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Guerra das portagens, soarismo no bloqueio e tabu de Cavaco
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A mentalidade do hipermercado – Com a
versão cavaquista da integração na Europa, o país passa a ser uma espécie de
grande hipermercado, dado que, para o homem comum, o europeísmo quase significa
andar com um carrinho de compras numa grande superfície dos arredores
suburbanos, adquirindo produtos de todas as partes do mundo. Assim nos vamos
modernizando pelo consumo de produtos made in China e, deixando de
produzir, quase ficámos traficantes de serviços, mas sem adquirirmos a autonomia
dos analistas de símbolos. No plano cultural a modernização transforma a
rebeldia no mais seguidistas dos estilos e o Portugal Novo, cada vez mais bicha
de para uma caixa registadora e mão estendida ao fundo estrutural europeu, nos
anos áureos do cavaquismo e da era Delors, vê Guterres propor uns estados
gerais para uma nova maioria que, contudo, não pretendem gerar uma frente
popular, mas, antes, alargar-se ao centro-direita, sem a confusão do Bloco
Central.
Da
guerra das portagens à degenerescência cavaquista.
Inicia-se o processo contra o pagamento das portagens na ponte sobre o Tejo (de
20 a 25 de Junho). Recomeça a campanha de luta na ponte sobre o Tejo (1 de
Setembro). Ladeiro Monteiro, obediente a Fernando Nogueira, abandona o SIS, em
conflito com o ministro Dias Loureiro (23 de Maio). Surge o escândalo Duarte
Lima, no mesmo dia em que José Augusto Seabra se demite do PSD (9 de Dezembro).
Leonor Beleza é acusada pelo Ministério Público no processo da importação de
sangue contaminado pelo vírus da SIDA (15 de Dezembro). O processo apenas
terminará em 2002. Pedro Santana Lopesö
demite-se de Secretário de Estado da Cultura, ao que parece em conflito com o
estilo de austeridade imposto por Cavaco Silva e rigorosamente vigiado pela
esposa do primeiro-ministro. Conseguira resistir à demissão de dois dos
respectivos sub-secretários, como António Sousa Lara, depois de uma tentativa de
não apoio à candidatura de José Saramago a um prémio literário internacional,
certamente do conhecimento do respectivo superior governamental, e, depois,
Maria José Nogueira Pinto, em conflito com um presidente do Sporting Clube de
Portugal, lugar que o demitido secretário de Estado exercerá depois de sair do
governo (21 de Dezembro).
Geração rasca – Grandes manifestações de
estudantes do secundário contra as provas globais (Maio e Junho). Utilizam-se
cartazes e slogans obscenos, o que leva o director do jornal Público,
Vicente Jorge Silva, destacado militante da nossa geração do Maio 68, a clamar
contra a geração rasca, no ano do vigésimo aniversário do 25 de Abril.
Estas revoltas estudantis quase tratam de promover uma espécie de regresso
mimético ao esquerdismo dos finais dos anos sessenta. Por causa do não pagamento
das propinas inventam-se autocolantes com Adriano Correia de Oliveiraö
a apelar para a resistência e ouvem-se até à exaustão as baladas de Zeca Afonso,
onde apenas falta a Pasionaria e os acordes da Internacional. De
certo que ouvirão um discurso retro desses deputados que justificam o
situacionismo com o terem sido antifascistas de garganta há trinta anos atrás.
Soares diz que, no seu tempo, também havia sido contestatário. Pacheco Pereira
que levou bastonadas da polícia, etc. Todos choram muito freudianamente pelas
trancadas que eventualmente levaram e nenhum repara que esta linguagem
quarentona, cinquentona e sessentona, está a produzir-se de cima para baixo, dos
microfones do poder para a audiência dos súbditos intelectuais em que nos querem
transformar. Isto é, todos falam encavalitados no establishment, todos
são o poder a ensaiar linguagens do contra-poder. Por outras palavras, é
o poder, a querer ser mais poder ainda, secando o discurso do contra-poder.
E os pobres manipulados lá vão fingindo rebeldia, neste mimético de fantasmas
situacionistas, antes de serem nomeados adjuntos de um qualquer novo ministro,
invocando a respectiva militância numa qualquer jota.
PS e
Plataforma de Esquerda chegam a um acordo para as eleições europeias (10 de
Janeiro). Guterres lança Estados Gerais para uma Nova Maioria, contra
um país bloqueado (11 de Outubro). Soaristas contra Cavaco no congresso
Portugal que Futuro, com críticas de Soares a Cavaco Silva (de 8 a 10 de
Maio)
Congresso do PP em Setúbal,
com o reforço da liderança de Manuel Monteiro (20 de Fevereiro).
Tribunal
Constitucional indefere pedido da Procuradoria Geral da República sobre o
Movimento de Acção Nacional, considerando que essa organização já está
extinta (18 de Janeiro).
Abertura oficial
de Lisboa 94- Capital Europeia da Cultura. O modelo que havia sido
desencadeado por Francisco Lucas Pires, enquanto ministro da cultura da AD,
representa uma conciliação entre o PS e o PSD, dado que a presidência da
comissão cabe a Vítor Constâncio (26 de Fevereiro). O país dos intelectuais é
uma balança sem fiel, onde todos os pesos pendem para o lado canhoto e
querem transformar o que resta do Portugal que pensa numa simples colónia
cultural da estupidez de uma sub-Europa exportadora de excedentes
intelectualóides para as bolsas terceiro-mundistas das respectivas periferias.
