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1917
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Fome, peste e guerra, aparições de Fátima e Sidónio
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Intentona – Abortada uma
tentativa golpista chefiada pelo coronel Botelho de Vasconcelos (22 de Janeiro).
Guerra –
Ordenada a concentração das forças expedicionárias (17 de
Janeiro). O primeiro contingente do CEP parte em 19 de Janeiro, tendo saído do
batalhão de Infantaria 15 de Tomar, como punição por ter participado na revolta
de Dezembro de 1916. Hão-de chamar-lhe carneiros de exportação portuguesa.
Seguirão, ao todo, para a Flandres, 55 000 homens (24 batalhões que formam duas
divisões), numa espécie de nova Campanha do Rossilhão. 30 000 são
enviados para as colónias, onde já estacionavam cerca de 15 000 homens.
Greves e questão das subsistências
Numa reunião da Associação Central da Agricultura Portuguesa, José Relvas e
Aresta Branco defendem acção directa da lavoura contra o governo (11 de
Março). Patrões e sindicalistas de Beja impedem a saída de trigo do concelho
durante o mês de Janeiro. Assalto a padarias no Porto (Abril de 1917).
Deserção de evolucionistas –
Nos princípios de 1917, 17 deputados evolucionistas
passam-se para os unionistas, que conseguem um grupo de 30 deputados.
Reúne pela primeira vez o Conselho
Económico e Social em 3 de Março, criado por decreto de 18 de Abril, o
pretexto para a queda do gabinete, quando o deputado democrático António da
Fonseca critica o governo por este consultar entidades estranhas ao parlamento
(8 de Março). As críticas renovam-se no dia 20 e o governo considera-se
demissionário. O ministro do fomento é evolucionista e diz que o diploma tem
como propósito chamar as forças vivas.
Governo nº 67 de Afonso
Costa (231 dias, desde 25 de Abril). Os evolucionistas não participam no
gabinete, mas dão apoio parlamentar. O terceiro e último governo presidido pelo
todo poderoso líder dos democráticos vai sofrer as consequências dos três
cavaleiros do Apocalipse, da fome, da peste e da guerra,
num ambiente dramático, a que não faltam as próprias aparições de Fátima.
Dominam os incondicionais de Afonso Costa.
São ministros: José Mendes Ribeiro
Norton de Matosö , Augusto Vieira Soares (vindos
do anterior gabinete), bem como José Maria Vilhena Barbosa de Magalhães, Eduardo
Lima Basto, Artur Rodrigues de Almeida Ribeiro, Alexandre Braga, José António
Arantes Pedroso, Herculano Jorge Galhardo e Ernesto Jardim de Vilhena.
Recupera-se parte da equipa do gabinete de Vítor Hugo Azevedo Coutinho e
mobilizam-se dois antigos filhos de líderes de partidos monárquicos. Para além
de Ernesto de Vilhena (filho de Júlio de Vilhena), o subsecretário de Estado
Ernesto Navarro (filho de Emídio Navarro).
Revolta dos abastecimentos em
Lisboa entre 12 e 31 de Maio, com dezenas de mortos e centenas de feridos. No
dia 19 de Maio intensifica-se o processo grevista desencadeado e, no dia
seguinte, há uma manifestação de operários da construção civil no Parque Eduardo
VII, com o governo a decretar a suspensão das garantias constitucionais.
Assaltos a armazéns de víveres, com 22 mortos e 50 feridos graves, no dia 21,
naquilo a que se vai chamar, depreciativamente, a revolta da batata.
Sessão parlamentar sobre a matéria, confirma o estado de sítio em 22 de Maio.
Também há tumultos no Porto que causam cerca de duas dezenas de mortos. Afonso
Costa, na própria Câmara dos Deputados observa que em vez duma cidade de país
civilizado, encontramo-nos em uma terra de selvagens (21 de Maio). O
democrático Jaime Cortesão refere que se trata de uma revolução da fome, mas
com plano e organizações secretas (29 de Maio). Em 1 de Junho é criada uma
Administração de Abastecimentos que recebe as atribuições da Manutenção Militar,
assim se demonstrando a ineficácia do aparelho de Estado face à crise do
abastecimento e preços. E não é por acaso que um jovem estudioso desta matéria,
Oliveira Salazar, vai consagrar-se universitariamente com um trabalho
universitário dedicado à questão das subsistências, repetindo um título
já utilizado numa pequena obra de José Luciano de Castro.
