1988

O renascimento do cosmopolitismo.
Da eleição de Bush à retirada soviética do Afeganistão

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Da eleição de Bush à retirada soviética do Afeganistão. Quando entra em vigor a liberdade total de capitais na CEE e começa a retirada dos soviéticos do Afeganistão (15 de Maio), François Mitterrand, apesar da existência de um governo de direita, consegue ser reeleito (8 de Maio), enquanto nos Estados Unidos também é escolhido um novo presidente, George Bush (8 de Novembro), o tal que Alberto João Jardim há-se qualificar como perigoso maçon, líder de um grupo que pretende assaltar o negócio das bananas na Madeira. No ano dos Jogos Olímpicos de Seul, surge o cessar-fogo entre o Irão e o Iraque (8 de Agosto), com Portugal e Espanha a serem também admitidos na UEO (14 de Novembro). A perestroika continua a produzir os seus frutos, com destaque para os acordos de Paz para o Afeganistão, assinados em Genebra (14 de Abril) e a consequente começo da retirada militar soviética (15 de Maio). No plano soviético, depois de ser anunciada a instauração de um Estado Socialista de Direito na URSS (23 de Maio), surge uma reforma constitucional, com a qual criado o Congresso dos Deputados do Povo (01 de Dezembro).

Ascensão e queda das grandes potências (Paul Kennedy). Entretanto, realiza-se a última cimeira entre Reagan e Gorbatchev, agora em Moscovo (29 de Maio), quando se analisa the rise and fall of the great powers (Paul Kennedy), a révolution des droits de l’homme (Marcel Gauchet), em que alguns prevêem, talvez erradamente, a decadência da superpotência norte-americana. Mas continua a falar-se na sociedade de massa, com o declínio do individualismo e o regresso das tribos (Maffesoli), enquanto Pierre Legendre lança Le Désir Politique de Dieu.

 
1988

Da geração Constâncio ao regresso de Freitas ao CDS

Da eleição de Bush à retirada soviética do Afeganistão ä Reeleição de Mitterrand

Ascensão e queda das grandes potências

A moda anti-ideológica – Entre os panglóssicos situacionistas e os eternos reviralhistas, esse que são sempre do contra, há muitos portugueses que consideram que o situacionismo se assemelha a um gigante de pés de barro assente nas areias movediças de um deserto de ideias. Porque é tão maquiavélico não olhar a meios para se atingirem os fins, como divinizar os meios sem procurar saber-se de fins, transformando os meios nos próprios fins. Ora, não há dúvida que a ascensão de Cavaco Silva ao poder maioritário exprimiu uma espécie de revolta popular contra os excessos ideológicos da revolução e da pós-revolução. Também não há dúvida que o presidente do PSD continua a ter a simpatia de uma maioria emocional de portugueses cansados de promessas por cumprir. Só que o excesso de anti-ideologia acaba por ser tão nefasto quanto o havia sido o excesso de ideologismo esquerdista. A nova moda anti-ideológica traz consigo uma onda de ideologias inequivocamente ultrapassadas, desde o positivismo utilitarista do século XIX, que até tinha a ordem e o progresso como divisa, à ideologia tecnocrática deste século. Do mesmo modo, quando se defende a ordem pela ordem, tanto se sofre daquilo que Fernando Pessoa diagnosticou como o preconceito da ordem, como pode estar a servir-se uma ideologia ordinalista. Tal situacionismo, que apenas gosta de qualificar-se como do centro, se tem o apoio de muitas antigas direitas e de algumas antigas e modernas esquerdas, apenas está à espera de teorizadores que elevem à categoria de sistema a aparente fragmentação dos respectivos sinais. Pensemos por exemplo no constante apelo à aurea mediocritas, procedente do marcelismo e que propulsionou o soarismo e o socialismo de consumo. Com o cavaquismo, em vez do anterior laxismo, surge, agora, uma imagem de firmeza e de rigor, sobressaindo, no entanto, o mesmo apelo aos apetites do homem comum, sem que se procure uma adequada pedagogia cívica, tendo em vista fazer elevar as emoções da média sociológica à grandeza de uma acção de Estado. Surgem sucessivas adesões situacionistas assumidas pelos inevitáveis gestores públicos ou publicamente nomeados. E os mesmos que foram quadros dos grupos económicos nacionalizados e leais colaboradores das posteriores empresas públicas, passam, agora, a campeões das privatizações, ocupando algumas áreas fundamentais da governação. Mantém-se, portanto, incólume certa mentalidade banco-burocrática que, aliada ao mercenarismo de alguns fazedores de opinião, impede que a democracia formal se transforme numa autêntica democracia de cidadãos, civicamente enraizada. Com efeito, muito do que em Portugal parece ser novidade e modernização não passa, em muitos casos, de uma colonização cultural de ideologias estranhas e ultrapassadas. Reflexo de certos tiques estrangeirados a que não são alheias as posições dominantes ocupadas por pós-graduados e doutorados em universidades anglo-saxónicas, principalmente nas áreas da economia e da engenharia. Se calhar, teria sido útil desviarmos algumas das verbas do Fundo Social Europeu para acções de formação da nova classe política, criando-se uma espécie de cursos de portugalidade acelerada, onde, à mistura com certos livros de ensinança de príncipes, se pudessem transmitir os conhecimentos de alguns clássicos dos nosso modo de estar no mundo. Seria uma boa maneira de se comemorar o Ano Europeu do Ambiente, salvaguardando a nossa plurissecular autonomia política face aos perigos do iluminismo mercantilista e de outras formas de poluição estrangeirada.

