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  Anuário de 1919

1919

Da Traulitânia e Monsanto ao regresso da República Velha

Versalhes e a nova Alemanha

Pan-africanismo, democracia cristã, fascismo e Internacional Comunista

Dos maximalistas ao cometa Halley

pormenores em anuário CEPP)

G. Tamagnini

Movimentos revolucionários na Covilhã e em Lisboa (10 de Janeiro)

Revolta de Santarém (12 de Janeiro)

Começa conferência de paz de Versalhes (18 de Janeiro)

Monarquia do Norte (19 de Janeiro)

 

 

  Governo nº 70 (19 de Janeiro) José Relvas (62 dias). O chamado ministério da desforrra, com regresso ao pré-sidonismo.

Revolta monárquica de Monsanto (22 a 24 de Janeiro)

Republicanos conquistam Estarreja (11 de Fevereiro)

Fim da Traulitânia no Porto (13 de Fevereiro)

Queda da monarquia do Norte em Vila Real (17 de Fevereiro)

Dissolução do parlamento sidonista (19 de Fevereiro)

Substituição dos governadores civis, com os democráticos a assaltarem o poder local (a partir de 23 de Fevereiro)

Sai o primeiro número de A Batalha (23 de Fevereiro)

Nova lei eleitoral (1 de Março)

 

 

 

  Governo nº 71 (30 de Março) Domingos Pereira (92 dias)

Geves e incêndios criminosos (Maio)

Apelo para a criação de um partido conservador (13 de Abril)

Eleição nº 49 (11 de Maio). Vitória dos democráticos com 96 deputados. 38 evolucionistas. 17 unionistas. 8 socialistas. 1 católico.

Dissolução da Faculdade de Letras de Coimbra (22 de Maio)

Reabertura do Congresso (3 de Julho)

 

  Grupos políticos

 

Regime da nova república velha

 

  Governo nº 72 (29 de Junho) Sá Cardoso (205 dias). Domínio da ala moderada dos democráticos.

Greves e atentados bombistas

Atentado contra Alfredo da Silva (21 de Julho)

António José de Almeida eleito PR (6 de Agosto). Toma posse em 05-10.

Criada a CGT (18 de Setembro).

Surge o Partido Liberal (junção de evolucionistas e unionistas).

Surge o Partido Popular (evolucionistas que não aceitam integrar os liberais).

Cria-se a Federação Maximalista Portuguesa.

Reestruturação do Centro Católico Português.

Integralistas em conflito com D. Manuel II.

Eleição de António José de Almeida como Presidente da República (6 de Agosto)

Criação da CGT (18 de Setembro)

Posse de Almeida e formação do Partido Liberal (5 de Outubro)

Formado o Grupo Parlamentar Popular, uma dissidência dos evolucionistas (8 de Outubro)

Sidonistas afectos a Egas Moniz passam a integrar os liberais (13 de Outubro)

 


 

Eclodem movimentos revolucionários em Lisboa e na Covilhã (10 de Janeiro), sob o comando de uma junta revolucionária constituída por Álvaro de Castro (então democrático), Francisco Couceiro da Costa (evolucionista), António Granjo (evolucionista), Jaime de Morais (deputado dezembrista), Augusto Dias da Silva (socialista) e Cunha Leal (deputado dezembrista). Apoiam a junta os militares Ramos de Miranda, coronel Jaime de Figueiredo, capitão Tribolet e António Maria Baptista. Em Lisboa revolta-se o tenente Prestes Salgueiroö (1891-1950), até então membro do gabinete do ministro da marinha.

Começa a revolta de Santarém com Álvaro de Castro, Cunha Leal e o coronel Jaime de Figueiredo (12 de Janeiro), que declaram querer acabar com a influência monárquica no poder, depurar o exército, defender em todos os campos e inalteravelmente a República. Defende a nomeação de um governo presidido por Nunes da Ponte, com o general Tamagnini de Abreu a ministro da guerra.

Uma nota oficiosa do governo de 12 de Janeiro refere a existência de prenúncios de um movimento revolucionário capitaneado por democratas e secundado por agentes bolchevistas.

