1993

Da conclusão do Mercado único à procura da nova ordem internacional

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

Da conclusão do mercado único à procura da nova ordem internacional – Entra em vigor o Tratado da União Europeia (1 de Novembro) e dá-se a chamada conclusão do Mercado Único (1 de Janeiro), enquanto o Conselho Europeu de Copenhaga adopta o princípio do alargamento aos países da Europa Central e Oriental (22 de Junho). Mas a chamada procura da nova ordem internacional, depois do chamado fim da chamada guerra fria, e no começo da era Clinton, apenas demonstra que, afinal, não há nenhum fim da história nem, muito menos, qualquer fim do comunismo, até porque a República marxista-leninista-maoísta da China, que representa cerca de um quarto da humanidade, continua e o golpe de Moscovo ocorre nos dias 4 e 5 de Outubro, neste ano em que se comemora o centenário de Mao Tse Tung. Voltamos, de certa maneira, à idade do nacionalismo, ao mesmo tempo que continuamos na procura dos grandes espaços, com nações em regime de secessão e nações em regime de unificação, com pan-germanismo, pan-arabismo e pan-eslavismo. Se se conclui o Uruguay Round do GATT e começa a falar-se numa organização mundial do comércio, ainda nos quadros da velha ordem, eis que a Europa entra em regime de pós-Maastricht, com o fim da euforia e o regresso de uma Realpolitik, novamente em alemão, com a Rússia a viver uma dialéctica que passa por Yeltsin e Jirinovski. Volta a guerra, especialmente em Angola e na Sérvia, recrudesce a peste, principalmente da SIDA, e continua o crescendo da fome, num tempo de interregno, com crise sem depressão, no chamado Ocidente. Guerras, mas sem guerra mundial e com regressão do terrorismo. Fome, sem grandes depressões, mas com a ajuda humanitária a falhar.

A terceira onda da democracia – No ano em que o governo decide não conceder aos funcionário públicos a tradicional dispensa de serviço em dia de Carnaval e que reabre o processo de construção da barragem do Alqueva, vive-se o ritmo do enigma europeu (Guilherme de Oliveira Martins), de uma Europa em transição (Guilhaudis), talvez um strange superpower (Buchanan), ou a última utopia (Dominique Wolton), de um projecto que vive entre o labirinto e a casa comum (Viriato Soromenho Marques), num fim do século que pode ser o começo da Europa (Robert Lafont) em tempo de The Work of Nations (Robert Reich) visando o capitalismo do século XXI. Se alguns querem preparar o século XXI (Paul Kennedy) e outros lamentam-se com o fim da democracia (Jean-Marie Guéhenno), há quem teorize o pós-liberalismo (John Gray) e a ilusão política para se reinventar a democracia (Manuel Jiménez Parga). Enquanto isto, o harvardiano Samuel Huntington fala na Third Wave da democracia, onde coloca o Portugal de 1974 como o ponto de partida para um processo libertador que vai levar ao fim do comunismo, ao mesmo tempo que Régis Debray analisa o Estado Sedutor e as revoluções mediológicas da política e que John Rawls teoriza Political Liberalism. Destaca-se, contudo, a publicação póstuma de um fundamental estudo de Hannah Arendt, Was ist Politik?, quando Zbigniew Brzezinski reconhece que estamos out of control, Yves Cannac fala no regresso do Estado e Danillo Castellano procura a racionalidade da política. O liberal brasileiro pensa nos Vícios Privados, Benefícios Públicos, retomando The Fable of Bees, e Gidon Gottlieb fala em Nation Against State, em tempo de conflitos étnicos e de declínio da soberania, de procura do localismo (Albert Mabileau), pandaemonium (Daniel Patrck Moynihan) e de nova Idade Média (Alain Minc). Entre nós, com Nuno Rogeiro a tentar a síntese sobre O que é a Política?, Boaventura Sousa Santos continua a marcar com Portugal. Um Retrato Singular e Vasco Pulido Valente destaca-se com Os Devoristas. Já Jacques Séguélla é inequívoco: L'Argent n'a pás d'Idées. Seules les Idées font l'Argent.