Intentona – Governo tem
conhecimento que se prepara uma revolta, encabeçada por J. Carlos da Maia e
Ladislau Parreira (Maio)
Primeiras
aparições de Fátima (13 de Maio). Depois de ter surgido a diocese de
Leiria (restaurada em 17 de Janeiro de 1918 e com bispo desde 15 de Maio de
1920), eis que as aparições só serão consideradas dignas de crédito em
Outubro de 1930. As últimas ocorrem com o milagre do sol (13 de
Outubro). Jornalista anticlerical Avelino de Almeida relata de forma
imparcial, na Ilustração Portuguesa, a manifestação de 50 000 fiéis,
neste dia. O local vai ser vandalizado no dia 22 por vários elementos da
anticlericais de Santarém e de Vila Nova de Ourém, mobilizados por uma
Associação do Registo Civil, que tentam levar para o lado da chacota aquilo que
continua a ser um mistério do transcendente e da sociologia. Assumem-se
contra a especulação clérico-mercantil e os reaccionários. Igreja
opta pelo silêncio, apesar de dois dos três videntes terem falecido: Francisco
em 5 de Abril de 1919 e Jacinta em 20 de Fevereiro de 1920.
Conflitos com a Igreja Bispo do
Porto, D. António Barroso, é expulso da diocese em 21 de Junho. Segue-se a do
patriarca de Lisboa (31 de Agosto).
Mais greves
Greve da construção civil de 7 a 18 de Julho, com a GNR a
usar violência contra grevistas, encerrando-se a sede da União Operária (300
prisões). Greve da Companhia das Águas (Agosto). Greve dos Correios e Telégrafos
(1 de Setembro). Imensas prisões. Votada greve de solidariedade, que tem início
no dia 8.
Guerra – Em 22 de Julho começa
a grande batalha da Flandres, até meados de Novembro. Entre 8 e 25 de Outubro,
Bernardino Machado, Afonso Costa e Augusto Vieira Soares visitam os soldados
portugueses da Flandres.
Dissidências democráticas – A
usura do poder leva também a turbulências dentro do próprio partido democrático,
onde surgem várias personalidades que contestam a liderança de Afonso Costa,
nomeadamente os deputados António da Fonseca, Jaime Cortesão, Ramada Curto,
Alberto Xavier, Artur Leitão e Francisco Trancoso, que acusam o chefe de ser
um falso radical. A confusão é de tal monta que, no auge da revolta dos
abastecimentos, Afonso Costa, discursando na Câmara dos Deputados,, em 14 de
Julho, chegou a dizer-se marxista e partidário da luta de classes, quando disse
entender que devem ser todos pela luta de classes, no sentido marxista da
palavra. Cortesão chega mesmo a propor a constituição de um governo nacional,
com operários e católicos. Outra expressão da quebra de unidade do partido está
no facto do tradicional jornal democrático do Porto, A Montanha, ter
passado a independente, não faltando sequer a constituição de um novo periódico
em Lisboa, A Manhã, com dissidentes do tradicional órgão dos afonsistas,
O Mundo. Assim, não é de estranhar que no Congresso dos Democráticos,
realizado nos começos de Julho, Afonso Costa tenha que disputar a liderança, em
confronto com uma lista rival, para onde foi mobilizado Norton de Matos (3 de
Julho).
Monárquicos – Surge A
Monarquia, dito diário integralista da tarde, fundado por Alberto
Monsaraz (31 de Maio).
Num congresso realizado em Braga, no
dia 8 de Agosto, é fundado o Centro Católico Português. Aprovado o
programa redigido por Diogo Pacheco de Amorim (1888-1976) e Almeida
Correia. Na comissão central do novo agrupamento político, situado no âmbito
terráqueo, mas aspirando à cobertura celestial, Alberto Pinheiro Torres, José
Fernando de Sousa (Nemo) e Diogo Pacheco de Amorim. Participam 36 leigos e 30
eclesiásticos, a maior parte deles oriundos da diocese de Braga. O II Congresso
do CCP terá lugar em 22 de Novembro de 1919. Antes, tinha sido eleito o primeiro
deputado do Centro Católico Português, Diogo Pacheco de Amorim, por vaga de um
deputado em Braga, numa disputadíssima segunda volta.
Oficializado o programa do Partido
Centrista, liderado por Egas Moniz (20 de Outubro). Integram o grupo vários
dissidentes do evolucionismo como Vasconcelos e Sá, Malva do Vale, Tamagnini
Barbosa e Simas Machado, bem como elementos provindos dos dissidentes
progressistas. Assume-se como um centro de atracção e de convergência dentro
do regime. Dissolver-se-á em Abril de 1918 para integrar o partido sidonista.
Integrar-se-á, em 1919, no partido liberal.