Os revoltosos de Santarém rendem-se incondicionalmente, graças à acção da coluna negra vinda da Covilhã e comandada pelo tenente Teófilo Duarte, governador de Cabo Verde (16 de Janeiro). Esta coluna, que se internara nas Beiras, ergue um pavilhão de seda negra onde com letras brancas, se lê Glória a Sidónio Pais. Assim se impede que a cidade seja tomada pelas tropas das Juntas monárquicas, comandadas por Silva Ramos, que tencionavam pedir a Paiva Couceiro para encabeçar o movimento.

Começa a conferência de paz de Versalhes, estando Portugal representado por Egas Moniz (18 de Janeiro).

Monarquia no Porto – Paiva Couceiro restaura a monarquia no Porto (19 de Janeiro). Imediatamente se forma governo com o visconde de Banho, o conde de Azevedo e o capitão Sollari Alegro, numa acção condenada pelo próprio D. Manuel II.  E lá se vive o delírio do caceteirismo dos trauliteiros, tão odiento quanto o modelo dos lacraus do sidonismo ou que os formigas brancos democráticos.

Manifestação de republicanos em Lisboa diante do ministério do interior (21 de Janeiro). Voluntários civis concentram-se no Campo Pequeno para receberem armas e instrução militar. Destaca-se a acção do major de infantaria André Brun. São mobilizados antigos apoiantes civis do sidonismo, como Manuel Inácio Ferraz (22 de Janeiro).

Revolta monárquica de Monsanto em Lisboa. No dia 22 de Janeiro à noite, tropas pró-monárquicas começam a deslocar-se para Monsanto, sob o comando de Aires de Ornelasö. As forças republicanas pró-governamentais são comandadas pelo tenente-coronel Vieira da Rocha. Pelos monárquicos, onde também combate João de Azevedo Coutinho, há um conjunto de civis comandados pelo ex-capitão Júlio da Costa Pinto, que resistem até às 17 horas do dia 24.

A escalada heróica – A escalada de Monsanto ficou como uma data histórica e para mim superior à própria proclamação da República (Magalhães Lima).

Vitória republicana – Recomeça a publicar-se O Mundo e o governo apresenta a demissão (26 de Janeiro). O jornal logo comunica que o partido democrático defende uma concentração republicana. Depois de esmagada a revolta monárquica de Monsanto, há reunião na sede do jornal A Luta (26 de Janeiro) presidida por Couceiro da Costa, com Cunha Leal, Álvaro Castro, Tomé de Barros Queirós, Aresta Branco, Fernandes Costa, Xavier Esteves, Inocêncio Camacho, Domingos Pereira, Ladislau Batalha e Augusto Dias da Silva, donde resulta um consenso quanto à escolha de José Relvas. Como chegou a vaticinar Guerra Junqueiro, esta situação, do sidonismo, só podia acabar pela restauração da Monarquia ou pela restauração da República.

Safanões à esquerda e à direita – Tristes acontecimentos esses (revolta de Santarém e Traulitânia), foram como que dois fortes safanões, para a esquerda e para a direita, produzidos num velho edifício periclitante, mas cuja perpendicular, tirada do centro, não chegou em nenhum dos casos a cair fora da sua base de sustentação republicana (Luís Cabral de Moncada).

