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Entre o governo dos ordeiros e as revoltas radicais
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Maçonaria –
Francisco António de Campos toma posse como grão-mestre da Maçonaria do Sul,
cargo para que é eleito em finais de 1839 (19 de Janeiro). Ataques ao
situacionismo por parte de José Estevão nas páginas da Revolução de Setembro.
Diz que o uniforme de Bonfim, o chefe do governo, está cheio de nódoas,
impossíveis de eliminar por água de colónia. Com efeito, a subida ao poder
da dupla Rodrigo-Cabral irrita o grupo de J. A. Magalhães e A. Luís de Seabra,
que esperavam a ascensão às cadeiras governamentais. Mas Rodrigo apazigua esses
adversários, através de contactos com Manuel Gonçalves de Miranda e fazendo
promessas tanto aos dois, como a Joaquim António de Aguiar. Em Fevereiro, face à
recusa de Silva Carvalho, de tomar posse como Grande Administrador do Grande
Oriente Lusitano, há eleições para o cargo, cabendo a escolha em Joaquim António
de Magalhães. Fundado o Montepio dos Empregados Públicos, três anos
depois chamado Montepio Geral, de inspiração maçónica (19 de Março).
A teoria dos
ordeiros – Proferido o célebre discurso do Porto de Pireu, de Almeida
Garrett, onde, contra a tese de José Estêvão, se faz a defesa dos ordeiros,
contra os absolutistas e os anarquistas (8 de Fevereiro): ... a palavra é
eminentemente ordeira. Nós a declaramos, tal, nós a professamos e confessamos. A
palavra cooperar. Palavra ordeira, digo, palavra do centro, palavra altamente
parlamentar e liberal, tão equidistante do servilismo faccioso que em tudo
consente e em todos confia, como do acinte faccioso e desordeiro que a todos
suspeita e tudo impugna sem exame. Facciosos, sim; que tão faccioso é o vil que
se sujeita a tudo como a anarquista que nada quer. No meio destes dois extremos
estão os que cooperam; nesse meio estamos nós e queremos estar; porque nós
queremos cooperar na causa da pátria, e não queremos, nem para nós nem para
ninguém, o privilégio absurdo de seus operários exclusivos. É eminentemente
ordeira esta palavra cooperar; nela todo está simbolizado o sistema da ordem, a
doutrina, os princípios dos que muito se honram e comprazem nesse nome de
Ordeiros com que foram saudados por escárnio! Por mofa no-lo dão; nós
recebemo-lo como título insigne e nos gloriamos nele. Cooperar é a nossa palavra
sagrada; nós a defendemos e sustentamos; é o Verbo da Doutrina e da Ordem que
encarnou entre nós e que habitou connosco (Almeida Garrett).
Ordeiro é talher
na mesa do orçamento – José Estêvão vai responder em 13 de Fevereiro,
considerando os ordeiros, vindos da Revolução, como filhos bastardos de mãe
nobre e que estão no Pireu os que com uma carta de recomendação mercantil
assinada pela ordem, julgam converter o país em uma feitoria sua de poder,
salientando que foi a revolução que deu aos ordeiros talher na mesa do
orçamento.
A procura da
institucionalização das novas forças – Decretada a dissolução do Parlamento.
Invoca-se um conflito entre os deputados e o presidente das cortes, Guilherme
Henrique Pereira de Carvalho, depois bispo de Leiria (24 de Fevereiro).
Atribuídos poderes constituintes ao parlamento, visando alterar-se o carácter
electivo do Senado, para este se transformar numa espécie de Câmara dos Pares
(27 de Fevereiro).
Eleição nº 8 da Câmara dos Deputados e
do Senado (22 de Março). Vitória dos novos governamentais ordeiros,
contra os chamados radicais. Há uma maioria tendencialmente cartista. Os
governamentais só não conseguem vencer em Aveiro. A situação já é efectivamente
comandada por Rodrigo da Fonseca que usa muito da chamada galopinagem.
Virá a dizer que os deputados são como as casas: compradas depois de feitas
ficam mais baratas. O número de maçons quase se mantém: 45,5% de deputados e
49,2% de senadores. Mas, na véspera das eleições surge até uma ampla amnistia
para os miguelistas implicados na revolta das Marnotas, que a oposição logo
qualifica como pacto de sangue, insinuando a existência de uma combinação
secreta para votos nas listas do governo. Para além de uma maioria governamental
já substancialmente cartista, há duas oposições: a setembrista e a chamada
oposição cartista, com António Luís de Seabra, Oliveira Marreca e Vicente Ferrer
de Neto Paiva e a que também vai aderir Alexandre Herculano.
