1965

Do assassinato de Delgado ao fim da unidade nacional na defesa do ultramar

Cosmopolis

© José Adelino Maltez, História do Presente, 2006

 

Assassinato de Humberto Delgado (13 de Fevereiro). Bando da PIDE assassina o general. O tiro fatal é disparado pelo agente Casimiro Monteiro. A brigada é chefiada por Rosa Casaco. Henrique Cerqueira, em Rabat, dá alarme. Os cadáveres do general e da secretária apenas são descobertos no dia 24 de Abril. Prisão de Mário Soares, Raúl Rego, Pires de Lima e Catanho de Meneses, quando se dirigiam para Espanha a fim de acompanharem inquérito sobre a morte de Delgado, em 9 de Setembro. São libertados no dia 21.

Surge a XIV comissão executiva da União Nacional, sob a presidência de Castro Fernandes, com Armando Cândido de Medeiros, Arnaldo Pinheiro Torres, Francisco Cazal-Ribeiro e Francisco Soares da Cunha (18 de Fevereiro).

Remodelações – Em 19 de Março: Silva Cunhaö no ultramar; Correia de Oliveira passa a ministro da economia; Mota Veiga é o novo ministro de Estado.

Em 12 de Abril: Machado Vaz nas obras públicas.

Em 14 de Junho, Ulisses Cortês nas finanças.

Nomeações universitárias. O regime mobiliza dois ex-ministros para reitores das universidades lisboetas. Na Universidade Técnica de Lisboa, Francisco Leite Pinto. Na chamada Clássica, Paulo Cunha

Prisões políticas e outros incidentes – Prisão de vários estudantes universitários em Lisboa e Coimbra (Janeiro). Oposicionistas protestam formalmente em mensagem dirigida ao Presidente da República contra as violências policiais durante a crise universitárias (3 de Fevereiro).

Em Maio é preso Domingos Abrantes, do Comité Central do PCP, no âmbito de uma operação policial onde se desmantela parte da rede clandestina do partido no Sul do país.

Em 21 de Maio a Sociedade Portuguesa de Escritores, presidida por Jacinto Prado Coelho, atribui um prémio literário a Luandino Vieira, nome literário do independentista angolano, José Vieira Mateus Graça, pelo seu livro Luuanda. Há vários protestos de grupos ligados ao regime e a defesa militar do património africano, um assalto à instituição e a consequente dissolução da mesma por despacho do ministro da educação nacional, Inocêncio Galvão Teles. Os escritores Joaquim Paço d'Arcos e Luís Forjaz Trigueiros, em protesto, chegaram a pedir a demissão da sociedade.

Conselho Geral da Ordem dos Advogados apresenta documento ao Ministro da Justiça, enumerando as ilegalidades cometidas pela PIDE e pela PJ, solicitando-se um inquérito às actividades daquelas polícias (19 de Maio). Neste dia também começa greve dos operários do mármore na zona de Pero Pinheiro, que dura durante cerca de doze dias. Apelo dos oposicionistas por uma amnistia, demissão de Salazar, dissolução da Assembleia Nacional e nomeação de um governo de transição (20 de Maio). Um dos organizadores do documento é Francisco de Sousa Tavares.

Cristãos progressistas – Na campanha eleitoral de Outubro, aparecem vários cristãos que alinham com a oposição democrática, pondo acento tónico na defesa dos direitos do homem e utilizando como bandeira a pastoral de João XXIII.

Surge também um Movimento Cristão de Acção Democrática, depois da emissão de um manifesto Cristianismo e Política Social. Por seu lado, o Opus Dei lança a revista universitária Tempo, tendo como editor Adelino Amaro da Costa e contando, entre os colaboradores, João Morais Barbosa, Raul Junqueiro e José António Lamas.

Já o tradicional reviralhismo continua a romagem ao jazigo de António José de Almeida em Lisboa (5 de Outubro) e promove no Porto uma reunião magna dos candidatos da oposição (10 de Outubro). Já

Nuno Bragança lança o manifesto de uma chamada Resistência Cristã

Manifesto da oposição defende autodeterminação do Ultramar (14 de Outubro). Subscrevem-na por Lisboa Acácio Gouveia, Adão e Silva, Zenha, Medeiros Ferreira, Sottomayor Cardia, Mário Soares, Raúl Rego, Nuno Rodrigues dos Santos. Pelo porto, António Macedo, Armando Bacelar, Artur Santos Silva, Cal Brandão, Hélder Ribeiro, Olívio França. Por Leiria, Vasco da Gama Fernandes e José Ferreira Júnior. A mensagem é comunicada através de conferência de imprensa realizada no Centro Escolar Republicano Fernão Boto Machado, em Lisboa.

Comunistas – Realiza-se na URSS, nos arredores de Kiev, o VI Congresso do PCP, que elege um secretariado do Comité Central, com Álvaro Cunhal, Sérgio Vilarigues e Manuel Rodrigues da Silva. Mobilizam-se três dezenas de militantes, cerca de 75% dos quais são funcionários do partido. Participam Silva Marques e outros altos hierarcas de então, como Pedro Ramos de Almeida, destacado em Argel, Francisco Miguel, Pedro Soares, Joaquim Gomes e Georgette Ferreira. É o primeiro congresso depois da cisão de Francisco Martins Rodrigues.

 

Eleição nº 61 (7 de Novembro) da Assembleia Nacional. 120 deputados. Várias candidaturas da oposição em Lisboa, Porto, Braga, Viseu e Leiria. União Nacional obtém em Lisboa 68% e no Porto, 64%, depois de várias manifestações das chamadas forças vivas que se insurgem, encenadamente, contra os propósitos da oposição sobre o Ultramar.

 

& Alves, José Felicidade: 117 ss.; 163 ss.; 179; Antunes, José Freire (I,1985): 20; Cardoso, Sá (1973): 201 ss.; Cruz, Manuel Braga da (1998): 161; Cunhal, Álvaro (A Revolução Portuguesa): 63 ss.; Sousa, Marcelo Rebelo de: 165, 169; Soares, Mário (1972/1974): 350; Tomás, Américo (III): 187, 188, 198. No ano de 1965 concluímos o terceiro ano do curso do liceu. Recordamos dois fundamentais professores: o professor de História, Ildefonso, que me entusiasmou e formou, e a professor de Geografia, a Rata Sábia. Um deu-me as raízes do tempo e das ideias. A outra abriu-me a todas as parcelas do mundo. As matérias de física e de química fizerem apaixonar-me pelos laboratórios e comecei a transformar o sótão da minha casa de Cernache num pequeno laboratório, onde ia fazendo algumas experiências com tubos de ensaio, ao mesmo tempo que comecei a coleccionar rochas e minerais.

 

© José Adelino Maltez. Cópias autorizadas, desde que indicada a origem. Última revisão em: