Entre os berardos e os jardins da nossa aldeia
Em tempo de festas, boas festas e fim de festa,
pediram-me da TSF que elencasse o acontecimento
e a personalidade do ano de 2007. Escolhi, como
acontecimento, a crise do BCP, e como
personalidade do ano, o madeirense Berardo.
Porque o Tejo é o rio que passa na minha aldeia
e continuamos o Portugal de sempre, um país
castífero e capitaleiro, onde os provincianos da
capital acusam os restantes de mais
provincianos, neste jogo de castas, onde
continuamos o tradicional ciclo de um estadão
que nos quer revolucionar ou reformar, mas,
onde, passada a euforia do gigante de pés de
barro, fica a pós-revolução das viradeiras, onde
o Portugal Velho resiste de forma neocorporativa
e neofeudal ao sonho do Portugal Novo.
De vez em quando há um Marquês de Pombal, uns
vintistas, uns republicanos do 5 de Outubro, uns
revolucionários do PREC, mas, logo a seguir,
seguem-se as festas de família, dos "gentleman's
agreement", do "porreiro, pá", onde continua a
ilusão do condicionamento industrial e do
proteccionismo. Daí a escolha da crise do BCP e
do anti-herói Berardo. Para não contar a
história do velho, do rapaz e do burro.
O BCP, no modelo Jardim Gonçalves, é a ordem da
sacristia, dos sucessores com aquele ar de
meninos bem comportados, de bons alunos, antigos
governantes de Cavaco, com ar de sócios do
Sporting Clube de Portugal. Berardo é o
irmão-inimigo que gosta de estragar a festa no
adro da Igreja, só porque não foi convidado para
o recato da sacristia. E no ano de 2007,
assumindo a postura de Zé do telhado e de
banqueiro anarquista, tanto atacou o modelo CCB
dos intelectuais à Mega Ferreira, como foi
saudado pelos trabalhadores da CGTP na
assembleia-geral da PT, antes de querer comprar
o Sport Lisboa e Benfica e de apresentar uma
denúncia contra os donos do poder do BCP na
Procuradoria-Geral da República.
Assim continuamos, entre a direita e a esquerda,
entre o Sporting e o Benfica, com muito Fado,
Futebol e alguma Fátima. E assim chegamos a
Lisboa, onde Lisboa é Portugal e o resto da
província é paisagem. E de Lisboa nos vêm os
banqueiros, os magistrados, os ministros, os
partidos, a revolução, as reformas e a própria
proibição dos referendos, porque é preciso pôr a
Europa a funcionar e o povo nos carris. Mesmo
quando vivemos um ano de madeirenses, entre
Alberto João e Berardo, entre Ronaldo e Jardim
Gonçalves. Julgo que este gigante com pés de
barro apenas precisa da funda de um qualquer
David que venha continuar a dizer que o rei vai
nu.
