1997

O ano Valle e Azevedo em tempo de pensamento único e de referendos

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

1997

 

Questão do aborto António Guterres, falando a título pessoal, declara-se contrário à liberalização do chamado aborto, ou, melhor dizendo, da interrupção voluntária da gravidez (15 de Fevereiro de 1997). Projecto é derrotado na Assembleia da República por um voto no dia 20

Revisão constitucional – O deputado do PS Vital Moreira demite-se de presidente da Comissão de Revisão Constitucional (28 de Fevereiro de 1997). Aprovada a quarta revisão da Constituição, depois de acordo entre o PS e o PS (4 de Setembro).

Manifestação de polícias a favor da criação de um sindicato. Alguns manifestantes chamam aldrabão e cobarde ao ministro Alberto Costa e são alvo de processos disciplinares (21 de Abril de 1997). O ministro, um ex-militante comunista, também há-de dizer: esta não é a minha polícia.

 

Remodelações – Anunciada remodelação do governo. António Costa passa a ministro dos assuntos parlamentares (23 de Novembro). Jorge Coelhoö na administração interna. Pina Moura na economia. Veiga Simão na defesa nacional. Ferro Rodrigues passa a acumular o emprego. José Sócrates torna-se ministro adjunto do primeiro-ministro. Saem, além de António Vitorino, Maria João Rodrigues, Augusto Mateus e Alberto Costa. Demissão de António Vitorino, acusado de irregularidades fiscais na aquisição de um imóvel (8 de Novembro de 1997)

Eleições autárquicas (14 de Dezembro). Comunistas afastados de várias autarquias. Socialista Fernando Gomes mantém-se no Porto e em Lisboa, João Soares vence Ferreira do Amaral, mas o PSD conquista as câmaras de Gaia, com Luís Filipe Meneses, e da Figueira da Foz, com Pedro Santana Lopes que, entretanto, abandonara a presidência do Sporting Clube de Portugal e decide fazer um investimento autárquico no centro do país, a fim de pôr a Figueira no mapa, o que consegue através de uma dinâmica e mediática gestão que implica deslocações constantes à capital, onde mantém uma colaboração televisiva como comentador futebolístico, em representação do Sporting Clube de Portugal.

Vale e Azevedo é eleito presidente do principal clube de futebol português, o Sport Lisboa e Benfica, através de uma caricatura de campanha eleitoral populista que promete cumprir o sonho frustrado de seis milhões de benfiquistas que anseiam que a equipa volte a jogar à Benfica (31 de Outubro de 1997). O novo dirigente máximo das águias tinha sido, enquanto jovem, colaborador político de Pinto Balsemão e apresenta-se como um vitorioso advogado de negócios, especializado em engenharia financeira e em economia internacional de off shore, sendo dono de um discurso mobilizador do Lumproletariat.

É inaugurado o Centro Comercial Colombo em Lisboa, integrado no grupo Sonae, de Belmiro de Azevedo, considerado o maior estabelecimento do género da Península Ibérica (15 de Setembro). Massas enormes de portugueses, em regime de fim-de-semana, marcham de automóvel, autocarro ou metropolitano, para viverem a emoção inaugural da nova catedral de consumo. A cerimónia conta com a presença da veneranda figura do chefe de Estado a que chegámos, do número dois do governo que escolhemos e do número dois da câmara da maior cidade do país. A recebê-los, a todos, o máximo representante de um dos principais grupos económicos portugueses. O grande iniciador da era dos hipermercados ditos continentes, decide agora desbravar avenidas lusíadas e mobilizar para o consumo símbolos das navegações e das descobertas, dando emprego a antigos ministros e à fina flor da intelectualidade lusitana. No Colombo, esse progresso a que temos direito, a própria guerra colonial é vendida a fascículos. Já Álvaro Cunhal, o indiscutido passador de autênticos certificados de antifascismo, cansado de tanto partir os dentes à reacção, depois de ter perdido os respectivos paraísos terrestres, ditos sol da terra, decide continuar na procura da utopia, escrevendo romances sobre o respectivo tempo de clandestinidade. Finalmente, numa qualquer quintarola algarvia, restos do jet set lusitano, misturando condessas, catedráticos, viúvas de patos bravos, cabeleireiros, cabeleiras e decoradoras, fazem uma festa com muito golfe, o velho desporto, agora popularizado, pela divinal imagem de um comissário europeu, de origem portuguesa.

 

& Ortigão, Ramalho (Farpas, VI): 140, 141. Concluímos as provas de agregação em 24 de Abril de 1997 e pouco depois voltávamos a ensinar em Macau (Junho) e no Institut d’Études Politiques da Université Robert Schuman de Estrasburgo, no âmbito de um DEA de história do projecto europeu, tendo publicado Le Portugal et l’Union Européenne, in Revue d’Allemagne et des Pays de Langue Allemande, Tomo 29, nº 2, Abril-Junho de 1997, pp. 303 ss. Publicámos também O Jusnaturalismo Católico dos Séculos XVI e XVII e as Raízes da Democracia, in Luís de Molina Regressa a Évora. Actas das Jornadas. Évora, 13/ 14 de Junho de 1997, pp. 51-73.

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