Governo nº 70 (27 de Janeiro) José Relvas (62 dias). O chamado ministério da desforra, com o qual se regressa ao regime da república velha. O gabinete, de concentração republicana, diz-se destinado a combater os realistas e nunca os sidonistas republicanos. Começa por juntar representantes de todos os partidos, incluindo os próprios sidonistas (na justiça, estrangeiros, comércio e colónias), cujo parlamento se mantém até 19 de Fevereiro, data em que se regressa formalmente à plena vigência da Constituição de 1911. Proclama que é de todos os partidos, não tem partido algum, o seu partido é a república.
Presidência e interior: o republicano independente José Maria Mascarenhas Relvas (1858-1929), antigo ministro da fazenda do governo provisório, ligado a Brito Camacho, um dos principais líderes da Associação Central da Agricultura Portuguesa. Justiça: um evolucionista, o juiz da Relação Francisco Manuel Couceiro da Costa. Finanças: um democrático: o médico António Paiva Gomes (1878-1939). Marinha: um unionista: Tito Augusto de Morais. Negócios estrangeiros: um sidonista: Egas Moniz. Couceiro da Costa, interino desde 27 de Janeiro de 1919. Comércio: um sidonista: Manuel José Pinto Osório. Desde 25 de Fevereiro, Júlio Augusto de Patrocínio Martins (democrático). Colónias: José Carlos da Maia (sidonista, independente) e, depois, Domingos Leite Pereira (interino desde 21 de Março). Guerra: tenente-coronel António Maria de Freitas Soares (n. 1877), independente, antigo chefe de gabinete de Tamagnini Barbosa. Trabalho: Augusto Dias da Silva (socialista) que Relvas considera como mentalidade singularmente anárquica e de uma ignorância enciclopédica. Agricultura: Jorge de Vasconcelos Nunes. Abastecimentos: João Henriques Pinheiro (sidonista). Jorge de Vasconcelos Nunes, interino desde 27 de Fevereiro. Instrução Pública: Domingos Leite Pereira (democrático).

O medo dos democráticos – Não posso correr o risco de ver as procissões cívicas nas ruas de Lisboa, clamando a intangibilidade da lei da Separação e festejando em apoteoses, como as piores de 1911, Afonso Costa e Bernardino Machado (José Relvas).

Regresso ao pré-sidonismo – Republicanos conquistam Estarreja (11 de Fevereiro) Fim da Traulitânia no Porto (13 de Fevereiro). Queda da Monarquia do Norte em Vila Real (17 de Fevereiro). Dissolução do parlamento sidonista (19 de Fevereiro). Substituição dos governadores civis, com os democráticos a assaltarem o poder local (a partir de 23 de Fevereiro). De facto, uma das principais técnicas da conquista e manutenção do poder está na ocupação das infra-estruturas do poder local, a partir de uma janela de oportunidade, oferecida pelo reservatório central da autoridade. Sai o primeiro número de A Batalha (23 de Fevereiro). Nova lei eleitoral (1 de Março).

Desordem pública – Assalto a estabelecimentos comerciais em Coimbra, numa revolta da fome (3 de Abril). Criada, em 7 de Abril, a partir da Polícia Preventiva, mera secção da PSP de Lisboa, a Polícia de Segurança do Estado que em 1922 passa a Polícia de Defesa Social

Fala-se na criação de um partido conservador, com a junção de unionistas e evolucionistas, mas, em 8 de Março, António José de Almeida, apenas considera de aceitar a integração dos camachistas no partido evolucionistae, nesta sequência, José Relvas pede a demissão por não querer presidir a uma vitória eleitoral dos democráticos.

Governo nº 71 (30 de Março) de Domingos Pereira (92 dias). Com cinco democráticos, três evolucionistas, dois unionistas e um socialista.

O presidente, Domingos Leite Pereira (n. 1882), é um antigo seminarista e propagandista republicano, companheiro de João Chagas, que havia sido presidente da câmara de Braga antes de 1910, acumula a pasta do interior. É nesta pasta substituído interinamente por António Maria Baptista de 20 a 28 de Abril de 1919. Justiça: António Joaquim Granjo (1881-1921) evolucionista. Finanças: o advogado e dramaturgo Amílcar da Silva Ramada Curtoö (1886-1961), então, ainda democrático, mas futuro líder dos socialistas, de quem se torna deputado em 1922, que logo no acto de posse declara: favores sociais, tudo; favores individuais, nada. Guerra: António Maria Baptista (democrático) desde 1 de Abril. Marinha: Vítor José de Deus Macedo Pinto (evolucionista), desde 3 de Abril. Estrangeiros: Rodolfo Xavier da Silva Júnior (independente). Comércio: Júlio Augusto do Patrocínio Martins (evolucionista e futuro popular). Colónias: João Lopes Soares (1878-1970) democrático, pai do futuro presidente da república Mário Soares. Instrução pública: Leonardo José Coimbra (democrático). Trabalho: Augusto Dias da Silva (socialista), até 6 de Maio, quando é substituído interinamente por Jorge de Vasconcelos Nunes. Agricultura: Jorge Vasconcelos Nunes (unionista). Abastecimentos: Luís de Brito de Guimarães (unionista).

