Chagas, João Pinheiro (1863-1925)

 

Jornalista. Republicano histórico, próximo de Brito Camacho. Em 1890 publica no Porto o jornal A República Portuguesa . Estava preso por crime de imprensa na Relação do Porto quando se deu a revolta do 31 de Janeiro de 1891. Será condenado por instigar à mesma. Desterrado para Luanda e Moçâmedes, foge daqui. Volta ao Porto e volta a ser preso em finais de 1892. De novo desterrado para Luanda. Amnistiado pelo governo de Dias Ferreira. Edita no Porto entre 21 de Dezembro de 1893 e 3 de Junho de 1894 o Panfleto. Edita depois A Marselhesa e O País. Preso em 28 de Janeiro de 1908. Libertado pelo governo de Ferreira do Amaral, começa a editar, entre 10 de Dezembro de 1908 e 25 de Dezembro de 1910, as Cartas Políticas.

Presidente do ministério de 3 de Setembro a 12 de Novembro de 1911, acumula as pastas do interior e dos negócios estrangeiros, esta até 12 de Outubro, onde surge Augusto de Vasconcelos. Tem a oposição do grupo de Afonso Costa.

Nomeado chefe do governo em 15 de Maio de 1915. Sofre atentado no Entrocamento, sendo substituído por José de Castro. Retoma o lugar de ministro de Portugal em Paris em 10 de Setembro de 1915.

Tradição e Revolução

1891

Revolução, coisa enorme e nada – Durante todo o dia que durou a revolução de 31 de Janeiro, um caldeireiro trabalhou na sua oficina fazendo sem cessar a pancada do seu martelo e, sem por um momento só, levantar os olhos para o céu, para o ar, para a vida: as revoluções que não conseguem fazer parar um martelo que bate numa caldeira de cobre, não conseguem fazer parar forças sociais de muito mais imperiosa função, porque revolução é uma coisa enorme e afinal não é nada ( João Chagas).

1892

No seu Diário de um Condenado Político, reconhece que o povo português é um povo que vai falir. João Chagas que se evadira de Angola, é preso (13 de Setembro).

1893

Amnistiados vários crimes de incidência política. Abrangidos João Chagas, Alves da Veiga e Sampaio Bruno. João Chagas começa a editar a partir de 21 de Dezembro, no Porto, o jornal republicano Panfleto, até Junho de 1894.

1894

Os republicanos também estão divididos, sendo de destacar os ataques do jornalista Homem Christo. De um lado, os chamados radicais, como Basílio Teles, Alves da Veiga e João Chagas. Do outro, os chamados conservadores, como Eduardo Abreu, Sampaio Bruno e Gomes da Silva.

1896

Sai o jornal republicano a Marselhesa, dirigido por João Chagas (1 de Agosto)

1897

Governo progressista contra os republicanos – Comício republicano na Praça da Alegria em Lisboa, com João Chagas a protestar contra todos os actos do poder que tenham em vista a alienação, directa ou indirecta, de quaisquer bens ou rendimentos nacionais (23 de Maio).

1898

João Chagas larga a direcção do País, jornal fundado por Alves Correia, entretanto falecido, por causa das querelas a que está sujeito, e retira-se prudentemente para Espanha, deixando a António França Borges ö(1871-1915) a direcção do jornal.

1906

Houve ordem e houve lógica enquanto reinaram Hintze Ribeiro e José Luciano. Depois que sobreveio João Franco é o caos ( João Chagas):

1907

A monarquia está nas mãos de João Franco – A monarquia está nas mãos de João Franco e nas mãos de João Franco deve morrer. Seja qual for o partido que a recebe ainda com vida, recebe-a já agonizante ( João Chagas).

1908

Jugulada conspiração que se conjugara entre dissidentes progressistas e republicanos. São presos vários líderes da revolta como Luz de Almeida (1867-1939), Afonso Costa, Egas Moniz, Pinto dos Santos, Ribeira Brava e João Chagas, nas dependências do ascensor do largo da Biblioteca.

A dita acalmação – Reaparecem os jornais suspensos: Diário Popular, Liberal, O Dia, O País, Correio da Noite (6 de Fevereiro). São libertados António José de Almeida, Afonso Costa, Egas Moniz, João Chagas e França Borges (6 de Fevereiro). Até se admitem manifestações públicas junto das campas dos regicidas e o jornal O Mundo organiza subscrição pública para apoio às famílias dos mesmos, enquanto os juízes de investigação, Alves Ferreira e Silva Monteiro, coligem elementos sobre a situação da Carbonária.

