Os que confundem o nome com a coisa nomeada

Não posso chamar ao transcendente a um qualquer clube fechado com reservado privilégio de seita, pleno de eclesiásticos censores e inquisidores que, exibindo o carimbo do nihil obstat, apenas vão brandindo o punhal vingativo da excomunhão, como se a fé no mais além pudesse confundir-se com o falso espírito de muitos pobres de espírito.

Desses que, misturando o nome com a coisa nomeada, se diluem como rebanho naqueles colectivismos morais que consideram a dissidência, a heterodoxia, a autonomia e o pensamento livre como heresias a martelar pela vozearia das multidões fundamentalistas, acicatadas pelas muitas penas compradas dos escribas e por toda essa fauna de opíparos convidados para a jantarada dos comemoradores das vitórias.

Eles não sabem, coitados, que, sem a antiquíssima humildade da sabedoria, vencer é, quase sempre, ser vencido. Porque o vencedor, um quarto de hora antes de ficar derrotado, ainda assume desdenhosamente a pose do dono do poder, só porque confunde a ilusão de ser chefe com o estado de coisas desse factualismo que lhe dá o monopólio da palavra.

Porque tal como entre os primitivos actuais, também aqui chefe é aquele que discursa sozinho e controla a sonoplastia, ligando, ou desligando, o microfone da propaganda com que os telejornais nos comiciam. Como se o soundbyte pudesse ser discurso, como se a palavra pudesse existir sem prévio texto e sem se inserir no contexto, fora de um logos que tem de enraizar-se numa paideia, para poder ter sentido comunitário.

Para que a palavra possa ter sentido ela tem que nascer de novo, todos os dias, refazendo-se na pureza dessas nascentes de águas vivas a que podemos dar o nome de pátria. Onde a pátria maior tem que nascer da congregação federadora de muitas pequenas pátrias, mas sem se enclausurar no chauvinismo, para que possa abrasar-se pela procura de um universal que lhe dê o abraço armilar de uma super-nação futura que deva ter o nome de república universal.

Última revisão:19-03-2009

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