Eleições para a vaga de um
deputado e um senador no círculo ocidental de Lisboa (25 de Outubro). Votam
apenas 14% dos recenseados. Democráticos obtêm 3 224 votos contra os 2 363
conseguidos por Machado Santos. Nas votações para o senador, 1797 votos para os
democráticos e 1 090 para o unionista Barros Queirós.
Eleições administrativas (4 de
Novembro). Democráticos com 92 câmaras (tinham 300); oposição republicana com 24
e monárquicos com 25. 89 para independentes.
Decreto cria o conselho de
Administração dos Transportes Marítimos do Estado (26 de Novembro).
Durante a guerra serão afundados 80 barcos portugueses, cerca de 45 mil
toneladas. O diploma será revogado por Sidónio Pais em 17 de Dezembro seguinte.
Aumento dos vencimentos e
mobilização agrícola – Em 5 de Outubro, decreto atribui aos funcionários
públicos subvenções extraordinárias, determinadas pela carestia de vida.
No dia 27 é emitido o decreto de mobilização agrícola de Lima Basto.
O filme da revolta dezembrista
A revolta começa a ser preparada por um comité ligado aos unionistas de Brito de
Camacho. As reuniões conspiratórias decorrem em A Luta e na farmácia
Durão, ao Chiado, de que é proprietário António Ferreira, também unionista.
A direcção conspiratória é composta
por Alberto da Silveira, Alves Roçadas, Vicente Ferreira, Tamagnini Barbosa e
Vasconcelos e Sá. Só depois é que Sidónio Pais se liga ao grupo.
Entretanto, por influência de Augusto
Vasconcelos, regressado de Madrid, Camacho deixa de apoiar o movimento.
Os conspiradores conseguem
financiamento do agricultor alentejano, António Miguel de Sousa Fernandes também
unionista.
Começo da revolta em 5 de Dezembro.
Aliás, entre Fevereiro de 1917 e Outubro de 1920, há 27 golpes de Estado
vitoriosos na Europa.
Decretado o estado de sítio na zona de Lisboa em 6 de Dezembro. A revolução
triunfa no dia 7. Do lado da república velha apenas resistem os
marinheiros de Agatão Lançaö (1894-1965), numa
postura heroicamente solitária, à semelhança de Paiva Couceiro em 1910.
Face à ausência de Afonso Costa e
Augusto Soares, o governo é então chefiado por Norton de Matos que, mais uma
vez, tem a colaboração de Leote do Rego, agora na tentativa frustrada de
contenção do golpe. É uma espécie de 14 de Maio ao contrário, agora com a
vitória da facção onde se integra Machado Santos.
No dia 8, declaração da Junta
Revolucionária, composta por Sidónio Pais, Machado Santos (que continua detido
em Viseu) e Feliciano Costa, anuncia o triunfo: venceu a república contra a
demagogia. Promete-se o fim da desordem e o império da lei.
Afonso Costa é preso no Porto.
Regressara de Paris no dia 6, dormindo em Coimbra. Vem para Lisboa no dia 11. É
transferido para o Forte da Graça em Elvas no dia 18. Será apenas posto em
liberdade no dia 30 de Março de 1918, partindo para França em 25 de Abril.
Depois da vitória, Sidónio tenta
mobilizar para a chefia do governo o unionista Bettencourt Rodrigues e, depois,
o independente José Relvas.
O novo ciclo político começa por
anular os castigos impostos aos bispos, dissolve o parlamento e manda libertar
os implicados no 16 de Dezembro de 1916 (9 de Dezembro).
Comício da União Operária Nacional, na
praça dos Restauradores em Lisboa apresenta reclamações à Junta Revolucionária.
Outros comícios do mesmo teor se realizam no Porto, Coimbra, Leiria, Barreiro,
Odemira e Parede. Reclama-se, nomeadamente, a utilização imediata de terrenos
baldios.
São reintegrados os saneados pela lei
de 1915 (10 de Dezembro). Nesse dia são formalmente demitidos os ministros do
governo de Afonso Costa. Segue-se a destituição do próprio Presidente da
República, Bernardino Machado (11 de Dezembro).
Presidente derrubado só abandona Belém
em 15 de Dezembro, onde fica prisioneiro. Há-de suceder-lhe o mesmo em 1926.
Com o parlamento dissolvido, é
publicado o programa de governo em separata do Diário do Governo, no dia
16 de Dezembro. Aí se proclama que o governo é contra a demagogia, tendo
em vista a a harmonia e unidade da pátria.
D. António Barroso regressa ao Porto
em 20 de Dezembro. Em 27 de Dezembro, já Sidónio acumula as funções de
presidente do ministério e de presidente da República.