|| Governos|| Grupos|| Eleições|| Regimes|| Anuário|| Classe Política

  Anuário de 1904

1904

Do fracasso hintzáceo às mil e uma maravilhas dos lucianistas

Telefones entre Lisboa e o Porto

(Ver pormenores em anuário CEPP)

 

Comícios republicanos contra o governo, em Fevereiro e Março.

Ataque dos cuanhamas em Angola a colunas militares.

Eleição nº 40 (26 de Junho). Vitória dos regeneradores hintzáceos, depois de prévio acordo com os progressistas.

Questão dos contratos de tabacos e fósforos levam à queda do governo.

  Governo nº 46 (20 de Outubro) José Luciano (516 dias) . O ministério das mil e uma maravilhas

 

Grupos políticos

Oposição parlamentar: Debate do discurso da coroa em 2 de Janeiro, com intervenções críticas de Manuel António Moreira Júnior, Eduardo José Coelho, Dantas Baracho e Veiga Beirão. João Franco visita o Norte, inaugurando centros políticos no Porto, Braga e Viana do Castelo. São de destacar as propostas de reforma da fazenda da autoria do ministro Teixeira de Sousa. João Franco visita o Alentejo e o Algarve. Bernardino Machado e Dantas Baracho começam a aproximar-se dos republicanos.

Oposição social: Em Janeiro, protestos contra a política financeira do governo, da Associação Comercial de Lisboa e do Centro Comercial do Porto. Insurgem-se contra o novo imposto de armazenagem na Alfândega.

Oposição republicana: Conferência de Bernardino Machado no Porto em 23 de Janeiro. Republicanos promovem romagens aos túmulos de José Falcão, em Coimbra, e de Elias Garcia, em Lisboa. No Porto, ao cemitério onde jazem os animadores da revolta de 1891 (31 de Janeiro). Comício republicano no Porto, presidido por Manuel de Arriaga contra a política financeira (7 de Fevereiro)

Greves – Retomam-se as greves dos metalúrgicos desencadeadas em Dezembro (4 e 5 de Fevereiro). Greve dos tipógrafos de Lisboa durante sete dias, impedindo a saída de jornais (19 de Fevereiro).

Ofensiva anti-governamental – Comício no Porto, presidido pelo nacionalista conde de Samodães. Estabelecimentos comerciais de quase todo o país fazem greve de protesto, fechando as portas. Comício em Braga (24 de Fevereiro), reunindo oradores progressistas, republicanos, franquistas e nacionalistas. Governo é atacado no parlamento por Veiga Beirão e José de Alpoim (5 de Abril).

Avanço republicano – Comício republicano em Lisboa presidido por Manuel de Arriaga, com discursos de Jacinto Nunes, Magalhães Lima, António Luís Gomes e João de Meneses (21 de Fevereiro). Comício em Coimbra contra a política governamental, com intervenção de Bernardino Machado (Março). Novo comício em Lisboa do mesmo teor. Vários incidentes com as forças da ordem (19 de Junho). Manifestação republicana no Porto saúda Guerra Junqueiro, que regressa de Paris. Incidentes com a polícia (23 de Junho)

Imprensa publica nova proposta governamental de contrato dos tabacos, atribuindo-se o monopólio ao grupo de Burnay. Ataques parlamentares de Ressano Garcia, João Pinto dos Santos e José de Alpoim (6 de Setembro).

Mais sinais oposicionistas – Novo discurso de João Arroioö na Câmara dos Pares contra Hintze Ribeiro. Este vai a Cascais pedir ao rei o adiamento das Cortes, que lhe é negado. Solicita, então, a demissão (15 de Setembro). Bernardino Machado profere oração de sapiência na Universidade de Coimbra: nenhuma escola se fecha entre as quatro paredes da aula (16 de Setembro).

Eleição nº 40 (26 de Junho). Vitória dos regeneradores hintzáceos, depois de prévio acordo com os progressistas. Mas as questões dos contratos de tabacos e fósforos levam à queda do governo.

Entre os Fósforos e os Tabacos – Os homens estão cada vez mais divididos por ambições e interesses. Dum lado os Fósforos. Do outro os Tabacos; dum lado o Século e o Navarro...do outro o Burnay e o seu grupo..

 

Governo nº 46 (20 de Outubro) José Luciano (516 dias) O chamado ministério das mil e uma maravilhas, por conseguir reunir personalidades como José Maria Alpoim, na justiça e não no reino, como pretendia, e Manuel Afonso Espregueira, quando, José Luciano, sofrendo de grave hemiplegia, quase não sai da sua residência na Rua dos Navegantes, donde manobra pelo telefone. É o último governo presidido pela velha raposa que, contra a praxe, não vai ocupar nenhuma pasta.

Os ministros constantes são: Manuel António Moreira Júnior (1866-1953), lente da Escola Médica, conhecido pelo moreirinha, destacando-se pela sua acção na Assistência Nacional aos Tuberculosos, na marinha e ultramar; Eduardo Vilaça nos estrangeiros; Eduardo José Coelho que passa das obras públicas para o reino em 1905. No reino, Pereira de Miranda, e na guerra, Sebastião Teles.

Clientelismo rotativo – Diploma extingue 37 comissariados do governo em vários serviços (17 de Novembro). Regeneradores reagem e dão a conhecer que em 1900 os progressistas tinham feito o mesmo, mas deixando 594 nomeações de compadres.

Muitos pés e poucas botas – O spoil system do rotativismo continua com inúmeras suspensões e transferências de empregados públicos nomeados pelos regeneradores. Cem anos depois, as boas intenções de líderes políticos ainda hão-de clamar por no jobs for the boys, mas o inferno do clientelismo há-de continuar, porque, na prática, a teoria é outra. Como há-de dizer Afonso Costa, quando, no começo do século XX, ainda se punha o problema do pé descalço, o problema está em que há muitos pés e poucas botas.

Motins estudantis no seminário de Bragança (Dezembro)

 

& Almeida, Fortunato de (VI): 493, 494; Brandão, Raul (I): 113; Gallis, Alfredo (II): 223, 254, 255, 256, 270, 290, 291, 295, 302, 303, 304, 305, 307, 308, 313-316; Oliveira, Lopes: 200, 201, 203, 295, 206; Paixão, Braga (III, 1971): 34 ss.