Tempo de mistura de deuses

 

Vivemos um tempo de teocrasia, de mistura de deuses, afinal uma das principais manifestações da revolução global que também levou à difusão da vulgata de uma certa cultura política, reflexo da ideologia dominante.

 

Deu-se uma mistura entre a teologia do mercado, resultante da perspectiva do free trade, e o modelo organizatório do État-Nation, produto da Revolução Francesa, uma espécie de sopa de pedra, onde também se adicionam os condimentos de certo conceito de direitos do homem, com remota origem no cristianismo. A esse conjunto damos, por vezes, o nome de Estado de Direito, socorrendo-nos das grandes sínteses romano-bizantinas e, mais recentemente, dos modelos franco-germânicos da codificação e da pandectística.

 

Isto é, sobre o pano de fundo das culturas tradicionais, quase tribais, circula uma super-estrutura estrangeirada, marcada pela ideia iluminista das nações polidas e civilizadas. E aquilo que até à Segunda Guerra Mundial era um mero fenómeno ocidental, europeu e americano, transformou-se num processo planetário.

 

O mal da teologia neoliberal é confundir os meios com os fins. Ou melhor: esquecer a necessidade dos fins, dos valores para que deve tender qualquer organização de homens. Os anglo-saxões, os donos da história dos vencedores e os consequentes autores do modelo que tem vindo a colonizar culturalmente o mundo inteiro, conseguiram, nas suas próprias casas, enquadrar espiritualmente o processo no âmbito da respectiva civilização de moral individual. Contudo, não percebem que o capitalismo de exportação, ao penetrar noutras civilizações se transformou num utilitarismo estéril e num hedonismo desenraizador.

 

O mal não está, portanto, no mercado nem no capitalismo, mas antes na terra queimada e nas terapias de choque que levam a uma falta de quadros morais que lhes dêem horizonte cultural, conforme as várias diferenças humanas.

 

Neste sentido, julgo que não será possível a manutenção desta ordem mundial onde os ricos continuam cada vez mais ricos e são cada vez menos, cercados por uma crescente multidão de pobres, cada vez mais pobres, ao mesmo tempo que os remediados do antigo terceiro mundo vão enfrentando o desafio da aldeia global da economia, através de um dumping  social feito à custa da não existência de igualdades sociais internas.

 

A indignação destas grandes massas humanas deserdadas pode tornar-se insustentável pelos autoritarismos modernizantes que aqui dominavam. A aldeia global pode penetrar reivindicativamente em zonas até agora de povos mudos do mundo, quando não mesmo de povos dispensáveis. Talvez nesta circunstância esteja a principal incógnita do processo, mas que não tem de ser resolvida no curto prazo.

Última revisão:19-03-2009

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