 
1993

União Europeia, Partido Popular, TVI e PS vencendo autárquicas

Da conclusão do mercado único à procura da nova ordem internacional

A terceira onda da democracia

1993
 

 

 

1993
 

Conclusão do Mercado único

Divisão da Checoslováquia

Após várias tentativas, Dinamarca aprova Maastricht

Câmara dos Comuns ratifica o Tratado de Maastricht

Entra em vigor o Tratado sobre a União Europeia

Termina o Uruguay Round

Paul Kennedy

As comunidades, e até países inteiros, parecem ter cada vez menos controlo sobre o seu próprio destino.

As estruturas de poder tradicionais estão confundidas com taxas de fertilidade aquém da taxa natural de reposição, imigração ilegal e fluxos monetários maciços.

Têm respostas insatisfatórias ou nem sequer as têm para a ameaça de despedimentos em larga escala na agricultura e na indústria; têm dificuldade em impedir que as empresas se desloquem para outras regiões, ou em abafar a informação das televisões e rádios transnacionais; ficam paradas a pensar nas implicações do aquecimento global.

Da conclusão do mercado único à procura da nova ordem internacional –

Entra em vigor o Tratado da União Europeia (1 de Novembro) e dá-se a chamada conclusão do Mercado Único (1 de Janeiro), enquanto o Conselho Europeu de Copenhaga adopta o princípio do alargamento aos países da Europa Central e Oriental (22 de Junho). Mas a chamada procura da nova ordem internacional, depois do chamado fim da chamada guerra fria, e no começo da era Clinton, apenas demonstra que, afinal, não há nenhum fim da história nem, muito menos, qualquer fim do comunismo, até porque a República marxista-leninista-maoísta da China, que representa cerca de um quarto da humanidade, continua e o golpe de Moscovo ocorre nos dias 4 e 5 de Outubro, neste ano em que se comemora o centenário de Mao Tse Tung. Voltamos, de certa maneira, à idade do nacionalismo, ao mesmo tempo que continuamos na procura dos grandes espaços, com nações em regime de secessão e nações em regime de unificação, com pan-germanismo, pan-arabismo e pan-eslavismo. Se se conclui o Uruguay Round do GATT e começa a falar-se numa organização mundial do comércio, ainda nos quadros da velha ordem, eis que a Europa entra em regime de pós-Maastricht, com o fim da euforia e o regresso de uma Realpolitik, novamente em alemão, com a Rússia a viver uma dialéctica que passa por Yeltsin e Jirinovski. Volta a guerra, especialmente em Angola e na Sérvia, recrudesce a peste, principalmente da SIDA, e continua o crescendo da fome, num tempo de interregno, com crise sem depressão, no chamado Ocidente. Guerras, mas sem guerra mundial e com regressão do terrorismo. Fome, sem grandes depressões, mas com a ajuda humanitária a falhar.

