Um pequeno Brasil, mas sem favelas...
Os higiénicos ocultadores do termo raça, coisa que, aliás, cientificamente falando, já não existe, não são capazes de reconhecer que a culpa é de nós todos, desse falso paternalismo da memória imperial que, confundindo o bem com o mal, não é capaz de compreender que, com fantasmas de guerra colonial e preconceitos de descolonização, o racismo é uma fogueira que vai lavrando sem se ver, um primitivismo naturalístico que disfarça a nossa impotência de criação comunitária.
A questão não está no subentendido racista, porque os putos da Damaia não são de Bissau, de Luanda ou do Maputo, são portugueses bem portugueses deste Portugal, educados pela televisão portuguesa, pela escola portuguesa, pelos jornais portugueses, pelos políticos portugueses e que constituem uma excelente demonstração de como estamos a falhar como povo, incapaz de gerar uma comunidade de coisas que se amam, uma comunidade de significações partilhadas.
Uma pátria que não reconhece que é bem mais rica porque, hoje, há mais portugueses a falar crioulo do que madeirense ou açoriano, mas que continua a não admitir o óbvio de sermos, pelo menos na grande Lisboa, um pequeno Brasil, será sempre um cadáver adiado, muito especialmente se não reparar que, para continuarmos a viver, temos De lutar pela reinvenção de uma identidade nacional capaz de mobilizar os pretinhos portugueses da Cova da Moura, a que só dão, felizmente, o futebol, do Benfica à selecção nacional.
O meu Portugal não pode ter esta mentalidade de criação de favelas que por aí circula entre os que continuam com programas escolares e de televisão que nos pintam de caras pálidas, burguesas e fidalgotas.
O meu Portugal não é o da educação multicultural irrealista, mas dos novos muitos Portugais que me enriquecem e que eu não tenho que unidimensionalizar de forma integracionista, mas na variedade dos muitos crioulos que fizeram Lisboas, Alcáceres, Messejanas e muitas outras aldeias de variedade universal. Sejamos claros, a preto e branco, a loiro e a moreno. Não decepem o Portugal maior que ainda podemos reidentificar e amar!
Os primitivos actuais são naturalisticamente racistas. Só o deixam de ser quando se conhecem, quando se amam, quando, através de um esforço de conversão, se elevam ao ardor de um sonho. Cá por mim, continuo a sonhar um Portugal cadinho de universal e até sou capaz de propor que o crioulo seja elevado a língua nacional portuguesa, ao lado do mirandês e do barranquenho. Saibamos ser dignos do Brasil que transportámos para a ex-capital do Império, mas não deixemos que cresçam as favelas da ignorância e da falta de transparência noticiosa.
Só se assumirmos uma identidade nacional aberta e reinventarmos todos os dias um sonho actualista de nação é que diremos o necessário vale a pena, para que a alma não seja pequena! Obrigado, Sofia, a chinesinha que nasceu na minha rua e que anda sempre com o cozinheiro do restaurante indiano, a brincar com o pretinho Jaquim e com a Maria, moldova, seus vizinhos, neste belo quadro de um Portugal que pode voltar a ser abraço armilar!

Última revisão:19-03-2009
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