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  Anuário 1968

 

1968

 

A queda de Salazar e a Primavera de Marcello Caetano, ou a impossível renovação na continuidade

Maio de Paris e Primavera de Praga

Assassinatos de Robert Kennedy e Martin Luther King 

 Eleição de Richard Nixon

Homens em tempos sombrios e teologia da libertação

(Ver Tradição e Revolução, vol. II)

Ver Cosmopolis

 

 

 

Remodelação em 19 de Agosto

 

Governo nº 103 de Marcello Caetano

●Remodelação Em 19 de Agosto: Gonçalves Rapazoteö no interior; José Hermano Saraiva, na educação; João Dias Rosas, nas finanças; Bettencourt Rodrigues no exército; Pereira Crespo na marinha; Jesus dos Santos na saúde. Saraiva e Rosas são considerados marcelistas e Crespo é maçon. Como subsecretário de Estado da educação, Elmano Alves e como CEMGFA, Venâncio Deslandes. Os últimos conselheiros da remodelação foram Mário de Figueiredo, Luís Supico Pinto, Soares da Fonseca e Castro Fernandes que tiveram uma reunião como o supremo seleccionador em 10 de Agosto.

●Em 28 de Agosto: Canto Moniz nas comunicações, o último ministro nomeado por Salazar.

Salazar socialista – Nacionalização dos TLP, a companhia Telefones de Lisboa e do Porto (1 de Janeiro). Greve da Carris termina com agradecimento formal e público dos trabalhadores a Salazar, sendo a cerimónia transmitida pela televisão (Julho)

Guerra de África – Manifestações em Lisboa e no Porto contra a guerra colonial e a intervenção norte-americana no Vietname (Janeiro). Abertura de propostas para a execução de Cabora Bassa (12 de Março). António Spínola (1910-1996) toma posse como governador da Guiné (20 de Maio). Baltazar Rebelo de Sousa assume funções como governador de Moçambique (12 de Julho). Assembleia-Geral da ONU volta a criticar a política colonial portuguesa (Novembro).

Mário Soares é desterrado para S. Tomé por decisão do Conselho de Ministros (21 de Março). Acusam-no de ter servido de fonte para a revelação do escândalo do Ballet Rose, através do jornalista do Sunday Telegraph, Richard O'Brien. A infâmia envolve Correia de Oliveira. Outro dos aliados de Soares é a jornalista do New York Times, Marvine Howe, em Lisboa desde 1967. Criada uma Comissão de Auxílio ao líder socialista (3 de Julho) que, depois, é autorizado a regressar a Lisboa (Novembro). É governador do território Silva Sebastião e, num artigo publicado no semanário Agora, Jaime Nogueira Pinto há-de acusar Soares de aí ser colaborador do grupo CUF.

Turbulências domésticas – PCP apoia a invasão de Praga pelas tropas do Pacto de Varsóvia (23 de Agosto) Padre Felicidade Alves é preso e afastado de pároco de Belém (Novembro). Greve de 5 000 pescadores de Matosinhos (Abril). Em Maio é encerrada a Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa e há greves dos conserveiros. Hermínio da Palma Inácio entra clandestinamente em Portugal, visando uma acção de ocupação da cidade da Covilhã que sai frustrada, dado que o grupo armado é detido em Moncorvo (18 de Agosto).

●Franco Nogueira tem que substituir o embaixador de Portugal em Madrid, Pinto Coelho, por causa do divórcio deste. Há vários candidatos à substituição de tal personalidade, como Adriano Moreira, Kaúlza de Arriaga, Luís da Câmara Pina e Daniel Barbosa. Prefere-se a solução corporativa de Manuel Rocheta.

Salazar sofre um acidente doméstico, quando cai de uma cadeira e bate com a cabeça... Está no forte de Santo António da Barra, no Estoril (8 de Julho). Segue-se a tomada de posse do seu último governo, já totalmente inspirado no conselho de Luís Supico Pinto (19 de Agosto), antes de surgirem os primeiros sinais de desconexão mental do presidente do conselho que passa a sofrer de doença incapacitante (4 de Setembro). Operado de urgência ao cérebro por Vasconcelos Marques (6 de Setembro), é, depois, acometido de trombose (16 de Setembro). É neste contexto que surge a inevitável reunião do Conselho de Estado (17 de Setembro), onde se discute a substituição do omnipotente cônsul, sendo consensual a opinião sobre a nomeação imediata de um novo Presidente do Conselho.

Os delfins. A maioria dos dignitários do regime contactados apoia Marcello Caetano, embora também tenham indicado Franco Nogueira e Antunes Varela. Fala-se também em Adriano Moreira, recém-casado e fora do país, mas este não tem o apoio da hierarquia das forças armadas nem da Igreja Católica e são vivas as suas disputas pessoais com Marcello Caetano e Franco Nogueira, apesar de certa linguagem de justificação do próprio lhe dar uma aparente ontologia política, embora os bem informados nas intimidades do regime conheçam os precisos contornos das divergências. Tomás nas suas memórias diz que teria preferido Pedro Teotónio Pereira, se este não estivesse doente. Chega também a aventar-se a hipótese de António Pinto Barbosa.

Governo nº 103 de Marcello Caetano (2038 dias, desde 27 de Setembro). Renovação na continuidade. Ficam dez ministros do último governo de Salazar. Entre os novos titulares: Alfredo de Queirós Ribeiro Vaz Pinto (1905-1976), como ministro de Estado; Horácio Sá Viana Rebelo (1910-1995), na defesa e Rui Sanches, nas obras públicas. Marcello considerando-se um homem comum, que vem depois de um homem de génio, salienta ter à sua frente ciclópicas tarefas, que, aliás, acaba por não conseguir vencer.

Uma primavera sem degelo – Afonso Marchueta toma posse como governador civil de Lisboa (10 de Dezembro). Segue-se a nova Comissão Executiva da União Nacional, a XV, presidida por José Guilherme de Melo e Castro e tendo como vogais Domingos Braga da Cruz, Hermes dos Santos e João Pedro Neves Clara (19 de Dezembro).

Universidades ultramarinas. Conselho de Ministros converte em Universidades os Estudos Gerais de Angola e Moçambique (3 de Dezembro).

Morre em Caxias o oposicionista Daniel Teixeira (20 de Outubro) o que incomoda particularmente Marcello Caetano, amigo do pai do falecido.

A nova extrema-esquerda – Surge O Comunista, órgão de uma dissidência do Comité Marxista-Leninista Português, depois da chamada segunda conferência da organização (Dezembro). O jornal é dirigido por um grupo onde milita Hélder Costa, publicando-se até Julho de 1972. Tem ligações aos maoístas do Porto, liderados por Pedro Baptista e José Pacheco Pereira.

José Pacheco Pereira assume-se, então, como agitador cultural, tentando mesmo boicotar cursos realizados pela Cooperativa Confronto de Francisco Sá Carneiro, onde participa César Oliveira (1941-1997), acusado de tentar difundir o ideário anarco-sindicalista. O futuro defensor e propagandista do cavaquismo quer, então, criar um verdadeiro partido comunista, fielmente marxista-leninista. Há-de qualificar tal atitude como luta pela liberdade, sendo aplaudido unanimemente por toda a grande burguesia devorista que sempre adorou este jogo de fingimentos e cambalhotas que, apesar de radicalmente verboso, não afecta os respectivos interesses, dado que até lhe pede subsídios e avenças.