A sociedade não é senão o complexo dos grupos que a compõem
Depois de ter mobilizado a minha atenção para o fim
da era mendista do PSD, tendo ainda ontem surgido
umas declarações minhas ao Jornal de Notícias,
também concluí o processo com uma última intervenção
sobre a matéria no forum da TSF, prestada, aliás, em
directo, em plena aula de uma licenciatura em
ciência política, onde estava a explanar sobre a
metodologia da complexidade. Agradeço ao Dr.
Domingos Duarte Lima as palavras de cumplicidade
valorativa que me dirigiu.
Com efeito, bem tentava comunicar aos alunos que o
essencial do meu subsolo filosófico assentava na
dialéctica clássica, greco-romana, da complexidade,
onde, em vez do ecletismo e da tríade hegeliana da
tese/antítese/síntese, preferia uma interpretação
evolucionista da evolução, à maneira de Samuel
Alexander ou Teilhard de Chardin. Porque nos
sistemas abertos não há a lei da degradação da
energia que domina o mundo físico e os sistemas
fechados, não há aquela quantidade de energia que,
sendo gasta numa mudança, se torna irrecuperável
pelo sistema e fica para sempre na zona do
desperdício.
Quem, gerindo democracias, as transforma em sistemas
fechados, provoca a involução e o nivelamento,
julgando que tudo é marcado pela probabilidade da
morte da matéria. A energia de um sistema aberto
atravessa o mundo físico e fá-lo subir para o
improvável, assentando no poder que têm os seres
vivos para a regeneração e a multiplicação, lançando
para cima e para dentro, visando estados cada vez
mais complexos e mais centrados, ligando os homens
de centro a centro, de consciência a consciência,
sempre no sentido do improvável.
Numa democracia, as situações e as oposições
equivalem à convergência e à divergência da
dialéctica clássica. A fase do futuro não passa de
mera emergência, onde não desaparecem as anteriores
convergências e divergências. Porque um sistema
complexo, um sistema aberto, ou um sistema vivo, é
regido por mecanismos de auto-organização, responde
a flutuações aleatórias, tem processos de crescente
complexificação, conduz a ordens cada vez mais
espontâneas, dado que cada ordem tem novos desafios
e surgem sempre ordens mais complexas.
Começo sempre a parte teórica das aulas, confessando
a minha teoria, o meu perspectivismo, a minha
concepção do mundo e da vida. Para dizer que a minha
objectividade é não disfarçar os meus compromissos
de valores. Por isso, tenho legitimidade para
denunciar a circunstância de alguns inimigos da
democracia a terem ocupado por dentro, sentando-se
no vértice de alguns aparelhos de poder para a
conquistarem, através do processo de subversão a
partir dos mesmos aparelhos de poder. Só um
assimétrico de mente é que não quer ouvir, ver e ler
como estalinistas não reciclados, fascistas
folclóricos e teocráticos feitos tecnocratas se
preparam para nos amarfanharem. O anedotário segue
dentro de momentos, enquanto Pôncio Pilatos lava as
mãos com a interpretação autêntica dos respectivos
despachos regulamentares. Espero que o Estado de
Direito não continue distraído.
