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1990 |
Fim do comunismo e da ilusão terceiro-mundista, em tempos de pós-modernidade |
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Cosmopolis |
© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006 |
Fim do comunismo? Começa a primeira etapa da União Económica e Monetária, pela liberalização dos movimentos de capitais (1 de Julho) e conclui-se o processo de unificação alemã. Em Portugal, é publicado o tomo I do livro I de Das Kapital, de Karl Marx,
Crítica da Economia
Política, com uma rigorosa tradução de José Barata Moura, numa edição conjunta das Edições Avante e da Editorial Progresso de Moscovo. Por ironia do destino, a primeira versão directa de tal obra acontece no ano I do fim do comunismo, remetendo para o domínio da arqueologia filosófica,
aquilo que nunca precisou deste sustento para ser uma ideologia de sucesso. O ano de 1990 é, de facto, o ano da ascensão de Boris Ieltsine. Depois de em Janeiro ter surgido o movimento Rússia Democrática (Janeiro) e de, no dia 4 de Fevereiro, meio milhão de pessoas se manifestarem em Moscovo
a seu favor, decorrem as eleições na Federação da Rússia (4 de Março), não tardando que o mesmo Ieltsine venha a ser eleito presidente do repectivo Parlamento (20 de Maio), adquirindo a legitimidade democrática que faltava a Gorbatchev. Pouco depois de a mesma Federação se assumir como entidade
soberana (12 de Junho), eis que Ieltsine abandona formalmente o Partido Comunista da Rússia, na mesma altura em que o movimento Rússia Democrática se transforma no Partido Democrático da Federação Russa (21 de Junho). Entretanto, a Lituânia declara-se independente, sem reconhecimento
da URSS (11 de Março). No plano das relações entre as superpotências, se, em 30 de Maio, Bush e Gorbatchev assinam em Washington acordo de desarmamento químico e fazem mais uma cimeira em Helsínquia no dia 9 de Setembro, três dias depois, surge o Tratado de Moscovo sobre a reunificação alemã,
subscrito pelas quatro potências vencedoras da Segunda Guerra Mundial e pelas duas Alemanhas. E cinquenta anos depois, Moscovo reconhece finalmente a autoria do massacre de Katyn, onde foram chacinados 15 soldados e oficiais polacos, enquanto Carlos Carvalhas se torna adjunto de Álvaro Cunhal e o
ex-comunista Iliescu vence as eleições na Roménia e Lech Walesa é eleito presidente da Polónia.
O fim da ilusão terceiromundista e a quebra do mundo bipolar produzem também profundas alterações na política interna de vários países africanos. Na República da África do Sul, para além do apoio à independência da Namíbia (21 de Março), registe-se a libertação de Nelson Mandela (11 de
Fevereiro). Contudo, a vaga mais importante é o desaparecimento formal dos regimes de partido único que sucedem em catadupa: no Zaire (24 de Abril), na Costa do Marfim (3 de Maio), no Gabão (23 de Maio), no Congo (30 de Setembro), em Moçambique (2 de Novembro), nos Camarões (5 de Dezembro), em
Angola (10 de Dezembro) e na Zâmbia (17 de Dezembro), num flagrante aumento da quantidade das formais democracias pluralistas, mas a que não corresponde paralela consolidação qualitativa. Já na América Latina, vê-se Violeta Chamorro ser eleita Presidente da Nicarágua, com derrota dos sandinistas
(25 de Fevereiro). Na Ásia chega também o tempo da fusão do Iémen do Norte e do Iémene do Sul (22 de Maio). Contudo, nesta região acontece o primeiro desafio às esperanças de uma nova ordem mundial mais justa, quando, a 2 de Agosto, o Iraque de Sadam Hussein invade o Kuwait, situação imediatamente
condenada pela maioria da comunidade internacional, levando o Conselho de Segurança da ONU a autorizar uso da força contra o Iraque (29 de Novembro).
Pós-modernidade e despolitização – No plano das ideias, no ano da morte de Louis Althusser e de Michael Oakeshott, Nicholas Tenzer teme a
sociedade despolitizada, Anthony Giddens analisa as consequências da modernidade, Ernest B. Haas reconhece que knowledge is power e
Alvin Toffler proclama a existência de novos poderes, quando se pensa na invenção da Europa (Emmanuel Todd) sob o signo do declínio dos impérios (Bozzo) e se vai complexificando o chamado princípio da subsidiariedade. Vive-se cada vez mais uma turbulence in
world politics (James N. Rosenau) e a cosmopolis transforma-se na agenda escondida da modernidade (Stephen Toulmin). Entre nós, destaque para as dissertações de doutoramento de Políbio Valente de Almeida, Do Poder do Pequeno Estado e de António Ribeiro dos Santos, A Imagem do
Poder no Constitucionalismo Português, e para Amadeu Carvalho Homem, com A Propaganda Republicana (1870-1910). No ano em que são abolidas as taxas de televisão (8 de Fevereiro), Agustina Bessa Luís é nomeada directora do Teatro Nacional de D. Maria II, por influência de Pedro Santana
Lopes (12 de Novembro), é assinado projecto de acordo ortográfico (16 de Dezembro) e governo apresenta projecto de concurso para a atribuição de dois canais privados de televisão.