A geração Constâncio – Em 21 de Fevereiro de 1988, Vítor Constâncio reforça a sua posição no PS, vencendo uma lista dita de históricos, liderada por Maldonado Gonelha e com apoio de maçons ilustres e discretos. De certa maneira, o velho PS, ainda marcado pelo espírito dos pais-fundadores, passa a assumir um projecto inter-geracional, que tem o sonho de se constituir como pólo aglutinador de toda a esquerda democrática portuguesa. A geração do dr. Constâncio e do engenheiro Guterres não tem quase nada a ver com a oligarquia maçónico-jacobina que costuma comemorar o 5 de Outubro e o 31 de Janeiro nos cemitérios habituais, segundo a velha liturgia da épica republicana. Os novos gestores do PS não são também dominados pelos tradicionais advogados do reviralho que iam aos congressos republicanos de Aveiro e eram os nomes crónicos nas listas de oposição ao regime salazarista. Têm também pouco do romantismo antifascista dos poetas da resistência e quase nada da pureza ideológica dos antigos marxistas-leninistas convertidos ao socialismo democrático, pela via do anti-estalinismo. É uma geração filha do catolicismo universitário dos anos sessenta, que continua a ir à missa e não tem o complexo laicista dos antigos seminaristas que depois aderiram ao Grande Oriente. Na sua grande maioria não foram presos pela PIDE, não conheceram os desterros de África nem comeram o pão amargo dos exílios. Nasceram para a política no crepúsculo do antigo regime, podiam ter sido democratas-cristão de esquerda, mas despertaram intelectualmente para o socialismo quando era moda ser anti-capitalista, dialogar com o marxismo e assumir as luzes do progresso. Entretanto, quando acabaram os cursos, vestiram o disfarce dos tecnocratas e até conseguiram emprego no Estado, na banca e nas assessorias dos grandes grupos económicos de então. Alguns desempenharam lugares nos gabinetes dos secretários de Estado tecnocratas de Marcello Caetano, outros dialogaram com os deputados que, então, eram ditos liberais, principalmente através da SEDES. Muitos foram militantes dos grupos organizados pelo espírito da engenheira Pintasilgo.


 

 

 

1988
 

Alexis Léger, em 1930

Qualquer possibilidade de progresso na via da união económica sendo rigorosamente determinada pela questão da segurança e estando esta mesma questão intimamente ligada à do progresso realizável na via da união política, é sobre o plano político que deverá ser primacialmente conduzido o esforço condutor tendente a dar à Europa a sua estrutura orgânica.

