Que mande quem paga e não quem rouba!
Politicamente falando, não é quem se arroga como monopolista da abstracta voz estadual que pode dar o que não tem. Porque o que é de todos não pode ser de ninguém. Porque o Estado não pode continuar a ser um exógeno Senhor Ele que ora se assume como o nosso benfeitor, ora como o nosso ladrão. Porque o Estado somos nós todos e os respectivos aparelhos apenas podem dar aquilo que nos pertence, isto é, aquilo que tiram a uns para darem a outros. Logo, só quando quem efectivamente paga puder decidir é que acabarão as derrapagens orçamentais.
Há, portanto, que denunciar as solenes palavras dos excelentíssimos senhores que, de voz grave e casaco às riscas, vão emitindo as venerandas palavras da pátria em perigo. Que mande quem paga para que todos paguem o que devem. Aliás, só deveria ter direito a voto quem provasse o cumprimento dos respectivos deveres de sócio-cidadão.
Com efeito, muitos dizem que ministro não é sinónimo de serena razão de pátria, dada que tal função começa a não inspirar sentimentos de verdade, de imparcialidade, de probidade. Porque muitos ministros usam os meios de todos para usos privativos dos próprios ou dos respectivos compadres e comadres.
E quando a república deixa de ser uma efectiva coisa pública e o dito homem de Estado perde o norte do bem comum, estilhaça-se o prestígio daqueles escravos da função (como etimologicamente quer dizer ministro) que deixam de ser exemplos de boa conduta pessoal, social e política e passam a anedóticas caricaturas. Logo, quando o cidadão comum, perante a descrença generalizada, começa a resignar-se com o do mal, o menos e quase se atinge o nível daquele antigo ambiente sul-americano, quando certos políticos em campanha eleitoral usavam como slogan o roubo, mas faço.
Os malabarismos politiqueiros levam a que os situacionistas passem a vestir-se de oposicionistas, assumindo o martírio de novos S. Sebastião, com muitas cicatrizes nas costas, enquanto os oposicionistas já fingem que são ministros, esquecendo-se que, há muito, deixaram de o ser. Uns e outros continuam a julgar que assinaram uma espécie de coexistência semi-pacífica em torno do bloco central de interesses e, utilizando alguns peões de brega, preferem fazer guerras por procuração.
Neste vale-tudo de gente fina que não quer perder o tacho, bem como de gente candidata ao novo gancho, quase todos se esquecem de uma massa popular que pretendem moldar como objecto de marketing, naquilo que é o maior defeito da presente democratura. Assim, continuam a dominar os denunciantes, os traficantes das bocas, os bufos, os afrodisíacos, toda essa subgente inquisitorial-pidesca das eternas orgias dos contínuos do poder.
Os principais partidos ameaçam transformar-se em grandes revistas de um jet set bem colorido, com espampanantes novos-ricos ponteados por escritores e cantores de ritmo pimba, com muitas tias cheias de jóias falsas, alguns artistas amestrados e subsidiados, certos futebolistas falidos, ecologistas feitos especialistas em silvicultura de segunda habitação e muitos aristocretinos com pomposos nomes e genealógicas condecorações, obtidas no tráfico de influências da diplomacia do croquete.
Não tarda que se desenterrem encenações de passados cavaleiros de triste figura que voltarão a ser armados honorários escudeiros de uma qualquer academia do peixe-espada preto, onde assumirão a liderança certos dirigentes da futebolítica, ornados com a medalha do termo de identidade e residência. Esses caixeiros viajantes de uma caravana de comediantes, feitos militantes de cartão plastificado, donos de uma qualquer senha que lhes passa a dar colocação de familiares, prestígio no café do bairro, citação no boletim paroquial e eventual direito a nome de rua num desses subúrbios de cimento, lata e droga.

Última revisão:19-03-2009
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