Sobre o nosso desassossego político
Apetece ter tempo para perder o tempo em coisas que sejam eternas. Revoltar-me contra este estado de coisas a que chegámos, onde todo o tempo que fingimos ter equivale a uma rigorosa abolição do ócio e os próprios intervalos são justificados pelo negócio, para além de termos que descansar para justificar o chamado fim de semana.
Vale-me que sou pago para pensar, titulado doutoralmente em ciências sociais na especialidade daquilo a que o decretino chamou ciência política, pelo que tenho algum carimbo oficial para tratar de assuntos gerais. Porque, sendo universitário, isto é, pária, exigem-me que socialmente cultive o ócio, isto é, o preciso contrário do nec+otium. Contudo, talvez trabalhe mais todos os dias, do que a maioria daqueles que se dedicam ao negócio. É que, na minha profissão, não há férias nem dias oficiais de descanso porque todos os dias temos que passar da opinião para o conhecimento, da dispersão dos saberes para a sabedoria.
Sempre odiei o dinheiro como ideia, esse time is money que se esquece que o tempo só a Deus pertence e não aos horários dos tique-taques suíços e também não quero ser niponicamente digitalizado, mesmo que tudo seja made in China. O tempo deve voltar a ser de todos e o ócio não pode confundir-se com a chamada paragem de trabalho.
Há que dizer não a esta civilização periurbana onde estamos condenados a ter horas marcadas para o próprio descanso. Onde todos fingimos que descansamos vendo os mesmos programas dos enlatados televisivos. Ou lendo os mesmos semanários que pensam ensinar as pessoas a pensar, quando estandardizam a opinião, através de uma normalização de crenças a que chamam críticas.
O tempo pode ser a procura de quem somos, nesse tentar o achamento do que não há, mas que, podendo ser, até nos pode acontecer. Que a nossa dita economia de mercado, aparentando ser teologia neoliberal, não passa de falsificação, resultante de um assalto devorista que, vestindo-se de legalidade, se vai esquecendo que não há liberdade sem justiça. Porque a pax mercatoria nunca pode substituir a ânsia de república universal, o desejo de um Estado de Direito universal.
As ideias nunca podem ser massificadas, para alimentarem parangonas e vaidades, dado que assim correm o risco de serem instrumentalizadas pela banalidade, pela propaganda comercial e pelo marketing. Quando continua a faltar-nos uma imaginação politicamente cientifica, como propunha Gilberto Freyre. Como sentimos o vazio, na política da camaradagem da amizade, da conspiração da reverência; da cumplicidade de uma crença; da comunidade de sonhos.
Ora, grande parte dos actuais conflitos universais resultam de erros de cálculo dos assumidos projectistas da globalização, onde os bons polícias do universo são ferreiros que têm em casa espetos de pau, assumindo-se como péssimos arquitectos do concerto das nações. Por mim, mantenho a ambição de ser cidadão de uma potência espiritual e por isso continuo a lutar contra os fantasmas dos pequenos interesses da pequena burguesia e o pensar baixinho dos nossos bem pensantes da mediocracia.
Porque há culturas em movimento que apenas precisam de alfabetização e de educação tecnológica, desses pequenos nadas que, de um momento para o outro, nos podem dar uma manhã de nevoeiro. Daí notar os vícios que vão dessangrando a nossa alma atlântica, desde a hobbesiana teoria do homem de sucesso do individualismo pirata, onde tem razão quem vence, ao verniz burguês, cheio de lantejoulas que continua a recobrir a carcaça deste cadáver adiado que se vai reproduzindo em candidatos presidenciais, festas do Avante e guerrilheiros de café do esquerdismo lamúrias, enquanto o crime compensa e os mass media vão prestando menagem aos vencedores que se estabeleceram sobre as ruínas, através da evasão fiscal e de todo esse manancial de golpes dos colarinhos brancos e dos cavalheiros da indústria.
Há um intelectual-salsicha à portuguesa que, longe do intelectual orgânico gramsciano, não passa dessa forma arredondada feita de subprodutos de revoluções frustradas, a tal falsa cultura cheia de muitas fichas roubadas à Wikipedia e aos dicionários de citações. Ele é um pescador das modas que passam de moda que, estando na crista da onda, continua sem uma ideia, permanece numa postura que continuam a mandar e a silenciar, neste reino cadaveroso que descobre sempre os respectivos génios no centenário da sua morte.
Porque, aqui e agora, mandar continua a ser silenciar, excluir a diferença e estabelecer a unidimensionalidade daquele rebanho que fica de cócoras perante os próprios fantasmas. E porque continua pujante um smart set possidente que tem a secular arte de manipular a mais valia, numa burguesia devorista que sempre teve a atracção fatal pelos cachorros de estimação que lhe mordam as canelas.
Quem sabe que é por dentro das coisas que realmente somos não assenta naquela mixórdia com que a perspectiva da touriste Simone Beauvoir confundiu o salazarismo com Portugal, desconhecendo Pessoa ou as páginas de Miguel de Unamuno sobre este povo de suicidas que sempre foi constitucionalmente pessimista. E, por mim, bem queria que voltasse tal espécie de grande pensador castelhano que, sendo o nosso outro, nunca é um efectivo estrangeiro quando ama o nosotros da ocidental praia.

Última revisão:19-03-2009
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