Uma ordem inversa não seria apenas vã, apareceria aos olhos das nações mais fracas como susceptível de as expor, sem garantia nem compensação, ao risco de uma dominação política podendo resultar de uma dominação industrial dos Estados mais fortemente organizados

Gorbatchev

Façam guerra aos burocratas, mas tenham em mente que a renovação revolucionária não resultará sem um corpo de quadros que tenha aceite as ideias da perestroika ou se tenha desenvolvido e estabelecido no processo de perestroika (Setembro de 1988).

Richard Higgot já se interroga sobre New Directions in International Relations? Australian Perspectives. Além desta obra: Philippe Braillard, Les Relations Internationales; Joseph Frankel, International Relations in a Changing World; M. Hoffman, Cosmopolitanism and Normative International Theory; F. S. Pearson, International Relations; Charles Zorgbibe, Dictionnaire de Politique International.

Da eleição de Bush à retirada soviética do Afeganistão

Quando entra em vigor a liberdade total de capitais na CEE e começa a retirada dos soviéticos do Afeganistão (15 de Maio), François Mitterrand, apesar da existência de um governo de direita, consegue ser reeleito (8 de Maio), enquanto nos Estados Unidos também é escolhido um novo presidente, George Bush (8 de Novembro), o tal que Alberto João Jardim há-se qualificar como perigoso maçon, líder de um grupo que pretende assaltar o negócio das bananas na Madeira.

No ano dos Jogos Olímpicos de Seul, surge o cessar-fogo entre o Irão e o Iraque (8 de Agosto), com Portugal e Espanha a serem também admitidos na UEO (14 de Novembro). A perestroika continua a produzir os seus frutos, com destaque para os acordos de Paz para o Afeganistão, assinados em Genebra (14 de Abril) e a consequente começo da retirada militar soviética (15 de Maio). No plano soviético, depois de ser anunciada a instauração de um Estado Socialista de Direito na URSS (23 de Maio), surge uma reforma constitucional, com a qual criado o Congresso dos Deputados do Povo (01 de Dezembro).

Um tempo de muitas cimeiras e acordos de cessar-fogo

Uma franco-britânica (29 de Janeiro), três franco-alemãa (22 de Janeiro, 14 de Março e 3 de Novembro), uma franco-espanhola (19 de Março) e outra de superpotências entre Reagan e Gorbatchev (29 de Maio)

Acordos de não-guerra entre sandinistas e contras estabelecem cessar-fogo (24 de Março), de Paz para o Afeganistão em Genebra (14 de Abril), de retirada das tropas de Havana da África Austral (13 de Julho), de fim de guerra entre o Irão e o Iraque (8 de Agosto) e de não-silêncio entre Marrocos e a Polisario (30 de Agosto)

Realizar o Acto Único

O Conselho Europeu reúne-se em Bruxelas e chega a um acordo quanto ao conjunto das conclusões relativas ao objectivo "Realizar o Acto Único - uma nova fronteira para a Europa" (11 a 13 de Fevereiro de 1988)

A Comissão publica os resultados do estudo "Europa1992 - o desafio global", elaborado, a seu pedido, por um grupo de peritos independentes, a fim de avaliar as vantagens do mercado único (29 de Março de 1988)

Hanover

O Conselho Europeu reúne-se em Hanover: salienta a importância de que se revestem os aspectos sociais dos progressos efectuados com vista aos objectivos de 1992, exprime as suas preocupações quanto aos perigos que ameaçam o ambiente e confia a um comité as acções conducentes à união monetária; o Conselho decide, igualmente, renovar o mandato de Jacques Delors enquanto presidente da Comissão (27 e 28 de Junho de 1988)

Rodes

O Conselho Europeu reúne-se em Rodes. Consolida os progressos realizados com vista a1992, sublinhando a importância dos trabalhos no domínio da protecção do ambiente e do desenvolvimento da capacidade audiovisual da Europa (2 e 03 de Dezembro de 1988)

Norte de África

Na Tunísia, Ben Ali, transforma o Partido Socialista Destouriano no RCD- Rassemblement Constitucional Democrático.

 

 

©  José Adelino Maltez, História do Presente (2006)

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