha a democracia quase como uma religião secular, orgulho-me de viver politicamente como penso, para que os meus descendentes possam dizer que, na hora certa, não desisti de lutar pelas minhas crenças, mesmo que corra o risco de ter razão antes do tempo.

 

Por enquanto, com uma teledemocracia, onde a tríade dominante é a imagem, sondagem e sacanagem, para citar Manuel Alegre, temos uma autêntica ditadura da incompetência dos poderes fácticos e do neo-corporativismo, onde dominam as cabalas e os deboches mediáticos que nos envergonham.

 

Com este videopoder ao ritmo pimba, é natural que as estrelas politiqueiras desçam ao nível dos maus actores de tragicomédia e, por mais poder que tenham não conseguem atingir a autoridade, isto é, não conseguem ser os autores da necessária regeneração nacional que nos liberte de séculos de colectivismo moral, entre o inquisitorialismo de má memória e o autoritarismo pidesco. Até porque foram marcados pela mesma bufaria moral que, agora, posta ao serviço de ocultos lobbies, quer destruir a forma humana de vivermos.

 

Por outras palavras, não sendo um fiel catolaico, mas antes um mero homem de boa vontade pouco dado à sacristia, comungo com alguns dos gritos de alma de certa postura conservadora, expressa pelo combate pelos valores, desencadeado por João Paulo II e em que coincidem muitos dos militantes do humanismo laico.

 

Não quero ficar entalado entre a direita a que chegámos e a esquerda que aí vem, num qualquer estático rigorosamente ao centro, mas antes, através de um dinâmico centro excêntrico. Importa ultrapassar a amargura deste teatro de má revista, onde se pavoneiam uma direita que convém à esquerda e uma esquerda fabricada e subsidiada pela direita dos interesses. Até porque os verdadeiros donos do poder em Portugal continuam a estar invisíveis, gerindo, a partir dos bastidores, a teia de um centrão que até já integra a própria extrema-esquerda.

 

Advogo a técnica clássica do dividir para unificar, desde que assente numa autonomia municipal liberta do caciquismo e da partidocracia, bem como daqueles que entendem a regionalização como uma forma de regerem, fabricando mapas conforme as respectivas influências eleitorais para continuarem um sistema que apenas descentraliza a centralização, criando pequenas capitais locais e molusculares cortes de feudais servidores.

 

As piores crises políticas são aquelas onde nem sequer é possível uma consensualização quanto às próprias causas da crise, quando decidimos tomar o remédio que alivia a dor, mas sem procurarem eliminar as causas da epidemia. Também no último quartel do século XIX, o liberalismo monárquico português se enrodilhou em decadência e a crise levou décadas, infestando a própria República que não conseguiu implantar o sonho do bacalhau a pataco, dado que, depressa entrou no regime do mais do mesmo, onde o eficaz oportunismo dos adesivos acabou por sair vencedor.

 

Todos os sinais que nos chegam apontam para que se mantenha esta anarquia mansa e apenas se dê nova forma à permanente ditadura da incompetência. E isto porque não assumimos a necessidade de uma efectiva moralização da política.

 

Aliás, desde que o hobbesiano homem de sucesso, injectado pelo cavaquismo, aqui pegou de estaca, quase todos passaram a balbuciar o evangelho de um politiquês, onde se considera que tem razão quem vence, criando-se não uma imoralidade generalizada dos detentores de cargos políticos, mas uma efectiva a-moralidade a que deram o nome de política pura.

 

Agora é o povo que está doente e a cura não se fará com discursos da quinta das celebridades, com quarentenas ou vacinações generalizadas, mas antes pelo mais difícil dos percursos: a educação, onde deveremos começar pelas próprias elites.

 

Última revisão:19-03-2009

eXTReMe Tracker
  Index

 

Procure no portal http://maltez.info