A terceira onda da democracia

No ano em que o governo decide não conceder aos funcionário públicos a tradicional dispensa de serviço em dia de Carnaval e que reabre o processo de construção da barragem do Alqueva, vive-se o ritmo do enigma europeu (Guilherme de Oliveira Martins), de uma Europa em transição (Guilhaudis), talvez um strange superpower (Buchanan), ou a última utopia (Dominique Wolton), de um projecto que vive entre o labirinto e a casa comum (Viriato Soromenho Marques), num fim do século que pode ser o começo da Europa (Robert Lafont) em tempo de The Work of Nations (Robert Reich) visando o capitalismo do século XXI. Se alguns querem preparar o século XXI (Paul Kennedy) e outros lamentam-se com o fim da democracia (Jean-Marie Guéhenno), há quem teorize o pós-liberalismo (John Gray) e a ilusão política para se reinventar a democracia (Manuel Jiménez Parga). Enquanto isto, o harvardiano Samuel Huntington fala na Third Wave da democracia, onde coloca o Portugal de 1974 como o ponto de partida para um processo libertador que vai levar ao fim do comunismo, ao mesmo tempo que Régis Debray analisa o Estado Sedutor e as revoluções mediológicas da política e que John Rawls teoriza Political Liberalism. Destaca-se, contudo, a publicação póstuma de um fundamental estudo de Hannah Arendt, Was ist Politik?, quando Zbigniew Brzezinski reconhece que estamos out of control, Yves Cannac fala no regresso do Estado e Danillo Castellano procura a racionalidade da política. O liberal brasileiro pensa nos Vícios Privados, Benefícios Públicos, retomando The Fable of Bees, e Gidon Gottlieb fala em Nation Against State, em tempo de conflitos étnicos e de declínio da soberania, de procura do localismo (Albert Mabileau), pandaemonium (Daniel Patrck Moynihan) e de nova Idade Média (Alain Minc). Entre nós, com Nuno Rogeiro a tentar a síntese sobre O que é a Política?, Boaventura Sousa Santos continua a marcar com Portugal. Um Retrato Singular e Vasco Pulido Valente destaca-se com Os Devoristas. Já Jacques Séguélla é inequívoco: L'Argent n'a pás d'Idées. Seules les Idées font l'Argent

Preparing for the Twenty-First Century

Obra de Paul Kennedy onde este autor se distancia das teses que aceitam o protagonismo dos grandes homens na história, aceitando o chamado poder anónimo das grandes forças sociais.

Os jogos de poder do que designa como Estados-Nações (tem como paradigmas a Grã Bretanha e os USA) estão a dar lugar aos choques tecnológicos, demográficos e ecológicos:

Conclui, assim, que as nações com condições para enfrentamento do século XXI parecem ser o Japão, a Coreia, certos Estados mercantis do Leste Asiático, a Alemanha, a Suíça, alguns países escandinavos e talvez a Comunidade Europeia como um todo.

Todas estas entidades teriam, em comum, altas taxas de poupança, níveis impressionantes de investimento em novas fábricas e equipamentos, excelentes sistemas educativos (especialmente para quem não vai para a universidade), uma força de trabalho especializada e bons sistemas de reconversão profissional, uma cultura fabril com muitos mais engenheiros do que advogados, um compromisso de produzir bens industriais para o mercado global com um bom "design" e alto valor acrescentado, e excedentes comerciais bastante consistentes em mercadorias físicas. Também dispõem de homogeneidade cultural e étnica.

Was ist Politik?

Com Hannah Arendt, o regresso à filosofia política tenta conciliar o existencialismo com certo vitalismo romântico, onde a política aparece como a arte que ensina aos homens a produzir o que é grandioso e radiante. A sua tese central é a consideração do consentimento como a base da autoridade e da liberdade como a essência da política. Defende que o sentido da política é a liberdade. Assim, o sentido da política, e não o seu fim, consiste na circunstância dos homens livres, para além da violência, do constrangimento e do domínio, terem entre si relações de iguais e não serem chamados a comandar e a obedecer senão quando pressionados pela coacção, isto é, em tempo de guerra. A política consiste assim em todos os assuntos deverem ser regidos pela discussão e pela persuasão mútua. Neste sentido, refere que a política nasce no espaço-que-está-entre-os-homens, num espaço intermediário, onde se desenrolam todos os negócios humanos, nesse espaço entre os homens que constitui o mundo. O sentido da política é a liberdade, no tal milagre da liberdade que quer dizer espontaneidade, isto é, o facto de cada homem poder ser um taumaturgo, poder começar uma série a partir de si mesmo, poder desencadear um processo a partir de si mesmo. Assim, Arendt observa que o chefe político na Grécia era traduzido pela palavra archein que tanto queria dizer comandar como começar, isto é, aquele que é capaz de começar qualquer coisa, enquanto prattein significava o facto de conduzir ao seu termo uma coisa começada, no mesmo sentido da expressão latina agere o pôr qualquer coisa em movimento, isto é, desencadear um processo.

 

 

 

 

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 23-04-2009