21 Junho 2007

Se tudo fosse Maniqueu, preferiria a fotografia do regime. Por isso, continuo a seguir Miguel de Unamuno: Éste es el templo de la inteligencia! ...Vosotros estáis profanando su sagrado recinto. Yo siempre he sido , diga lo que diga el proverbio, un profeta en mi propio país. Venceréis, pero no convenceréis, porque convencer significa persuadir, y para persuadir necesitáis algo que os falta: razón y derecho en la lucha.

Pouco antes, Unamuno dissera "Acabo de oír el grito negrófilo de "¡Viva la muerte!". Esto me suena lo mismo que "¡Muera la vida!". Y yo, que he pasado toda la vida creando paradojas que provocaron el enojo de quienes no las comprendieron, he de deciros, con autoridad en la materia, que esta ridícula paradoja que me parece repelente. Puesto que fue proclamada en homenaje al último orador, entiendo que fue dirigida a él, si bien de una forma excesiva y tortuosa, como testimonio de que el mismo es un símbolo de la muerte. ¡Y otra cosa! El general Millán Astray es un inválido. No es preciso decirlo en un tono mas bajo. Es un inválido de guerra. También lo fue Cervantes. Pero los extremos no sirven como norma. Desgraciadamente hay hoy en día demasiados inválidos, Y pronto habrá más si Dios no nos ayuda. Me duele pensar que el general Millán Astray pueda dictar las normas de psicología de las masas. Un inválido que carezca de la grandeza espiritual de Cervantes, que era un hombre, no un superhombre, viril y completo a pesar de sus mutilaciones, un inválido, como dije, que carezca de esa superioridad de espíritu, suele sentirse aliviado viendo como aumenta el numero de mutilados alrededor de él (...) El general Millán Astray quisiera crear una España nueva, creación negativa sin duda, según su propia imagen. Y por ello desearía una España mutilada..."

Para bom entendedor de paradoxos, meio discurso de Unamuno basta. Não houve sumos sacerdotes no templo. E mesmo este episódio de Salamanca não é unívoco. Porque entre, Unamuno e Astray, apareceu o grito do poeta José Maria Pemán, do viva a inteligência, morram os maus intelectuais. E os três estavam do mesmo lado da barricada, isto é, com o alzamiento franquista. Seria também verdadeiro notar que os grandes pensadores da Agrupación al Servicio de la República, como Gregorio Marañón, Ortega y Gasset ou Pérez de Ayala não tinham sido ouvidos, a tempo, quando denunciaram os desmandos que causaram a espiral violentista da guerra civil e da posterior vindicta franquista, dado que, nos dois extremos, quem venceu em poder não convenceu em autoridade.

Estavam em disputa quanto a concepções do mundo e da vida, no âmbito de uma facção em guerra, num tempo dividido entre os do vivam e os do morram, onde, para se dizer viva se tinha de matar. Prefiro que não tenha de haver discursos de Unamuno, evitando que os intelectuais caiam na intelligentzia e que a cultura se volva em kultura. Daí que a universidade deva continuar a ser universidade, porque mesmo entre militantes da mesma ideia se deve começar o discurso da seguinte forma unamuna:

Estáis esperando mis palabras. Me conocéis bien, y sabéis que soy incapaz de permanecer en silencio. No aprendí hacerlo en los setenta y tres años de mi vida. Y ahora no quiero aprenderlo. A veces, quedarse callado equivale a mentir. Porque el silencio puede ser interpretado como aquiescencia.

 

1.6.06

Um povo de suicidas, a teoria do "Verstehen" e os cacos da não verdade que me caíram na careca

Andei com a minha agenda das efemérides perdida durante alguns dias. Por isso, quando hoje a recuperei, perdida no saco da roupa de mudar, fiquei a tempo de assinalar que se comemora hoje o dia um do mês de Junho, não apenas com o facto de, em 1823, D. João VI retomar o controlo do poder depois da Vilafrancada, como, sobretudo, pela data do suicídio de Camilo Castelo Branco, em 1890. O que levou o nosso grande amigo, Miguel de Unamuno, a atribuir-nos o qualificativo de povo de suicidas. Aliás, na altura o grande mestre espanhol falava na necessidade de uma intra-história, feita pela vida silenciosa de milhões de homens sem história donde vive a verdadeira tradição. Dizia também que os peninsulares são mais apaixonados do que sensuais, mais arbitrários do que lógicos. Lo somos y debemos seguir siendolo.

Esse grande mestre dos paradoxos que tanto defendia a espanholização da Europa como a europeização da Espanha, da mesma maneira como chegou a propor a própria portugalização de Espanha, percebia o que era o sentimento trágico da vida, esse imortal conflito entre a razão e a fé, entre a inteligência e o sentimento, pólos insusceptíveis de conciliação. Porque a fé só será fecunda e salvadora quando tiver por base a luta constante entre o cepticismo racional e a ânsia vital da imortalidade.

Logo, tenho de continuar a falar por metáfora, que é aquilo que me aguenta, neste mundo de gente lúcida onde tento manter a lucidez de ser ingénuo, porque quero viver como penso, sem ter pensar como vivo, dado que sei que importa submeter-me para sobreviver, a fim de conseguir, de seguida, lutar para continuar a viver. Até porque, na prática, a teoria é outra e, de boas intenções, está o inferno cheio.

E lá continuarei a falar por metáforas, no microcosmos e no macrocosmos, utilizando a técnica criativa da analogia que é ir de semelhante a semelhante, para pegar numa folha de árvore e tentar apanhar o todo, através da tradicional técnica da hermenêutica, que é o método epistemológico e de vivência que recebi da velha peripatética, coisa a que os alemães, muito Wissenschaft, chamaram Verstehen, que é prender coisa com coisa, similia ad similia, compreendendo a floresta pela descoberta do que é a alma de uma simples árvore, através dos indícios que me dão os sinais de casca que, por acaso, me caem na careca, sem eu, sequer, ter que os procurar, segundo a técnica da pretensa espionagem. Basta o olho vivo...mas triste.

Última revisão:19-03-2009

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