2000

Revolução global, pensamento único e novo milénio sem fim da história

 

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Citações A revelação do terceiro segredo de Fátima
Nova presidência portuguesa da União Europeia
Segunda visita de João Paulo II a Portugal
Eleições regionais, com vitória do PS nos Açores
  

A União Europeia é, acima de tudo, uma comunidade de valores. Pôr em causa os princípios do humanismo e do respeito da dignidade humana levaria a pôr em causa a razão de ser da própria União Europeia

(Jacques Chirac, em 19 de Fevereiro de 2000)

 

 

O último ano do milénio – Segunda cimeira dos reformadores em Berlim, os chamados modernizadores da terceira-via, com Bill Clinton presente, onde os participantes se comprometem no controlo da globalização e prometem uma governação de progresso (2 e 3 de Junho). Há manifestações anti-mundialização em Washington durante a reunião da Assembleia-geral do FMI (16 e 17 de Abril) e reúne-se a Assembleia-Geral do Milénio da ONU (06 de Agosto). Cientistas norte-americanos descodificam os genes de três cromossomas humanos (13 de Abril), realizam-se os Jogos Olímpicos de Sydney (15 de Setembro a 1 de Outubro) e sucede nova presidência portuguesa da União Europeia (de 1 de Janeiro a 30 de Junho). O Conselho Europeu de Nice assina a carta dos direitos fundamentais e aprova tímida reforma das instituições comunitárias (7 a 11 de Dezembro), sendo marcada nova conferência intergovernamental para 2004. Realiza-se em Lisboa um Conselho Europeu extraordinário, para adoptar decisões sobre uma nova estratégia da União de reforço do emprego, das reformas económicas e da coesão social, enquanto partes integrantes duma economia assente no conhecimento (23 e 24 de Março) e há também a reunião ordinária do mesmo Conselho Europeu em Santa Maria da Feira, onde são adoptadas as Orientações Gerais das Políticas Económicas dos Estados-Membros e da Comunidade para o ano 2000 e uma Estratégia Comum para a Região Mediterrânica.

Revolução global – O barril de ódio do Médio Oriente, se ameaça o preço do barril de petróleo, ameaça ainda mais o entusiasmo gnóstico da globalização pregada pelos adeptos do fim da história. Face a este regresso a guerras santas, teocracias e genocídios, importa relativizar os males portugueses.Porque, apesar da música de Vangelis, os Guterres, Clinton, Blair, Schroder, Jospin, Chirac e Prodi têm todos o mesmo sorriso postiçamente plastificado do videopoder. São moda que há-de passar de moda. Vive-se, com efeito, um tempo de revolução global, aliás, a primeira revolução global da história da humanidade. Onde o global não é necessariamente a restrita globalização económica e financeira do chamado pensamento único, mas um sentimento de planeta unidimensional, provocado pela existência de ameaças globais que roubaram aos campo da profecia e da poesia os sonhos da sociedade do género humano, essa civitas maxima, onde todos podemos ser cidadãos do mundo. A ameaça já não vem apenas de outras entidades políticas diferentes da nossa, de um inimicus idêntico, mas daquelas ameaças que ameaçam realmente todos os homens, desde o risco tecnológico maior à fome; da doença provocada por vírus que não conhecem fronteiras às questões da segurança; dos problemas do ambiente às próprias tolices de um conceito de desenvolvimento quantitativo que esqueceu a entropia. Para além das organizações internacionais, marcadas pelo inter-estadual dos Estados a que chegámos, há também sinais e sementes de integração internacional, com a criação de novos pólos de poder supra-estaduais, de novas redes para onde os indivíduos transferem expectativas e lealdades, gerando uma pluralidade de pertenças, uma constelação de massas de actividade que só uma perspectiva pluralista do político pode contemplar. Repetindo Kant, poderemos dizer que o mundo exige o acordo da política com a moral, o que só é possível se recusarmos esses herdeiros da monarquia universal que se escondem sob os diáfanos mantos do pensamento único. Eles continuam a ser o despotismo sem alma, que, depois de ter aniquilado os germes do bem, acaba sempre por conduzir à anarquia, pelo que as leis públicas de uma liga de povos crescerão sempre e abraçarão finalmente todos os povos da terra

 

Carta dos Direitos Fundamentais

À margem do Conselho Europeu de Nice, os presidentes do Parlamento Europeu, do Conselho Europeu e da Comissão proclamam solenemente a Carta dos Direitos Fundamentais da União Europeia (7 de Dezembro)O Conselho confirma o desejo de que seja dada à Carta dos Direitos Fundamentais, proclamada conjuntamente pelo Conselho da UE, pelo Parlamento Europeu e pela Comissão, a mais vasta divulgação possível junto dos cidadãos da União. Congratula-se com a intensificação das negociações de adesão com os países candidatos e aprecia os esforços desenvolvidos por esses países para criar as condições para a adopção, implementação e aplicação efectiva do acervo; acolhe favoravelmente os progressos realizados na implementação da estratégia de pré-adesão para a Turquia. O Conselho também debateu a política europeia de segurança e defesa, aprovou a Agenda Social Europeia, debateu a inovação e o conhecimento na Europa, a coordenação das políticas económicas, a saúde e segurança dos consumidores, a segurança marítima, o ambiente, os serviços de interesse geral, a segurança dos aprovisionamentos em determinados produtos, a liberdade, segurança e justiça, a cultura, as regiões ultraperiféricas e as relações externas. A Conferência Intergovernamental encerrou com um acordo político relativo ao Tratado de Nice (7 a 09 de Dezembro)

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

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