Cartas Políticas – Sai o primeiro número das Cartas Políticas de João Chagas, com a data de 10 de Dezembro, Ao Rei D. Manuel aproveitando a ocasião da sua viagem ao norte, onde proclama que V. M. é muito novo, mas para o mundo que veio encontrar é velhíssimo. Tem dezanove anos e tem séculos. Veio tarde...o Portugal da senhora D. Maria da Glória morreu; morreu com Herculano, com os Passos, com José Estevão e os Ribeira de Sabrosa, mas outro nasceu, filho d’esse, que, herdando as suas decepções, começou por fazer delas o cepticismo bonacheirão que deu o Zé Povinho e acaba por as levar ao estado congestivo de revolta que deu o Buíça (12 de Dezembro).

O sobe e desce dos partidos – Os partidos subindo ao poder, ou descendo do poder, como sobem, ou descem os pratos de uma balança, onde verdadeiramente não havia já governos, mas uma oligarquia ( João Chagas).

A instabilidade ministerial é sempre uma causa de inquietação da sociedade. É o poder vago, é a ausência de unidade na obra da administração, é uma sobrexcitação permanente de paixões, são as instituições abaladas por sucessivos conflitos. Porque os políticos promovem o advento de tantos Ministérios quantos sejam necessários para que eles governem, e não esperam um dia, não esperam uma hora, nem mesmo que esses sejam o último dia e a última hora das Instituições. O poder em mãos alheias é ideia que não suportam, e ambicionam-no, disputam-no ainda que não seja senão para receber o seu último alento.

1909

Todos conspiram –João Chagas salienta que todos coxixam, tramam, conspiram, espreitam, espionam, recebem ordens, partem para aqui, para ali, em expedição, cosem-se com as esquinas, andam de gatas por baixo da terra.

A fatalidade e o acaso – A Monarquia liberal acabou em Fevereiro do ano passado. O que lhe sobreviveu foi um equívoco da fatalidade e do acaso, e a história não consente o predomínio de equívocos. A história tem uma lógica ( João Chagas).

A monarquia dos padres – D. Manuel subiu ao trono e a monarquia foi dos padres (João Chagas).

Procuradores de interesses estrangeiros – Os braganças foram sempre em Portugal procuradores de interesses estrangeiros... O liberalismo, pode dizer-se, é uma aventura inglesa ( João Chagas).

Pátria republicana – Em Portugal já não há hoje interesses de género que possam associar monárquicos e republicanos. A pátria de uns já não é a pátria de outros ( João Chagas).

 ●A demagogia liberal – Os progressistas são a demagogia liberal. Vem hereditariamente da praça pública. Sempre que não estão no poder, estão na bernarda (João Chagas)

Congresso do Partido Republicano em Setúbal (dias 24 e 25 de Abril). Surge um novo directório, afecto aos radicais, com elementos ligados à carbonária, com o mandato de fazerem a revolução, contra a perspectiva legalista de Bernardino Machado. Dele, fazem parte Teófilo Braga, Basílio Teles, José Relvas, Eusébio Leão (1864-1926) e Cupertino Ribeiro. Os anteriores notáveis do partido são remetidos para uma junta consultiva. Nomeada uma comissão financeira, presidida por Bernardino Machado, visando angariar fundos para a revolução. Criado um comité revolucionário, dito comissão executiva de Lisboa, composto por João Chagas, Afonso Costa, António José de Almeida e Cândido dos Reis.

O povo não está feito – Fazer vingar a causa do povo em Portugal é operar uma obra de prodígio. É por assim dizer- criar. O povo não está feito. É fazê-lo. Não é ressuscitá-lo. Ele nunca existiu. Na realidade, é dar-lhe nascimento e mostrá-lo à própria nação assombrada, como um homem novo e sem precedentes (João Chagas)

 

1910

A causa do povo – Ao reunir-se para eleger o último directório do Partido Republicano Português, datada de 12 de Abril, reconhece que fazer vingar a causa do povo em Portugal é operar uma obra de prodígio. É por assim dizer- criar. O povo não está feito. É fazê-lo. Não é ressuscitá-lo. Ele nunca existiu. Na realidade, é dar-lhe nascimento e mostrá-lo à própria nação assombrada, como um homem novo e sem precedentes ( João Chagas).

Que me importa a província? Que importa mesmo o Porto! A República fazemo-la depois pelo telégrafo ( João Chagas)

●Às 19 horas e 30 minutos  de 4 de Outubro João Chagas e José Barbosa, depois de uma reunião na administração das Cartas Políticas, na rua do Arco da Bandeira, vão jantar à Charcutaria Suíça e, depois, dirigem-se para a última reunião dos revolucionários, no estabelecimento dos Banhos de São Paulo, para onde se mobilizam Eusébio Leão, Afonso Costa, António José de Almeida, José Relvas, Inocêncio Camacho, José Barbosa, João Chagas, Marinha de Campos, Celestino Steffanina e António Maria da Silva.

Um verdadeiro cataclismo – Deu-se aqui um verdadeiro cataclismo. Cai numa manhã uma tradição de sete séculos, sacudida por um estremecimento social que só tem equivalente num tremor de terra. Rolou por terra um trono, sob uma chuva de granadas, e um rei espavorido tomou o caminho do exílio, num batel de pescadores. Tudo o que fazia a sua omnipotência cai com ele e foi subvertido – a corte, a nobreza, o governo, o parlamento, o seu palácio e a sua guarda ( João Chagas).

 

1911

Divisões entre os republicanos – João Chagas demite-se, em 15 de Fevereiro, da junta consultiva do partido republicano, considerando que esta e o directório deixaram de ter qualquer influência no governo provisório.

Governo nº 57 (3 de Setembro) João Pinheiro Chagas (70 dias, cerca de dois meses e meio). O presidente Arriaga, depois de tentar um governo de concentração, que pretendia liderado por Duarte Leite, acaba por escolher um gabinete dito extra-partidário, onde a maioria dos ministros é camachista, tendo na pasta da guerra, o mais antigo dos generais portugueses, até então comandante militar do Norte, Pimenta de Castro, directamente indicado pelo presidente da república.

Segundo Guerra Junqueiro, o programa do Governo escreve-se numa folha de papel de cigarro: - paz religiosa, ordem no orçamento, justiça e verdade. E o Chagas é inteligente e hábil e tem vontade de acertar. Ainda que não ame a justiça, vai ser justiceiro por cálculo; ainda que não ame a verdade, vai ser verdadeiro por habilidade

●O gabinete, tendo a oposição dos afonsistas, acaba por perder o apoio, sempre frouxo, dos almeidistas. Grupo parlamentar democrático declara-se em oposição ao governo (7 de Setembro), pouco tempo antes de Afonso Costa inaugurar em Lisboa o primeiro Centro Republicano Democrático (1 de Outubro).

●Presidente acumula o interior e os estrangeiros. Duarte Leite Pereira da Silva (lente de matemática) nas finanças. Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (capitão e lente de matemática) no fomento. João Duarte de Meneses na marinha. Diogo Tavares de Melo Leote (juiz) na justiça. Joaquim Pereira Pimenta de Castro na guerra. Celestino Germano Pais de Almeida (1861-1922) (médico) nas colónias.

●Em 8 de Outubro: o camachista Alberto Carlos da Silveira, coronel do Exército, na guerra que logo se alia aos jovens turcos.

●Em 12 de Outubro: Augusto César de Almeida Vasconcelos Correia (professor de medicina e até então ministro de Portugal em Madrid) nos estrangeiros.

Um republicano histórico. João Chagas, em 1890 publicava, no Porto, o jornal A República Portuguesa. Estava preso por crime de imprensa na Relação do Porto quando se deu a revolta do 31 de Janeiro de 1891, sendo, contudo, condenado por instigar à mesma. Desterrado para Luanda e Moçâmedes, foge daqui. Volta ao Porto e volta a ser preso em finais de 1892. De novo desterrado para Luanda. Amnistiado pelo governo de Dias Ferreira. Edita no Porto entre 21 de Dezembro de 1893 e 3 de Junho de 1894 o Panfleto. Edita depois A Marselhesa e O País. Inicia-se na maçonaria em 1896. Preso em 28 de Janeiro de 1908. Libertado pelo governo de Ferreira do Amaral, começa a editar, entre 10 de Dezembro de 1908 e 25 de Dezembro de 1910, as Cartas Políticas.

 

1915

Governo nº 64 (15 de Maio) João Chagas/José de Castro – Governo nomeado por Manuel de Arriaga (15 de Maio). Dura seis meses e meio, 199 dias. Utiliza-se o modelo defendido pelos jovens turcos, isto é, um um governo nacional, não partidário, visando a restituição da República aos republicanos. Escolhem João Chagas que desde 1914 se tinha transformado no mentor dos mesmos. Chagas tinha-se demitido do cargo de ministro de Portugal em Paris e regressara à pátria, em Março, tendo emitido dois folhetos anti-pimentistas. Portugal perante a Guerra e A última Crise, ambos editados no Porto. Álvaro de Castro entrara em conflito com o partido democrático, desde que, em Maio de 1914, no congresso, propusera um aumento dos impostos para se custear o rearmamento. A Junta procura juntar no governo Costa, Camacho e Almeida. Todos recusam.

Atentado – O senador João de Freitas tenta assassinar João Chagas no comboio Porto-Lisboa, perto do Entroncamento (16 de Maio). Este fica gravemente ferido e perderá um dos olhos. O agressor é linchado pela multidão. João Chagas estava, então, de visita a Portugal.

 

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Projecto CRiPE- Centro de Estudos em Relações Internacionais, Ciência Política e Estratégia. © José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: 28-04-2007