O regresso dos Medici, com Borgia nos meandros
Muitos dos nossos politiqueiros e intelectuários, apostados na caça ao financiamento partidário e ao subsídio, têm dado, à fauna banqueiral que nos domina, suficientes pretextos para que a mesma continue a considerar que os poderes político e cultural são subordinados hierárquicos do poder económico-financeiro. Assim se gerou aquela casta banco-burocrática que leva certa faceta dos poderes fácticos a assumir-se como os donos deste Portugal que resta. Nomeadamente quando sugerem ministros e directores-gerais que a mesma nebulosa elevou anteriormente à categoria de serviçais ou de jagunços, enquanto certos discursos bem intencionados contribuem para o conceito de corrupção seja limitado aos pequenos autarcas ou aos grandes dirigentes do futebol, num evidente racismo social dos que salvaguardam as mãos limpas das cidades, dado que atiram toda a porcaria para o lado dos parolos que ainda vivem no deserto das serras.
Há, em primeiro lugar, que denunciar o ambiente de sórdida pedinchice com que muitos têm confundido o chamado financiamento partidário, circunstância que tem contribuído para que o povo deixe de ser a efectiva fonte da soberania. Compreende-se assim que alguns não-comunistas de sempre e certos anticomunistas para sempre comecem a ter saudades de um partido comunista minimamente forte, capaz de amedrontar esta paz de cemitérios chamada concertação social, feita de hipócritas equilibrismos que não denunciam a presente podridão plutocrática, assente no domínio de um clube de velhos e novos ricos, os quais continuam a considerar os que trabalham como os causadores da falta de competitividade e de produtividade.
Apenas se esquecem que quem efectivamente trabalha é quem acaba por ter de pagar os impostos que sustentam os cobradores de comissões e os intermediários do esforço dos outros, esses gestores de bens alheios que controlam uma terra de silêncios e segredos, onde campeiam os privilégios e as isenções, só porque o fogo de artifício do politiqueirismo e a pouca-vergonha da demagogia nos continuam a algemar. Não apetece contribuir para a continuação de tal enriquecimento sem causa.
Começo a sentir raiva perante os que, cobertos pela democracia formal, usurpam o sagrado da própria democracia, especialmente quando se escondem atrás desse bailado de patranhas ideológicas, cujo verniz nominal continua a ocultar a unhas aduncas dos clássicos vigaristas. É que estes conseguem sempre mobilizar uma legião de escribas jagunçais, a quem os mesmos unheiros pedem que lancem adjectivações inquisitoriais, para que sejam fulminados os mal-amados pela estirpe. Eles, os donos do poder, que podem aparecer nas televisões chorando pelos mandaram morrer, até são capazes de uma qualquer generosa oferta de um caixote de cobertores a esses sem-abrigo que estão literalmente a morrer de frio neste país que a respectiva ética construiu. O discurso da enlatada tecnocracia não rima com justiça, verdade e coragem.
Se esta canalha continuar a arvorar-se em controladora dos armazéns de valores, juro que não participarei nas procissões de candidatos que se apresentarem vitoriosamente apoiados tanto pelos pretensos banqueiros de Deus como pelos supremos teólogos dos magnos conventos que os ditos subsidiarem. Não quero que o tempo possa voltar atrás sem uma pinga de espírito livre. Mesmo que os tempos de antena tragam poemas patrioteiros, sessões de elogios a anteriores inimigos que com eles convivem como curadores do tacho. Eliminar a doença que todos, hoje, dignosticamos, pelo recurso à matriz que difundiu a virose, é seguirmos uma táctica imposta pela estratégia derrotista, por mais que os revanchistas digam o contrário.

Última revisão:19-03-2009
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