Pressão britânica
– Palmerston pressiona o governo português ameaçando com a ocupação de Goa e
Macau e, eventualmente, da Madeira, invocando o cumprimento do tratado sobre a
abolição do tráfico de escravos, bem como o pagamento dos auxílios militares
ingleses (desde a divisão auxiliar de Clinton de 1827 às despesas de Beresford e
Wellington). O embaixador britânico em Lisboa, Howard, suspende a execução da
ameaça, marcada para 15 de Maio, e o governo português envia Saldanha a Londres.
A oposição ataca o governo, considerando-o lacaio de Palmerston.
Conflito com
Espanha – Chega também um ultimato espanhol. Segundo tratado de 1835 tinha
sido estabelecido o princípio de livre navegação dos rios comuns, mas a sua
regulamentação caberia ao parlamento. Aí apresentada a questão, levantam-se
objecções e o governo tenta negociar com Madrid as alterações. Os espanhóis não
aceitam e ameaçam que os respectivos exércitos poderiam passar as fronteiras.
Consequências
internas da política externa –
Em 23 de Junho, o
Conde de Vila Real, que acumula a pasta dos estrangeiros desde 28 de Dezembro de
1839, é substituído por Rodrigo da Fonseca, apesar de em 12 de Março de 1841 ter
sido nomeado para o cargo o barão de Torre de Moncorvo, que acaba por não
exercê-lo, continuando Rodrigo em tais funções. Vila Real tem um incidente
parlamentar com António Luís de Seabra, numa acriançada violência,
acusando-o de desvio de pratas em Alcobaça quando este é deputado pelo mesmo
lugar. Mas Seabra nunca tinha tido tal função e o ministro tem de demitir-se.
Maçonaria
– Na loja
Fortaleza do Grande Oriente Lusitano, sob a liderança de José da Silva
Carvalho, com o apoio de Rodrigo da Fonseca, dá-se a segunda instalação do Rito
Escocês Antigo e Aceite, em 24 de Junho, depois do mesmo ter sido adoptado em
Setembro de 1837 pela loja Regeneração nº 338.
Revoltas radicais
– Tumulto radical em Lisboa no largo da Estrela, promovida por uma companhia
da Guarda Municipal. O ministro Costa Cabral está então doente (11 de Agosto).
Nova revolta radical em Lisboa (26 de Agosto)
Revolta de Miguel
Augusto – Seguindo-se mais uma movimentação do mesmo teor em Castelo Branco
e em Marvão (27 de Agosto), onde se destaca o regimento comandado pelo coronel
Miguel Augusto de Sousa, em nome do lema viva a constituição de 1838, abaixo
o ministério, para, imitando os espanhóis, expulsarem-se os ministros
traidores, substituindo-os por homens honrados e de carácter Este acaba por
ser morto pelos próprios soldados que comanda, quando recusa a rendição. Muitos
começam a falar da ligação dos revolucionários portugueses aos espanhóis, dado
que ambos seriam marcados pela utopia mazziniana da Jovem Ibéria.
Só tendo partido
se têm princípios –
O Governo, que não
pertence a um partido, entendo eu que não terá princípios; porque os diferentes
partidos não representam senão diferentes princípios políticos... não é do
Ministério pertencer a um partido que vem o mal: o ponto é que haja verdadeira
nacionalidade e verdadeiro amor da justiça, verdadeiro interesse pela causa
pública, porque os meios governativos, a maior parte das vezes, podem e devem
ser os mesmos, apesar dos diferentes princípios
(Alexandre Herculano na Câmara dos Deputados, em 6 de Julho). Já Almeida
Garrett, em 18 de Setembro vai considerar: dantes era perigoso dizer a
verdade aos reis; agora é perigoso dizer a verdade ao povo.
Uma análise
miguelista – Analisando em 1847, a situação política do período, o
miguelista João de Lemos há-de considerar que se até 1836 apenas havia uma luta
entre a direita e a esquerda dos cartistas, quando surgiram os
homens de Setembro, este partido manifestou bons desejos, queria e tinha
necessidade de querer, seguir por uma estrada mais honrada do que o seu
antecessor. Logo, nos primeiros combates entre Cartistas e Setembristas o
povo assistia ao espectáculo como se assistisse a uma luta de gladiadores, e
tinha para si que, qualquer dos dois que ficasse despedaçado, era sempre uma
vantagem, porque era um inimigo de menos. Mas o que queriam os
setembristas era melhor do que queriam os cartistas, que aqueles eram melhores e
mais nacionais do que estes.
Um país quase em
armas – Agrava-se o conflito diplomático com Espanha sobre o regime de comum
navegação do Douro (Novembro) e o governo toma medidas excepcionais face à
iminência do conflito. Decreto suspende as garantias constitucionais por
quarenta dias (12 de Dezembro). Manda proceder-se à organização de batalhões
nacionais, como complemento do exército de primeira linha, e chamam-se os
reservistas.