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  Anuário de 1954

1954

Catarina Eufémia, defluxo revolucionário, Satyagrahis e anexação de Dadrá e Nagar-Aveli

De Dien Bien Phu à ascensão de Nasser

Acordos de Genebra sobre a Paz na Indochina

França rejeita a CED

Surge a Eurovisão

Começa a guerra de Argel

Surge a UEO

Da denúncia do tecnicismo ao princípio esperança.

O recuo da Europa.

(Ver Tradição e Revolução, vol. II)

Ver Cosmopolis

 

Causa Republicana

Sociedade Portuguesa de Escritores

Greves em Fevereiro e Março

Morte de Catarina Eufémia

Conflito latente entre Craveiro Lopes e Salazar

Confronto entre Salazar e D. Duarte Nuno.

Encerrada a Colónia Penal do Tarrafal

Remodelações em 2 de Abril e 14 de Agosto

 

O recuo da Europa – A Assembleia Nacional, na sequência de um debate sobre a matéria europeia, apenas aprovara, em 27-11-1953, uma vaga moção favorável à construção da Europa Unida, o que levou a intensas pressões norte-americanas e britânicas, no sentido da ratificação, principalmente durante da Conferência dos Três Grandes, nas Bermudas (4 a 8-12-1953). O próprio Fuster Dulles, numa conferência de imprensa realizada em Paris (14-12-1953) chegou mesmo a proclamar que os Estados Unidos teriam que rever a respectiva política externa se a França não ratificasse a CED, dizendo tratar-se de um reexame trágico e fundamental. Depois da rejeição da CED, eis que, em sinal de protesto, Jean Monnet, em 9-11, anuncia não pedir a renovação do seu mandato como presidente da Alta Autoridade da CECA, cargo que exercia desde 1952, num ano em que também falece um dos pais-fundadores da Europa, o italiano Alcide de Gasperi. Contudo, os sinais de Paris eram pouco animadores, como o manifestou a turbulenta eleição do Presidente da República, René Coty (23-12-1953). Tudo se precipita com a derrota francesa na batalha de Dien Bien Phu (7 de Maio) e com o início da Conferência de Genebra sobre a paz na Indochina (26 de Abril). A partir de então o Vietname do Norte passa a ser denominado por Ho Chi Min e pelo seu partido comunista, o Partido dos Trabalhadores Vietnamitas, oriundo dos vietminhs de 1941, extinto em 1941 e reconstruído em 1951.

União Indiana proíbe todas as exportações para Goa, Damão e Diu. Destaque também para o movimento dos Satyagrahis em Goa. Salazar, através da Emissora Nacional, faz um discurso sobre a questão (12 de Abril). Recebe goeses residentes em Lisboa e faz novo discurso (27 de Abril). União Indiana ocupa os enclaves de Dadrá e Nagar Aveli (22 de Julho). Em Lisboa há várias cerimónias de romagem ao túmulo de Vasco da Gama, bem como uma manifestação na Praça do Município. Craveiro Lopes dirige-se ao país através da Emissora Nacional. Governo britânico informa Lisboa que não intervirá militarmente em caso de conflito de Portugal com a União Indiana (5 de Agosto). Nova comunicação de Salazar, através da Emissora Nacional (10 de Agosto). Prisão de vários dirigentes do MND, entre os quais Ruy Luís Gomes, que serão julgados pelo Tribunal Plenário do Porto, por crime de traição à pátria. Tinham defendido a necessidade do governo entabular negociações com a União Indiana (19 de Agosto). Salazar faz mais uma comunicação à Assembleia Nacional (30 de Novembro).

 

Questão colonial Aprovado o Estatuto dos Indígenas Portugueses das Províncias da Guiné, Angola e Moçambique (20 de Abril). A população é dividida em três grupos: os brancos, os assimilados e os indígenas. Estabelecida a natureza provisória do estatuto, na senda da revisão constitucional de 1951 que revogara o Acto Colonial. Assinado acordo luso-britânico sobre as fronteiras de Moçambique (18 de Novembro)

 

Questão angolana – Agostinho Neto, como militante do MUD Juvenil, participa em Viena no I Encontro da Juventude Rural. Passa por Paris, onde se encontra com Marcelino dos Santos e Mário Pinto de Andrade. Fundada em Léopoldville, capital do Congo Belga, a União dos Povos do Norte de Angola, sob a direcção de Holden Robertoö. A organização vai dar origem à UPA.

 

Encerrada a Colónia Penal do Tarrafal. O último preso que ainda está detido, é o comunista Francisco Miguel, conenado em 1948 (26 de Janeiro)

 

Remodelações – Em 2 de Abril: Arantes de Oliveira, novo ministro das obras públicas. Em 14 de Agosto: Antunes Varela no ministério da justiça; Almeida Fernandes no exército.

Comunistas – Cunhal define o ano como momento de refluxo revolucionário, na altura em que o PCP tenta desmantelar uma fracção de direita, com João Rodrigues e Cândida Ventura. De Fevereiro a Março surgem várias greves de operários têxteis no norte, nomeadamente em Riba d’Ave e Vila do Conde. Inserem-se na luta desencadeada pelo PCP contra a chamada campanha da produtividade. Recomeça a comemoração do Dia do Trabalhador, com manifestações em várias localidades (1 de Maio). Morte de Catarina Eufémia no Baleizão. Terá sido assassinada pelo tenente Carrajola da GNR (19 de Maio). Em Outubro, Joaquim Gomes e Pedro Soares evadem-se da cadeia do Porto.

Oposição – Vários oposicionistas subscrevem, em requerimento dirigido ao governador civil de Lisboa, o pedido de aprovação dos estatutos de uma Liga Cívica (15 de Março).

Em Abril, começa a circular o jornal clandestino Moreano (sigla de Movimento de Resistência Antitotalitária, dito de militares e para militares)  que Henrique Galvão edita a partir da cadeia onde está detido. Colabora também com o jornal brasileiro Anhembi que repete os panfletos. Só muito depois é que a polícia detecta que o jornal é feito na Penitenciária de Lisboa, através de um copiógrafo, emitindo-se cerca de 500 exemplares de cada edição. Depois de busca, encontram-se outras edições de livros de Galvão.

Oposicionistas do Porto, liderados por António Macedo, requerem ao Governador Civil do Porto autorização para a constituição no distrito de um Centro Eleitoral Democrático (5 de Julho).

Criada uma Grande Comissão Nacional para a organização da Causa Republicana, cuja constituição é indeferida em Junho de 1955 por despacho do ministro do interior.

Reunião na Casa do Alentejo, visando a constituição daquilo que, em 1956, vai formalizar-se como a Sociedade Portuguesa de Escritores (6 de Maio).

Conflito latente entre Craveiro Lopes e Salazar. Marcello Caetano ao lado do primeiro (Setembro). O ambiente é bem expresso por oacasião da visita do presidente grego marechal Papagos em Outubro, contando-se que os papagos vieram visitar os bempagos à custa dos malpagos.

Confronto entre Salazar e D. Duarte Nuno sobre o destino dos bens da Casa de Bragança, no ano em que Franco chega a acordo com D. Juan de Bourbon sobre a educação do príncipe Juan Carlos, visando a restauração da monarquia em Madrid. No princípio do ano há também um conflito com Amílcar Passos e Sousa, lugar-tenente de D. Duarte, que vê a censura cortar mensagem que enviou às comemorações do terceiro aniversário de O Debate.