A tirania do status quo – Em Portugal continua a tirania do status quo. Com efeito, apesar de tantas promessas de mudança, proclamadas pelas utopias revolucionárias e pelos pragmatismos pós-revolucionários, Portugal não está a mudar substancialmente. Escavacam-se muitas fachadas,
mudam de nome muitas instituições, mas acabamos por regressar à fechatura do círculo da eterna revolução. Porque as revoluções são como os boomerangs: tentam alcançar a presa distante, mas, quando mal arremessados, acabam por voltar ao ponto de partida, podendo até ameaçar a cabeça do
lançador. Em Portugal, todos disseram querer mudar. O PS, por exemplo, disse que não havia liberdade sem pão, nem pão sem liberdade, mas acabou por ter que gerir a herança da loucura gonçalvista e foi obrigado a
meter o socialismo na gaveta. Ficou-se, felizmente, pela liberdade e atirou a igualdade para os impossíveis amanhãs. A Aliança Democrática foi outro sonho de mudança que acabou por saber a sol de pouca dura. Foi PSD mais CDS, mais PPM, mais independentes de direita,
mais a esquerda heterodoxa de Natália Correia, António Barreto e outros mais. Acabou usurpada pelo monopartidarismo da onda laranja e transformou-se, depois, no situacionismo cavaquista. Não admira que o homem comum português se assemelhe às lapas que vivem
agarradas aos rochedos da beira-mar e que dependem do oxigénio que o vaivém das marés lhes vai trazendo. Com efeito, depois de quarenta e oito anos de um certo viver habitualmente, em que se encasulou o regime derrubado em1974, a revolução que se lhe seguiu apenas levou
a que se reforçasse a tal tirania do status quo, agravando as anteriores tendências lapenses de quem gosta de mariscar. A lei das rendas do arquitecto Nuno Portas, que veio perpetuar o anterior congelamento republicano-salazarista das economias de guerra, transformou as casas arrendadas das
nossas cidades, vilas e aldeias em algo de comparável a agradáveis prisões domiciliárias. A lei do contrato de trabalho, por seu lado, volveu postos que deviam ser de trabalho em postos de vencimento, transformando o emprego em subemprego e gerando, paradoxalmente, os injustos contratos a
prazo, sem permitir promoções pelo mérito nem rejuvenescimento dos activos. O português, assim lapidizado, deixou de poder mudar de casa e de emprego e ficou até sem a alternativa da emigração, do salto para a Europa, com ou sem mala de cartão, ou da
partida para as áfricas e os os brasis dos bandeirantes e dos sertões, onde até os zés do telhado se podiam regenerar. Ficámos tão curtos de horizonte que, durante mais de uma década, até fomos rigorosamente tutelados por uma constituição
cheia de rígidas conquistas irreversíveis que tão-só beneficiaram os direitos adquiridos de certos grupos de uma determinada geração, mas não a dinâmica do futuro. Vendo passar ao largo os ventos da história do neo-liberalismo e da perestroika, contentamo-nos com a hipocrisia de
uma social-democracia que é liberal, de um centrismo que é da hard right e de uma esquerda revolucionária perfeitamente conservadora de uma forma política que nunca correspondeu ao conteúdo. E o país do PREC é, num ápice, dominado pela vaga do jet set e dos yuppies, onde falsos
aristocratas do antigamente passam a jogar ao bridge como os novos-ricos da especulação bolsista ou dos buracos dos subsídios estaduais.
Pós-comunistas, ortodoxos e maoístas
Fim do comunismo?
O fim da ilusão terceiromundista
Pós-modernidade e despolitização
1990
1990
Começa a primeira etapa da União Económica e Monetária, pela liberalização dos movimentos de capitais
Conclui-se o processo de unificação alemã
Bush e Gorbatchev assinam em Washington acordo de desarmamento químico e fazem mais uma cimeira em Helsínquia
Moscovo reconhece finalmente a autoria do massacre de Katyn
Ieltsine eleito presidente do Parlamento da Rússia
Lituânia declara-se independente
Iliescu vence as eleições na Roménia
Lech Walesa é eleito presidente da Polónia
Libertação de Nelson Mandela
Desaparecimento formal dos regimes de partido único em África
Violeta Chamorro eleita Presidente da Nicarágua
Fusão do Iémen do Norte e do Iémene do Sul
Iraque de Sadam Hussein invade o Kuwait
© José Adelino Maltez, História do Presente (2006)