Ser formiguinha e casar a honra com a inteligência...
Qualquer universo fechado que pratica o ilusionismo de proclamar-se como sociedade aberta, como é o mundo dos ditos jornalistas e homens de letras, incluindo os que fazem da blogosfera um tasco burguês com reservado direito de admissão, tem tendência para uma espécie de clausura auto-reprodutiva, com a consequente criação de uma ditatorial opinião comum dos doutores, onde não falta o inevitável sindicato de citações mútuas, com aprendizes, companheiros e mestres, numa intrincada hierarquia neofeudal, onde os donos do poder estabelecem as linhas justas do bem e do mal e todos se vão glosando e comentado, muito escolasticamente, com gurus e vacas sagradas.
Não faltam sequer os inevitáveis inquisidores que, sentados no trono do teclado, gerem, de forma bispal, o elogio e a censura e que, às vezes, nem sequer se eximem no uso da excomunhão e do cajado verbal.
Ai de quem queira aqui ser tão irreverente que não se conforme com os conceitos oficiosos de irreverência. Porque os assanhadores da matilha podem lançar voz de perseguição, inventando nomes de exclusão, usando e abusando da mentira, da injúria e do dogma da infalibidade papal, aplicado a pretensos mestres do ofício, mesmo que o não exercitem.
Por outras palavras, tribalizámo-nos em torno de meia dúzia de primitivos actuais, para os quais o princípio da igualdade é parecido com os modelos que marcam a chamada cultura portuguesa na sua estreiteza de quintal, onde a imagem de contra-poder acaba sempre instrumentalizada pelo poder político instalado.
As verdadeiras correntes de ideias são sempre um arquipélago de muitas catacumbas, onde cada uma diz que a respectiva capelinha é que é a verdadeira, assim cumprindo a bela marginalidade dos individualistas. Federar esses territórios dispersos implica a humildade da formiguinha, bem como o estabelecimento de um adequado processo de estudo genealógico, sem as ilusões da chegada de um marechal, de um professor excelso, de um partido com força eleitoral ou até de um candidato presidencial, na falta de generais.
A procissão ainda não saiu do adro, nem virá da blogosfera, do púlpito, da sacristia, da loja, do semanário ou de qualquer ilusão congreganista. Virá do humilde esforço da sementeira de ideias, que possa ser cumprida pelos vacinados contra a ilusão mediática e tiverem a ousadia de sujar as mãos nos compromissos e na luta. Acontecerá, sobretudo, se se assumir a sabedoria dos derrotados e dos que sabem que ninguém tem razão a curto-prazo. Por isso, digo que convém continuar a fazer casar a honra com a inteligência. Pode ser que se fecundem...
Última revisão:19-03-2009
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