Domina assim o balsemismo que constitui uma das primeiras cabeças do chamado
quarto poder, procurando constituir uma nova espécie de catedratismo, como o que
outrora foi representado pelas universidades. É a chamada cultura empresarial,
medida pelos padrões da compra, esse parecer a que falta o ser e
que acaba por medir-se pelo ter. Surge deste modo o que de mais vácuo há
nessa ponte do tédio que vai do poder para a cultura, a tal forma suave e
gaguejante do que pior têm os Maxwell, os Murdoch e os Berlusconi, esses que
vendendo pornografia e análises de política internacional, conseguem marcar o
ritmo dos que pensam pensar. Emerge, deste modo, um pensamento em Portugal que
nada tem de português, constituindo a principal via da nossa nova forma de
colonização cultural
Eleição para o
Parlamento Europeu
(12 de Junho) 8 565
822 eleitores. 3 044 001 votantes. PS: 10 deputados, 34,87%. PPD/PSD: 9
deputados, 34, 39%. CDS/PP: 3 deputados, 12, 45%. CDU: 3 deputados, 11,19%. Uma
abstenção recorde de 64 %. A partir de Março, depois do Congresso do CDS, a
temperatura política começa a subir, quando Manuel Monteiro, invocando
pátria, nação e família e criticando os deputados sanguessugas, vinte
anos depois do 25 de Abril, provoca nos concorrentes um regime de histeria
discursiva, onde os fantasmas de direita e de esquerda explodem de forma
ridícula. Assumindo o euro-pessimismo soberanista, estruturado pelas crónicas de
Paulo Portas, desfaz o quase unanimismo euro-fatalista do discurso dominante na
classe política, obrigando a profundas turbulências nas mensagens típicas do PS
e do PSD, com Eurico de Melo em cabeça de lista e José Pacheco Pereira a querer
ser a voz ideológica no deserto doutrinário do cavaquismo que apenas diz que se
distingue do conservadorismo e do revolucionarismo
Cavaco Silva
anuncia que o PSD irá propor a eliminação da regionalização da Constituição (28
de Julho).
Depois do jornal
Expresso revelar que Cavaco Silva pode abandonar a liderança do PSD, o
Primeiro-Ministro declara que esse é um assunto tabu (29 de Outubro).
Gravuras
de Foz Côa –
Anunciada
oficialmente a descoberta de pinturas rupestres na zona do vale do Côa, quando
está prestes a concluir-se uma barragem que virá a ser suspensa, depois de longa
polémica (19 de Novembro).
António
Champalimaudö
regressa à
liderança accionista do Banco Pinto & Sotto Maior, depois de pagar ao Estado
cerca de 37 milhões de contos, uma quantia, em grande parte recuperada depois de
ser indemnizado pelas nacionalizações revolucionárias de 11 de Março de 1975 (16
de Novembro).
Entre Barreto e
Proença – A direita política que está ou esteve no governo e que produziu,
como principais aproveitadores do impasse, personalidades como Daniel Proença de
Carvalho e Álvaro Barreto, os chamados “liberais” do PSD, prefere continuar a
cumprir uma espécie de pacto de não agressão com a extrema-esquerda cultural.
Barreto é a memória da CUF e da Lisnave e Proença, a junção de Champalimaud e da
Torralta com os lobbies jus-negocistas da pós-revolução, ambos tendo
aderido às altas esferas da democracia no interregno dos governos presidenciais.
Esta direita dos interesses parece, aliás, tentada a posicionar-se na
corrida pós-cavaquista que se anuncia, visando beneficiar com os despojos do
processo. Por outras palavras, a parte dinâmica da burguesia lusitana continua a
seguir as pisadas dos herdeiros da direita palmelista que comprou a pataco
os bens da coroa.
O poder judicial
e os políticos – O Tribunal da Boa Hora condena Costa Freire e Zézé Beleza a
prisão efectiva (17 de Janeiro), depois de, na semana anterior, ter sido punida
gente do grupo Emaudio, como Rui Mateus e Tito de Morais. Os primeiros, próximos
do cavaquismo, por burla; os segundos, ligados ao soarismo, por corrupção. O
Estado de Direito dá tímidos passos junto dos colarinhos brancos, apesar
da nossa legislação não permitir o lançamento de uma operação do tipo mãos
limpas, à italiana.
A estátua
de Duarte Pacheco – Um dos grandes actos
culturais do cavaquismo ocorre com a inauguração da estátua ao ex-ministro das
obras públicas de Salazar, Duarte Pacheco, considerado o ministro bom do
fascismo mau. Por acaso, o militante do partido da União Liberal Republicana, a
chamada ala civil do 28 de Maio de 1926, que foi a Coimbra chamar Salazar para a
pasta das finanças. Enquanto a face direitista do cavaquismo, representada por
Ferreira do Amaral, parente directo de um governador assassinado em Macau, de um
primeiro-ministro da monarquia que se passou para a república e de um dos
polícias políticos da mesma república que se fez salazarista, inaugura, eis que
a esquerda pietista do mesmo sistema, simbolizada em Laborinho Lúcio, vai
perorando sobre as prisões, dizendo que não gosta daquelas que vamos tendo, como
se não fosse por elas responsável.