Os trinta suplementos – Na véspera das eleições (10 de Maio), surge o mais gordo diário oficial da história portuguesa, onde, para além do pacote laboral, se publicam 30 suplementos, que, segundo os críticos, criam cerca de 17 mil novos empregos públicos. Todos nomeados por conveniência do serviço público, sem o visto do Conselho Superior de Finanças. Os números são incertos, mas em Março já haviam sido saneados 500 oficiais do exército. Mas em 1930, contabilizam-se mais de 17 000 funcionários do que em 1911, enquanto as forças armadas, nesse período, também aumentam em cerca de 16 000 efectivos. Assim triunfa a empregomania semeada pelo devorismo de Rodrigo da Fonseca, só que agora ela se democratiza, alargando-se às classes médias e a núcleos da pequena burguesia. E como não havia moralidade, todos queriam comer à mesa do orçamento.

Partido conservador – Alberto Madureira, em 13 de Abril, tenta, de novo, a criação de um partido republicano conservador, com o unionista Nunes da Ponte, o sidonista ex-monárquico Francisco Fernandes e o sidonista António Miguel de Sousa Fernandes, antigo governador civil de Lisboa. Em 15 de Abril, a Junta Municipal de Lisboa dos evolucionistas manifesta-se contrária à dissolução do partido.

Proposta de partido reformador No dia seguinte, há uma reunião no consultório de Egas Moniz de delegados dos partidos centrista, unionista e evolucionista, com republicanos independentes, tendo em vista a unificação naquilo que então se qualifica como o partido republicano reformador. Novo malogro, face à resistência dos evolucionistas.

Bipolarização entre moderados e radicais O evolucionista Ribeiro de Carvalho, em entrevista a A Capital, defende um grande partido moderado, incluindo democráticos, que se oporia a um grande partido radical, para onde deveriam transitar os radicais democráticos, evolucionistas e unionistas, o que só se conseguiria com a dissolução dos três grandes partidos.

A resistência dos evolucionistas – O processo de unificação é novamente detido quando em 24 de Abril ex-parlamentares evolucionistas, em reunião tida com António José de Almeida se manifestam contra a dissolução do respectivo partido. Desta forma se reconhece a falta de coerência, programática, ideológica e de estilo, dos partidos existentes, onde havia gente nos evolucionistas bem mais à esquerda do que nos democráticos e vice-versa. As filiações, marcadas pelo oportunismo, pelos acasos e até pelas relações pessoais e de grupo, levam, por exemplo, a que um Gomes da Costa se filie sucessivamente na no Partido Centrista de Egas Moniz, no Partido Reformista de Machado Santos, na Federação Nacional Republicana e no Partido Radical, para acabar líder do 28 de Maio. Com efeito, o partido evolucionista, tanto tinha mobilizado radicais de esquerda, à maneira de um Júlio Martins, como futuros ultra-reaccionários, como Alfredo Pimenta. Até os democratas-cristão vindos do CADC clamavam que eram bem mais antigos no maurrasianismo do que os integralistas e Afonso Costa, o racha-sindicalistas, não se coibia de invocar Karl Marx.

 

Eleição nº 49 do Congresso da República, em 11 de Maio. 156 deputados e de 68 senadores. Cerca de 500 000 eleitores e de 300 000 votantes. Democráticos (55%): 86 deputados e 36 senadores. Evolucionistas (22%): 38 deputados e 27 senadores. Unionistas (10%): 17 deputados. Independentes: 13 deputados e 6 senadores. Socialistas: 8 deputados. Católicos: 1 deputado e 1 senador. Há um senador centrista. Reabertura do Congresso (3 de Julho).